:: 29/jun/2021 . 23:44
A GASOLINA DO CARTEL E DA USURA MAIS CARA DO ESTADO DA BAHIA
Cortei toda a Bahia, do sudoeste de Vitória da Conquista até o norte de Juazeiro, na divisa com Pernambuco (visitei meu Velho Chico e tomei a sua benção), e em nenhum posto vi gasolina de seis reais o litro. Entre Baixa Grande até próximo de Senhor do Bomfim, encontrei o combustível de cinco reis e quarenta e nove centavos. Nos outros, variavam de cinco e sessenta a cinco e setenta. A mais cara foi de cinco e noventa centavos.
Uma pergunta que não quer calar: Por que o combustível de Vitória da Conquista, que pega o produto a 150 quilômetros de distância, em Jequié, está sendo cobrada a seis reais e vinte centavos, e até mais que isso em alguns lugares, a mais cara da Bahia? Com a palavra os economistas para desvendar esse mistério, ou imbróglio.
Só pode ser cartel e usura dos empresários, e as autoridades nada fazem para conter essa ganância. Sobre a gasolina de cinco e quarenta e nove, pedi informações e me disseram que é de boa qualidade, que não existia perigo de ser usada. Ainda por cima, ela vem de uma distância de cerca de 350 a 400 quilômetros, com o frete bem mais alto.
Cadê a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara de Vereadores, o Ministério Público e o Procon que nada fazem para nos livrar desse tormento? Se fosse possível, e é, bem que os usuários de Conquista deveriam parar tudo por pelo menos um dia e fazer um boicote aos postos de combustível da cidade.
Os argumentos dos donos não se justificam. Como explicar que ali em Anagé, com cinquenta quilômetros a mais, a gasolina não chega a seis reais? É só sair de Conquista, e a gasolina é mais barata em qualquer estrada. Tenho pensado comigo que a razão mais plausível e principal é porque Vitória da Conquista é uma cidade só de ricos, de barões do dinheiro, que não estão nem aí para o alto custo das mercadorias.
Aliás, Conquista tornou-se a cidade da carestia, onde não tem lugar para pobre, como é o meu caso. Há 30 anos, quando aqui me aportei, não era assim, muito pelo contrário. Em Juazeiro, por exemplo, os produtos do comércio em geral têm preços mais baixos que a nossa cidade, inclusive alimentação e bebidas nos bares e restaurantes. Deve ser também nas outras grandes cidades da Bahia.
Nos últimos anos, Conquista experimentou um grande avanço no crescimento. Isso é bom! O ruim é que no rastro desse desenvolvimento veio a carestia, só comparada a de Salvador, incluindo os setores da construção civil, o imobiliário, a saúde, a alimentação, o comércio, o transporte e até a educação particular. Por isso que digo que Conquista não é mais uma cidade para pobre morar.
Nesse bojo está o preço escorchante dos combustíveis, especialmente o da gasolina onde está embutido o cartel dos empresários, e a usura de sempre querer ganhar mais e mais, para manter o alto padrão. Aqui só os endinheirados podem sair em final de semana para almoçar com a família fora de casa.
Será que aqui a mão-de-obra é mais cara? Não existe uma pesquisa sobre esse item, mas acho que essa se estagnou, e até baixou, como em todo Brasil de 15 milhões de desempregados. O que mais me deixa intrigado é essa cobrança absurda da gasolina, e cada vez mais subindo. A diferença de cinco e quarenta e nove para seis e vinte é alarmante, e não dá para se justificar. O resto é conversa para boi dormir.
REMANSO – UMA COMUNIDADE MÁGICO RELIGIOSA
O FANTÁSTICO APOIADO EM UMA MUNDIVIDÊNCIA AFRO-DESCENDENTE – ASPECTOS DAS AMBIÊNCIAS SOCIAIS, GEOGRÁFICAS E HISTÓRICAS.
Estou lendo e gostando do livro dos meus amigos acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, que tem como objeto de estudo a comunidade de Remanso, em Lençóis, encravado na Chapada Diamantina. Os professores fazem uma distinção muito clara do que seja uma comunidade quilombola e afro-brasileira, objeto de estudo de Remanso, confundido com a primeira classificação popular.
Na apresentação da obra, a professora Graziela de Lourdes Novato Ferreira, ressalta que os próprios autores informam que o grupo não se autorreconhece como quilombola e faz referência como “terra de herança”. Os professores usam a nomenclatura comunidade auto-indígena brasileira. Quilombo nasce dos negros fugidos das chibatas dos patrões que se refugiavam em algum lugar. Trata-se de um movimento de resistência.
No caso de Remanso, são pessoas remanescentes dos garimpos de diamantes, que também subsistem da pecuária e da agricultura. “ Remanso é uma comunidade com características de preservação de valores culturais próprios de um pertencimento ao arquétipo das populações da Chapada Diamantina. Traz fortes elementos ligados ao processo de garimpagem do diamante. Sua vivência e tradições se traduzem num místico cultural e religioso…”Os autores são defensores da preservação ético-culturais da região.
A professora explica que Itamar, em suas conversas sempre fala dos traçados dos caminhos, capaz de nos fazer viajar por um universo mágico-poético, com seus apaixonados relatos sobre Lençóis e sobre a manifestação religiosa, denominada de Jarê, um candomblé dos encantados caboclos, que se dá sob o toque da viola. “Vejo uma presença indígena aí muito forte, salve os caboclos! Orixás, caboclos e encantados que agregam elementos indígenas e católicos.
Itamar conceitua que o Jarê demonstra a pluralidade das expressões religiosas neste nosso “sertão profundo”. No prefácio do livro, editado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Josildeth Gomes fala das lavras diamantinas e diz que a obra é o resultado do esforço de dois apaixonados pelo mundo do garimpo que não chegaram às lavras em busca do diamante, mas que se tornaram garimpeiros da alma e de coração.
Ele classifica Remanso como uma comunidade garimpeira afro-indígena. Diz que os autores procuram esclarecer que Remanso é uma comunidade resultante da ocupação de negros, provavelmente de origem banto, que se deslocaram no século XVIII para a região direita dos Marimbus, um imenso pantanal existente na região.
O Jarê é uma expressão religiosa de origem africana que cultua orixás e caboclos, um candomblé de caboclos, ou candomblé do sertão. Nessa religião, o Caboclo Boiadeiro ocupa o lugar de maior destaque no Jarê de Remanso, mas faz seu ritual é feito através do vaqueiro cuidador do gado. O Boiadeiro é mais o dono da fazenda e da boiada.
Ao lado do Boiadeiro, os caboclos Sete Serras e o Tomba Morro fazem parte dos personagens mais representativos da cultura da Chapada. O primeiro numa alusão à mineração, aos mistérios da mata. O segundo na presença do jagunço arruaceiro briguento.
Nas considerações iniciais, o professor Itamar faz uma viagem sobre o tempo dos coronéis (Horácio de Matos) e o papel dos jagunços como servidores dos mandantes do poder na época, muito diferente dos cangaceiros. Ele traça um mapa geográfico da região com seus municípios, grutas e principais rios que formam o marimbus.
O leitor é fisgado pelas histórias do coronel Horácio de Matos, um dos mais famosos do sertão nordestino, espécie de governador do interior dentro de um estado. Descreve sobre a criação da vila de Jacobina, em 5 de agosto de 1720, por determinação do rei. Jacobina abrangia uma vasta região que ia do Arraial da Conquista, das Minas Gerais, Cachoeira, Ilhéus e o Vale do São Francisco.
Em sua introdução, Itamar descreve a estrutura coronelista da época, sobre os donos de garimpos, lapidários, pedristas, campamgueiros, bambúrrios e demais comerciantes de pedras, Cita vários pesquisadores do assunto, como Américo Chagas, Olímpio Barbosa, Walfrido Moraes, dentre outros.
Em 1906, quando os diamantes estavam esgotados. Itamar lembra da criação do de um dos primeiros colégios do interior em \ponte Nova (Wagner) por missionários presbiterianos, de onde saíram grandes cabeças intelectuais. Tem também as histórias dos valentes João Requisado que enfrentava do alto da serra as tropas do Governo do Estado, do curador Zé Rodrigues, o tenente Zacarias, do deputado, poeta e intelectual Manoel Alcântera de Carvalho, Horácio de Matos e do jagunço Montalvão.
São histórias empolgantes que despertam a curiosidade do leitor, ávido pelos causos contados pelos nossos ancestrais e que serviram de subsídios para pesquisadores e estudiosos. Quem já ouviu fala do livro de São Supriano da Capa Preta? De acordo com a lenda, a reza era capaz de transformar o “devoto” numa moita, num touco, num animal e tantos outros seres. Possuía o encantamento de tornar invisíveis o jagunço, o valente ou o coronel aos olhos dos seus inimigos. Leia que é muito interessante o trabalho de Ronaldo e Itamar. .
COMEMORAÇÃO DE UMA MORTE HUMANA
A sociedade hipócrita e desigual que cria bandidos e marginais violentos, é a mesma que comemora o fim deles através de uma violência ainda maior, coisa que nem se faz hoje no caso de uma fera selvagem. Houve uma inversão de valores. O fim trágico do criminoso Lázaro Barbosa, crivado de balas, foi comemorado por cerca de 300 policiais que não tiveram a competência de prender o indivíduo nos primeiros dias de sua fuga.
São bárbaros comemorando a barbaridade. Ao fim de uma caçada de quase 20 dias, com um aparato pesado de helicópteros, drones, armamentos, viaturas e cachorros farejadores, fizeram rituais de vitória e soltaram fogos. Aproveitaram o emocional de um povo que pouco pensa e reflete para dar uma demonstração de guerra vencida. Isso é uma covardia!
Fosse um bicho qualquer, a morte por armas de fogo teria uma grande repercussão entre as sociedades de proteção dos animais e até dos ambientalistas. Até o governador de Goiás e o secretário de Segurança Pública usaram do momento para fazer seus marketings, pousando de heróis. Infelizmente, isso ainda acontece no Brasil e em algumas sociedades atrasadas.
A sociedade cega, muda, surda e irracional aplaude a ação de comemoração quando deveria lamentar porque fomos nós mesmos que criamos monstros quando elegemos governantes que nunca priorizaram a educação, e foram os responsáveis pelo agravamento das desigualdades sociais no país. É correto comemorar a morte de um ser humano, seja ele quem for?
Outros Lázaros surgirão. Aliás, estão aí dentro das penitenciárias e fora delas. Nos acostumamos com as barbaridades cotidianas dos crimes hediondos e com a violência policial que só gera mais violência. Sinceramente, não vejo nada para comemorar, principalmente nesse caso específico de Lázaro.
Deveríamos nos penitenciar por vivermos num país desumanizado e violento que prefere criar mais penitenciárias, gastar altas somas com armas, tanques, viaturas e policiais despreparados, para combater um mal que poderia ter sido evitado se não houvesse tanta exclusão, ignorância e pobreza.
Depois de tantas atrapalhadas, de provas de incompetência e gastos desnecessários com o dinheiro público (não se sabe o custo dessa mobilização), comemorar o quê? Confesso que me sinto constrangido quando vejo essas imagens de festa e pronunciamentos hipócritas dessas “autoridades” que aproveitam da desgraça social para se aparecer e capitalizar votos. Deveriam ter vergonha na cara e não fazer comemorações quando se mata um ser humano que não teve o amparo que merecia quando entrou no crime!
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