:: out/2025
PACOTES DA VIDA
(Chico Ribeiro Neto)
Antes de nascer, a gente já é empacotado na bolsa amniótica e vai lidar com embalagens durante toda a vida.
Acho que foi minha primeira ideia de infinito: no rótulo da lata de aveia havia uma mulher segurando uma lata daquela aveia, em cujo rótulo tinha uma mulher segurando uma lata…e por aí ia minha imaginação.
Quem compra um sanduíche ganha uma coroa. A criança pega a coroa e larga o sanduíche. Hoje o pessoal embala até carro zero, que vem coberto por um laço vermelho.
Muitas lojas hoje não embrulham pra presente. Algumas dão o papel pra você embrulhar em casa. Outras, nem isso. Quem viveu nas décadas de 70/80 lembra das lojas Mesbla e Sandiz. Tinham um balcão especial de embaladores. As vitrines de Natal eram fantásticas e a Prefeitura de Salvador promovia um Concurso de Vitrines.
Uma vez, a Mesbla da Avenida Sete, em Salvador, colocou uma mulher de maiô na vitrine. Era uma multidão, a maioria homens, apinhada diante da vitrine. Uns dizendo leros e outros fazendo sinais com as mãos diante da acuada manequim viva.
A história das embalagens revela que há 10 mil anos se usava cascas de coco, conchas e folhas de árvores para guardar e transportar alimentos. Muitos séculos depois viriam os barris de madeira, os barros para potes e
cestos de fibras vegetais. Com a revolução industrial, vieram a folha de flandres (para latas) e o papel em escala industrial.
Na feira de Ipiaú cada um levava sua cesta ou então pagava um carrinho guiado por meninos.
Nas décadas de 50/60 a carne do açougue era embrulhada em jornal. As compras no armazém eram enroladas naquele papel grosso, cinza, e passavam o barbante. Meu pai Waldemar tinha a Padaria Minerva, em Ipiaú, e convocava meu irmão Luiz, toda sexta à noite, para fazer os pacotes de 250 gramas de feijão, arroz, café e açúcar, porque sábado era dia de feira. Antigamente, se vendia meio quilo ou duzentos-e-cinquenta de vários produtos. Isso devia voltar. Quem mora sozinho não precisa comprar, por exemplo, um quilo de sal nem de açúcar.
A embalagem com papel bolha é boa pra pocar as bolhas, uma por uma. Ninguém resiste. A caixa de sapatos era um trambolho, mas mamãe Cleonice usava pra guardar as bolas da árvore de Natal.
Depois que morre, a gente é empacotado.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
UM ACERVO ARTÍSTICO CULTURAL E SUA HISTÓRIA DE LUTA PELA PRESERVAÇÃO
Há mais de 30 anos, desde quando aqui cheguei em Vitória da Conquista, venho construindo, aos poucos, um acervo cultural que hoje contém cerca de sete mil itens entre livros, artesanatos, vinis, revistas em geral, recortes de jornais antigos, CDs. DVDs, quadros fotográficos autorais, outros objetos de valor e uma coleção em torno de 200 chapéus.
No decorrer deste tempo, o acervo passou a se chamar de Espaço Cultural a Estrada e já sofreu quatro mudanças, sendo a última do Bairro Felícia para o loteamento Sobradinho (Zabelê). Entre essas mudanças perdi alguns materiais, mas, os mais valorosos ficaram em minhas lembranças que foram umas gramáticas e dicionários raros de latim e grego.
Em todas as mudanças é sempre normal que alguma coisa se quebre pelo caminho. Este acervo foi crescendo e tomando dimensões que nem eu mesmo esperava e, consequentemente, os problemas foram aumentando no sentido da responsabilidade pela sua preservação para que fique para outras gerações.
A última mudança foi realizada com muito sacrifício e luta. No entanto, o mais grave estava por vir e confesso ter ficado muito abalado porque ele já faz parte da minha vida, como se fosse um filho, e de tantas outras pessoas amigas frequentadoras deste espaço através do Sarau A Estrada, que completou quinze anos de existência.
Em razão de um telhado mal feito, sem o devido caimento, por um “mestre de obra” de nome Luciano Gomes, as águas da chuva do último domingo (dia 19/10/2025) e as outras que vieram em sequência na segunda-feira penetraram entre as telhas como cachoeiras. A cena era de total alagamento.
O desespero não poderia ter sido maior e imaginei naquele momento que tudo estaria perdido, mas não existia outra opção a não ser lutar até o fim para salvar o nosso acervo que, há muitos anos, não mais pertence a mim. É como uma obra de arte que se torna pública e de pertencimento coletivo. É um acervo de todos nós.
Foi nessa hora de agonia que eu e minha esposa juntamos forças e coragem para arrastarmos com rodo, baldes e outros utensílios as águas que não paravam de cair. Tudo estava prestes a alagar, mas conseguimos conter e evitar que tudo fosse por “água abaixo”. As nossas lentes registraram a situação.
Nos momentos de maior perigo, nossas forças humanas de preservação duplicam e triplicam. Se lá atrás, em maio, sua mudança foi complicada, o inesperado superou e, depois do cansaço, bateu o dilema da reconstrução da parte física para asseguráramos a integridade deste patrimônio cultural.
Foi aí que entrou o grupo de estradeiros do Sarau a Estrada que nos deu ânimo e nos encheu de esperanças para recomeçarmos. Antecipadamente, agradecemos a todos que, de forma voluntária e espontânea, estão chegando juntos através de suas contribuições.
Nossa gratidão é também extensiva aos que não puderam contribuir financeiramente, mas expressaram seus sentimentos com relação ao ocorrido e se uniram a todos nós com suas palavras de esperança de nunca desistir.
Este acervo tem outras histórias de lutas e união, bem como de resistência em defesa da nossa cultura que, infelizmente, foi abandonada nos últimos anos em Conquista. É um espaço onde tem o pedaço de cada um, sem nenhuma ajuda do poder público.
É aqui que debatemos diversos assuntos, trocamos conhecimento e saber, fazemos nossas cantorias, declamamos nossos poemas, contamos nossos causos, soltamos nossas vozes e nos confraternizamos. Tornou-se um espaço de visitação de jovens estudantes e estamos com o propósito de levarmos o sarau até às ruas, ou ao povo.
MEU NORDESTE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu Nordeste,
Do Sertão, Carrasco Agreste,
Da Mata e do Brejo Cerrado,
Do misticismo religioso,
Vindo das caravelas do Rio Tejo,
Abençoai-nos, oh todo Poderoso!
Meu Nordeste,
Dos engaços espinhentos,
Até na florada do mandacaru,
Meu Nordeste
Do Juazeiro e do fruto do Umbu!
Quero cravar minhas mãos nesta terra,
Molhada pelas chuvas do trovão;
Quero liberdade, justiça e pão;
Quero ler todos escritores,
Ao Graciliano Maior;
Ouvir Caetano, Gil, Zé e Vandré
Até chegar a Belchior.
Meu Nordeste,
Nação de guerreiros,
Com seus litorais poéticos,
Cheiro encourado dos bravos vaqueiros,
Do couro dos partos nos quartos,
Contraste que se faz harmonia,
Na louvação dos céticos,
Onde tudo exala poesia.
Do meu Nordeste,
Livrai-nos, Senhor dessa canga,
Que deixa nosso povo na tanga!
TUDO DE NOVO NA “RODA-VIVA” DA VIDA
– É, meu camarada, parece que foi ontem que festejamos o tradicional réveillon ou Ano-Novo e já estamos no final do ano. Lá se foram a muvuca louca do carnaval, o Dia das Mães, dos Namorados, Semana Santa, o São João não mais autêntico, todo misturado e melado, Dia dos Pais e os feriadões. Ah, e suas metas programadas estão sendo cumpridas?
– Pois é, meu amigo, e a gente aqui dando uma de bobeira levando a vida como ela é, nos roendo aos poucos com nossas quizilas e tomando umas para passar o tempo, jogando conversa fora. Esqueceu de falar do Campeonato Brasileiro e da Copa Brasil onde o torcedor fica doido e fanático ao ponto de matar o outro dentro e fora dos estádios. Quanto aos planos e mudanças, vou por aí fuçando o focinho pela terra.
– Estamos entrando novamente no “cio” do consumo desenfreado dos presentes, da mídia que fica nos instigando a comprar mais e mais, do Feliz Natal e Ano-Novo. E assim caminha a humanidade. Logo mais vamos ouvir aquela frase costumeira nos shoppings: “já comprou o seu? Respondeu o camarada, que até chamou os outros para um brinde antecipado. “ Do jeito que o bicho está pegando, a gente não sabe mesmo o que pode acontecer até lá. O negócio é comemorar logo”.
– Vocês estão aí nesse papo cavernoso fútil, enquanto o mundo pega fogo; massacre genocida na Palestina; Trump nazista jogando bombas na América Latina; nêgo misturando metanol em destilado; e o Congresso Nacional comendo nosso fígado – falou o outro companheiro ao lado, mais preocupado com essa situação de território arrasado.
– O negócio é não pensar muito, cara, senão você enlouquece. como disse, a vida é uma “Roda-Viva”. Não esquenta a cabeça. Faça do limão uma limonada, como se fala por aí. Viva sua vida de cada dia, sem filosofar seus mistérios. Daqui a pouco vai precisar de um psiquiatra maluco – tentou acalmar o camarada.
Como disse o cancioneiro compositor nordestino, Alceu Valença, são as emboladas do tempo que, segundo ele, não tem início e nem fim. O tempo não para, canta Cazuza. Aliás, o tempo nem está aí para os poetas, vai seguindo sua estrada, como um vulto ou uma sombra de nós mesmos.
O capitalismo não dá folga ao tempo e nem entra de férias. Nós somos suas presas prediletas em suas teias de aranha. Ele é insaciável e nunca se farta. A esta altura já tem lojista enfeitando seus estabelecimentos com adereços natalícios.
– Por falar em tempo e o escambau, os golpistas também estão em plantão direto. O crime está mais organizado que o Estado, que agora saiu com essa de aumentar as penas para os bandidos quadrilheiros mafiosos do PCC e outros grupos. A esta hora devem estar dando gargalhadas, tomando uísque em suas piscinas “cheia de ratos” – disse o camarada da “Roda-Viva”.
Sem deixar escapar a pegada do papo descontraído, o companheiro saiu com essa de que esse Natal e Final de Ano vão ser sem destilados nas mesas. As cervejarias e os vinicultores agradecem. Ah, cada família (só os endinheirados) vai contratar um provador de comida, para ver se não está envenenada ou contaminada. Vá acreditar em industrializados! Podem estar batizados.
– E quanto as cestas básicas aos pobres do “Natal sem Fome” que já está chegando, com aquelas campanhas nas televisões, acompanhadas do “hô, hô, hô” do Papai Noel, dando presentes às criancinhas? Aliás, existem dois tipos ou mais de “Papais Noéis”, os das lojas chiques e os das periferias. Até as risadas são diferentes, senão quebra o clima da desigualdade social.
– Você está é ficando velho demais. Até virou pensador com essa de “Roda Viva da Vida”, do tempo que corre mais rápido e outras tiradas filosóficas! Deve ter visto muita criança nascer que se tornou marmanjo ou marmanja de netos! Vamos no popular do humorista Chico Anísio! Ah que saudades dele! Lembra daquela: Pobre que se exploda?
O DUELO ENTRE O BEM E O MAL
Sempre se tem dito que o bem vence o mal. Será que na conjuntura atual da humanidade está sendo assim, ou o bem está sendo colocado no arrasta chinelo? Pelo menos nos noticiários do dia a dia estamos vendo o mal acelerar na dianteira da vida.
Creio ser um assunto polêmico, e muita gente prefere não fazer essa associação dialética ou filosófica entre o que seja o bem e o mal. As visões e as análises são diferentes, bem como os conceitos e impressões.
Quando procuro a face do bem, no sentido do que é ético, honesto, sincero, do não fazer maldades para os outros, não roubar, não trapacear, enganar, cometer corrupções e os pecados capitais, a vejo escassear nas multidões perdidas e desiludidas, sobretudo entre os jovens.
Eles (bem e mal) andam lado a lado desde os primórdios do ser humano. Será que a partir do princípio, o mal prosperou desde quando foi criada a pior espécie animal, que é a humana? Tem gente por aí até envergonhada de pertencer a esta raça.
Vivemos nesse dilema, ou nesse duelo existencial. Em minha concepção, o mal está nos engolindo, nos tragando e nos arrastando para o precipício, para não falarmos em abismo.
Em se tratando do bem, o que ouvimos hoje é que não se deve mais confiar em ninguém. Vivemos numa sociedade dos golpes, do vendedor e do prestador de serviços que tudo faz para lhe esconder o defeito do produto ou da sua obra.
Nos cursos sobre mercado e empreendedorismo sempre se houve do palestrante que nunca se deve enganar o cliente, mas, infelizmente, faz-se o contrário. Até há poucos tempos, e não estou me referindo há cem anos, as pessoas eram mais corretas, mesmo sem essa evolução da “aprendizagem moderna”.
No macro, no caso específico do nosso Brasil, o que temos atualmente é um Estado paralelo da criminalidade, do ponto de vista das organizações criminosas de um modo geral, bem mais forte e na frente da ordem policialesca dos governos.
Nos três poderes, ou nas três castas, impera a corrupção, que sempre fica impune, por mais que se investigue ou se tenha provas contundentes. Todas são diluídas pelas brechas das leis dos mais fortes. Esta corrupção não está apenas no alto da pirâmide, ou no planalto, ela se espalhou pela planície inteira.
É a partir desta minha leitura, talvez pessimista e derrotista, que enxergo que o mal está levando a melhor nesse duelo de forças. A situação se deteriorou tanto que hoje o errado se tornou certo, o anormal em normal, o amoral em legal, o incomum em comum e vamos levando a vida resignadamente, sem colocar nossa indignação em campo.
Se formos olhar para o mundo, no âmbito global dos países, dos mandatários poderosos e até nos de menor poder, o que observamos é o pêndulo da balança visivelmente a favor do mal.
Nessa questão, estou me referindo ao retrocesso das ideias, como se estivéssemos revisitando os tempos medievais. É a força do mal superando o bem? O consolo é que grandes escritores e intelectuais do passado nos ensinaram que vamos ter um mundo melhor.
No entanto, avançamos nas inovações tecnológicas e demos vários passos atrás no quesito humanismo, ou seja, temos hoje uma humanidade mais desumana. Prefiro não avançar mais nessas minhas lucubrações entre o bem e o mal, para não dar mais crédito ao último.
SARAU VAI À RUA PARA DEFENDER A REVITALIZAÇÃO DA NOSSA CULTURA
Sem discurso político partidário, o Sarau A Estrada vai à rua com sua pauta de reivindicações para defender uma política cultural para os artistas de Vitória da Conquista. Nossa manifestação é para o povo para que o poder executivo atenda as nossas demandas já que os documentos da classe têm sido engavetados sem resposta.
A nossa luta agora será na rua ao lado da comunidade. Essa posição foi tomada pelo sarau realizado no último sábado (dia 18/10) onde a assembleia reunida aprovou sua programação e a decisão de que o foco das discussões será direcionado para a questão específica da cultura visando beneficiar todas as linguagens artísticas.
Os trabalhos foram abertos por Dal Farias e Viviane Gama nos trazendo a formação das comissões e suas devidas atribuições. Vários estradeiros usaram da palavra para colocar suas posições de políticas culturais. Além da abertura dos equipamentos culturais, como Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha, queremos a construção do Plano Municipal de Cultura com a participação de todos artistas e políticas públicas que também cheguem ao povo. Na rua vamos levar a nossa pauta de reivindicações.
Logo depois entrou o violeiro Vanberto que nos brindou com seu vasto repertório da música popular brasileira, sem contar a apresentação da parceria entre Manno Di Souza e Marta Moreno. Tivemos ainda uma linda canção autoral no estilo capela, cantada pelo poeta Aurelício.
As cantorias foram intercaladas com a declamação de poemas autorais de poetas e poetisas. No final houve os parabéns aos aniversariantes do mês de setembro num clima de confraternização como sempre ocorreu em nossas noites de saraus durante esses quinze anos.
Foi mais uma noite de debates e opiniões em torno da cultura conquistense que é o nosso alvo, mesmo porque o Sarau, como o próprio nome já diz, é um espaço fazedor de arte onde todos têm a oportunidade de expressar seus talentos artísticos e discutir ideias, conhecimento e saber, e não um partido político, um sindicato ou uma instituição partidária, tanto que aqui é um lugar de convivência de diversas ideologias.
Desde a sua fundação, há 15 anos, temos esse princípio básico, essa linha de nos ater à política cultural que é o papel de qualquer sarau, desde suas origens, um ambiente para festejar a cultura através de debates sobre variados temas, cantorias, declamação de poemas, contação de causos e a troca de conhecimento. Fora disso o sarau perde seu sentido e sua essência de ser.
Como base nesse princípio, foi isso que aconteceu no sarau do dia 18/10, realizado no Espaço Cultural A Estrada, num ambiente de amizade, de festa, de cordialidade e de magia fraternal. Se mudarmos esse caminho, vamos sim, perder o rumo e o sarau termina se acabando. Vamos mudar para acabar, ou vamos preservar sua tradição para que ele continue a viver e a prosperar?
Ao longo desse período nos evoluímos sem perder o seu alicerce. Estamos abrindo as portas para os jovens estudantes, com visitas ao Espaço Cultural, para um bate-papo sobre cultura, arte, conhecimento e saber. Agora vamos levar o nosso sarau até a rua e nos juntar ao povo, tão carente de cultura.
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FATOS CURIOSOS DO NORDESTE
CANGA E CANGAÇO
Existem muitas controvérsias em relação às origens do termo cangaço (cangalha). Para alguns estudiosos do assunto, sua origem vem de “canga” e surgiu no século XIV. Arrumação de madeira sobre telhados de palha, peça para prender junta de bois a carro ou arado. Pode ser instrumento de suplício chinês, ganga, domínio, opressão. A origem poder ser ainda quicongo kanga de nhanga. Outros falam da origem tupi acanga. Há quem diga que o termo cangaço é de origem africana.
GATO
Quando já era membro do bando de Lampião, certa feita o cangaceiro Gato pediu permissão ao chefe para irt visitar seus parentes. Aproveitou a ocasião para massacrar toda família. Como não tinha mais pais vivos, matou a avó, duas tias, quatro irmãs e dois primos. Adolfo Meia-Noite, de Afogados do Ingazeira, Pernambuco, foi espancado pelo tio para não cortejar sua filha. O cangaceiro se vingou e assassinou o agressor.
CIVILIZAÇÃO DO COURO
Para o pesquisador João Capistrano de Abreu, ao falar sobre a civilização do couro, dizia que essa pele era muito usado nas portas das cabanas, no rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde serviu de cama para partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforge de levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, ou para apurar sal; as broacas e surrões, a roupa de entrar no mato; os banguês para curtume.
A CAATINGA E SUAS DIVISÕES
A caatinga é o bioma predominantemente nordestino único no mundo, mas tem suas subdivisões. Dentro dela temos o Sertão (sete milhões de hectares), o Seridó, com 3,5 milhões, o Agreste (seis milhões de hectares, o Brejo e a Mata. Na caatinga, os solos podem ser rasos, de origem arqueana, como em Pernambuco. O Agreste do Piauí é todo em formação sedimentar, a topografia é bem plana e o solo carece de corretivo. Entre a Mata, parte chuvosa e a Caatinga interior, está o Agreste.
A ESTRADA DE FERRO
De acordo com o pesquisador Robert Levine, a estrada de ferro não só possibilitou novas ligações com a costa, como implementou mudanças no modo de vida do sertanejo. Numa região onde os únicos eram padres missionários, chegavam agora imigrantes para trabalhar como engenheiros das ferrovias. Mil trabalhadores vieram da Sardenha e da Itália, sendo a maioria de Turim, isto na segunda metade do século XIX. Os missionários evangélicos não eram bem vistos pelos católicos. Conta que o escocês David Law foi expulso de fábricas de Recife por distribuir e divulgar livros religiosos para os operários.
DE BELÉM PARA O NORDESTE
Quando o imperador D. Pedro II visitou lugares sagrados no território da Palestina, em 1887, conversou com autoridades locais que conseguiram recursos na França e enviaram grupos de Belém para o Nordeste. Essas pessoas, em sua maioria, foram morar no Ceará e no Piauí, mas não suportaram as duras condições climáticas e nem se adaptaram à cultura local. No entanto, em 1930, os árabes, sobretudo de origem palestina, controlavam o comércio atacadista de Recife.
ESTRANGEIRAS
As empresas estrangeiras, especialmente as ferroviárias, não eram bem vistas pelos cangaceiros porque serviam para transportar as forças volantes e transmitir informações. Lampião chegou a capturar representantes de vendas da Standart Oil e da Souza Cruz no sertão. Servidores que atuavam em empresas nacionais e estrangeiras levavam muitas notícias para aquelas áreas. Em Mossoró, no Rio Grande do Norte, entre 1872 e 1874, pelo menos dezoito firmas estrangeiras se registraram na cidade.
MINORIA DE ESCRAVOS
Na segunda metade do século XIX, os escravos existentes no sertão nordestino eram minoria e de interesse econômico menor do que os trabalhadores livres. No casso específico do cangaceiro romântico Jesuíno Brilhante, podia-se dizer que ele não fazia parte dos mais pobres. Era originário de uma família de posses.
RASO DA CATARINA
Os historiadores, de uma forma em geral, descrevem o Raso da Catarina (seis mil quilômetros quadrados), entre Paulo Afonso Glória) e Jeremoabo, na Bahia, como uma região inóspita e muito seca, de difícil acesso. Lampião e vários grupos de cangaceiros sempre utilizaram esse deserto dentro da caatinga como esconderijo, pois as volantes evitavam entrar ali, temerosas de enfrentarem as agressividades e a inclemência do clima.
SUBORNO DE POLICIAIS
Desde o início do cangaço, na segunda metade do século XIX, a maioria dos policiais era subornada pelos cangaceiros que requisitava dinheiro dos vilarejos para pagar os chamados “macacos”. Uma pequena parte dos roubos era distribuída entre os pobres, como fazia Antônio Silvino. Foi assim que ele chegou a conseguir apoio popular. As extorsões não tinham como principal objetivo redistribuir renda, mas assegurar quantias necessárias para si e para seus homens. Uma pequena porção do coletado era para os pobres.
GUERRA DO PARAGUAI
O historiador Ulysses Lins de Albuquerque narra que o “coronel” Tomás de Aquino Cavalcante, em 1866, como diretor dos índios carnijós, convocou todos eles para uma reunião em frente da Cadeia Pública de Águas Belas. Mandou a rapaziada entrar no salão e então anunciou que o pessoal teria que ir lutar na Guerra do Paraguai. Os indígenas foram algemados e enviados para Recife e, em seguida, para o combate.
UM BRASIL FALSIFICADO
Como se diz no jargão jornalístico, vou pegar aqui um “gancho”, ou no popular mesmo, uma “ponga” do meu colega Chico Ribeiro Neto, com suas exímias crônicas, com quem tive o privilégio de trabalhar na redação do jornal A Tarde, lá em Salvador, por muitos anos, para falar um pouco desse nosso Brasil falsificado e misturado.
Para começar, a gente costumava tomar umas pingas nuns botecos cavernosos depois das matérias, mesmo sabendo que se tratava de cachaça “batizada”. Muita doideira depois de um dia de estresse correndo atrás do fato! No outro dia era aquela ressaca danada e batia aquela enxaqueca.
– Fala sério, meu caro e cara, dá para confiar nos produtos brasileiros, no que você come e bebe, principalmente nos dias quadrilheiros de hoje? Poderia fazer aqui uma lista de itens falsificados que atravessaria o Oceano Atlântico até a Europa, inclusive remédios. Nem vamos falar da gasolina!
Quando se adquire um objeto imprestável que dura poucos dias, sempre quem leva a fama é o nosso país vizinho, aqui bem do nosso lado. “Isso aqui é paraguaio, meu irmão”! Quem mistura e falsifica mais? Pode dar empate – respondeu de lá, o meu camarada.
Quando era repórter da Editoria de Economia, lá pelos anos 70 e 80, uma vez dei um “furo” de reportagem sobre exportadores baianos de sisal que colocavam bagaços e até pedras nos fardos para pesar mais. Isso causou um escândalo no exterior e muitos países deixaram de importar o nosso sisal. O mesmo se fazia com o algodão.
Essa coisa de falsificação e misturada vem desde 1500 quando Cabral aqui chegou e trouxe de Portugal presentes falsificados, de quinta categoria, para conquistar a curiosidade e a “confiança” dos índios. Com a chegada da Família Real, em 1808, a coisa piorou mais ainda.
Com a abertura dos portos para os ingleses, boa parte das compras era feita em ouro que foi logo se desvalorizando. Depois veio a prata que também sofreu uma queda drástica. Partiram, então, para as moedas de cobre. Com elas surgiu a macuta ou xenxém, que era o cobre falsificado.
Quando esse metal começou a faltar, aí entrou uma enxurrada de cobre falso no mercado interno. Em 1832, mais de 40% das moedas em circulação no país eram falsas. Até os governos pagavam os salários dos seus empregados com dinheiro falsificado e a coisa rolava de mão em mão.
Nos dias atuais estamos acompanhando aí os estragos do metanol nos destilados, com várias mortes e sequelas graves de cegueira. Nem o “santo” está querendo mais aquela “pinguinha” que o bêbado joga ao lado do balcão antes de dar aquela golada do copo.
Dizem por aí a fora que até o “suicida” está hoje desconfiado do veneno para se matar. Pode ser uma substância qualquer sem o efeito desejado. Por um lado, isso é até bom porque o indivíduo pode ter a chance de repensar sobre o lado prazeroso de se viver, mesmo diante de tantas falsificações e golpes.
Por falar em metanol, muita gente se esqueceu e também a própria mídia, com relação às mortes ocorridas em Iguaí, ou Ibicuí, aqui na Bahia, se não me engano, no final dos anos 90 e início de 2000. Ainda atuava na Sucursal do A Tarde, em Vitória da Conquista.
No início era um mistério, mas depois se descobriu que muita gente estava tomando cachaça misturada com metanol vindo de tambores que foram utilizados no transporte do líquido perigoso. Ninguém se atentou para este caso de repercussão nacional.
A humanidade se deteriorou ao ponto, em termos de maldade, tudo com a intenção de se obter lucros ilícitos, que não dá mais para se confiar em ninguém. Qualquer “bobeira” e você leva aquele tombo! Eu mesmo fui vítima de um recentemente.
Você não sabe ao certo hoje se o amigo ao seu lado numa mesa de bar é verdadeiro ou falsificado. Tem aquele olhar, aquele aperto de mão e aquele abraço falso com aparência de ser leal. Imagina político em época de eleições!
A pessoa hoje tem que treinar e aprender a dormir com um olho fechado e o outro aberto, e não pode piscar. Alguém por aí pode até achar isso um exagero, mas não é, meu amigo, confie desconfiando. “É, mas temos que confiar nas pessoas” – diz o positivista.
QUE FIM LEVARAM NOSSOS SONHOS?
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Que fim levaram nossos sonhos,
Se perderam nas longas marchas,
Das avenidas e praças,
Dos cartazes nas mãos,
Nas letras das eternas canções,
Que ficaram em nossos corações?
Que fim levaram nossos sonhos,
Nascidos das revoluções?
Arrancaram as flores do nosso jardim,
Nele plantaram corrupções,
Na base do meio justifica o fim.
Que fim levaram nossos sonhos,
De igualdades humanas sociais,
Justiças para nossas oprimidas gentes?
Estão nos cofres dos capitais,
Mas ainda vivem em nossas mentes,
Nessa sociedade de canibais.
Que fim levaram nossos sonhos,
De resgatar nossa jovem geração;
Acabar de vez com a fome,
Amparar as desgarradas multidões,
Nas lutas armadas ou pela razão?
ROÍA BROCHA, CHUMBREGÂNCIAS, CONXAMBRANÇAS E A CAPADURA
COISAS DO NOSSO NORDESTE DO SÉCULO XIX, EXTRAÍDAS DO LIVRO “OS CANGACEIROS”, De Luiz Bernardo Pericás.
Um “cabra” tarado praticou atos libidinosos e foi levado a julgamento. O pronunciamento do promotor e a pena do juiz foram lastreadas com base nos Mandamentos do Antigo Testamento da Igreja Católica (Moisés) e até no Alcorão (Maomé) mulçumano. Imaginou essa prática nos tempos atuais? Com certeza, muita gente iria concordar nos tempos atuais.
Uma Sentença judicial do juiz municipal suplente em exercício, Manuel Fernandes dos Santos, para o juiz de Direito da Comarca de Porto da Folha (Sergipe), datada de 15 de outubro de 1833, é bastante curiosa pelos termos condenatórios a um indivíduo que praticou estupro contra uma mulher grávida.
Naqueles tempos, as palavras estupro e relações sexuais não eram usadas e tinham interpretações diferentes. Para os conceitos da época, o ato nem era caracterizado como estupro. O “meliante” não podia ver uma vizinha do outro lado que rufiava e pulava a cerca como touro bravo para cruzar na tora.
Na súmula, diz o juiz que comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus deboches e faz coças de suas vítimas desejando a mulher do próximo para com ela fazer suas chumbregâncias. Sua condenação final foi a de mandar CAPAR o “cabra”, capadura feita a MACETE. Nos dias de hoje pelo Código Civil, ou Penal, o ato é julgado como estupro, mesmo que não consumada a penetração carnal.
A representação do promotor foi contra o “cabra” Manuel Duda porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant´Ana, quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte e o suspeito que estava perto de tocaia em uma moita de mato, saiu de supetão e fez a proposta à senhora por quem “roía brocha”, para coisa que não se pode fazer a lume. O “cabra” estava mesmo era doidão e ia esperar pelo escuro!
Como ela se recusou, o dito “cabra”, com ella, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará e não conseguiu matrimônio porque ella gritou e veio em assucre della Nocreto Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o sujeito em flagrante, na hora, naquele estado durão.
Pediu-se a condenação delle como incurso nas penas de tentativas de matrimônio proibido. Afirmou o promotor que a dita mulher estava peijada e, com o sucedido, deu à luz um menino macho que nasceu morto. Só no susto, matou o bebê no ventre da mulher.
As testemunhas bisparam a perversidade do “cabra”. Em suas considerações, o juiz descreveu que o “cabra” deitou a paciente no chão e quando ia começar suas conxambrancas, viu todas as encomendas della, que só o marido tinha o direito de ver, e mais ninguém. A paciente estava peijada e, em consequência do sucedido perdeu o filho. A morte do menino trouxe prejuízo na herança que poderia ter quando o pai delle ou a mãe falecesse. E pobre nordestino naqueles tempos tinha alguma herança? Só dívida com o “coronel”.
Considero o “Cabra” que é um suplicante debochado que nunca soube respeitar as famílias de seus vizinhos, tanto que quis também fazer conxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzelas e não conseguiu porque ellas repugnaram e deram aviso à polícia. O cara já havia cometido outros delitos de estuprador em outros lugares. Tinha uma extensa ficha corrida, do Ceará à Bahia.
O Manuel é um elemento perigoso e se não tiver uma causa que atalhe a perigança dele, amanhã está metendo medo até nos homens por via de suas patifarias que eram grandes por demais. Considero que o “cabra” está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo. O bicho queria até homem.
Considero que sua majestade imperial e mundo inteiro precisam ficar livres do “cabra” Manuel Duda, para secula, seculorum amem, por causa de seus deboches e servengonhesas. Elle é um sujeito sem vergonha que não nega suas conxambranças e ainda fez isnoga das encomendas de suas vítimas.
No final, o juiz condena o Duda pelo malefício que fez à mulher de Xico Bento a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio o carrasco e carcereiro. Feita a capação depois de 30 dias, o mesmo carcereiro solte o cujo “cabra” para que se vá em paz, claro, sem seus tentáculos exagerados.
“O nosso pior aconselha – Homini debochado deboxatus mulheroru, inovacabus est sententias quibus capare est mace macetorium carrascus sinefacto notre negare pete. Apelo ex-ofício desta sentença para o Dr, Juiz de Direito desta Comarca”.




















