TANGER O MEDO
(Chico Ribeiro Neto)
Um cartaz de papel colado à parede de um bar na Barra diz: “Fim do Medo”.
Medo da professora, do leão do circo, do palhaço, do escuro, medo de Donald Trump.
Medo de perder o emprego, a vergonha, a esperança, o vestibular e a mulher.
Medo de careta, da polícia e do ladrão. De perder o ônibus, o carro e a vontade de viver.
Medo de deixar de crer no país, do vizinho e de sair à noite em Salvador. De assombração, de avião, de avestruz e de onça.
De barata, de dentista e de lagartixa.
Medo do banco, de emprestar dinheiro e do golpe no celular.
Medo de gafanhoto, de trovoada e de cara escroto.
Lembro o belo poema de Carlos Drummond de Andrade, “Congresso Internacional do Medo”:
“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.
Com as armas de Jorge, a certeza das flores e um certo brilho nos olhos, vamos tanger esse medo para bem longe, pra casa da zorra ou, como dizia meu pai Waldemar, “pra lá onde Judas perdeu as botas”.
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