(Chico Ribeiro Neto)

O que é a poesia?

“É a descoberta das coisas que nunca vi”. (Oswald de Andrade).

“No fundo, a poesia é isto: a eternização do momento”. (Mário Quintana).

“É o pensamento musical”. (Thomas Carlyle).

“Uma irmã tão incompreensível da magia”. (Guimarães Rosa).

“É a destilação do silêncio”. (Rafael Angullol).

“É o mais doce dos tormentos”. (Alfred de Musset).

Reproduzo a crônica “O nome disso”, de abril de 2022, que acho ter gosto de poesia e que está no meu livro “Museu do Chico”:

“Como a manhã tecida pelo sol nas árvores, o brilho nos olhos dos netos e os mistérios do mar.

É igual a amanhecer cantando depois de uma noite de amor, fazer um gol aos 45 do segundo tempo e sorver aquela cerveja bem gelada.

Parece com a alegria dos vendedores da feira às 5 da manhã, o caderno novo do primeiro dia de aula e a curva do rio com um velho tronco caído, de onde a gente saltava para a felicidade.

É como a voz dos filhos, o final de uma longa caminhada, um copo d´água bem gelada e aquela morena que passou na estrada.

Parece com a felicidade da dança, o romper do novo dia e um Carnaval pegando fogo de alegria.

São versos que nasceram agora, a boa lembrança de quem foi embora e aquela coisa velha que a gente bota fora.

É igual a ver brotar o que você plantou, uma música que vem lá do fundo, querer amar esse mundo, apesar de tudo dividido.

Um bem-te-vi na janela, a cor da saia dela e uma rosa amarela. Uma estrela caindo, alguém na estação se despedindo e você chegando. Um bom sonho que esqueci, mas foi lindo.

Parece com a multidão de estudantes gritando “fora Bolsonaro!”, a alegria de um pequeno agricultor cujo filho passou na universidade pública ou com o trabalhador que recebe a chave da casa própria.

É como a pureza de quem recebe a hóstia, a delicadeza da planta renda portuguesa e uma feliz surpresa. É igual a uma mulher quando sai do banho. É igual a uma alegria sem tamanho.

Um baú de fotos e cartas antigas, uma limonada gelada, um travesseiro alto, requeijão no prato, ovo frito na manteiga e um gole de café bem forte. Aí a gente toma o norte.

É como lavadeira cantando na beira do rio, cavalo branco pastando sem sela e um porquinho recém-nascido.

Parece com a avó ensinando a neta a bordar, é igual a sair do hospital, entrar na padaria de manhã ou dar uma volta no arraial.

Parece com noite de São João, ceia de Natal e com ver o mar pela primeira vez.

É igual a bolas de gude contra o sol, uma coceira no dedão, a saudade do caminhão, um prato de feijão, outro de pirão, charque com abóbora, a mão da mãe ou o carinho do pai e um bom passo na dança.

O nome disso é esperança”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)