“Em tempos antigos, grande parte do Crescente Fértil (Iraque entre os rios Eufrates e Tigre) e da região mediterrânea oriental, incluindo a Grécia, eram cobertas de florestas. A transformação da região, de um bosque fértil em arbustos carcomidos ou desertos foi esclarecida por paleobotânicos e arqueólogos. Suas florestas foram derrubadas para a agricultura, ou cortadas para a obtenção de madeira para construção, ou queimadas como lenha. Por causa da baixa pluviosidade e, consequentemente, baixa produtividade primária (poucas chuvas), a recuperação da vegetação não conseguia acompanha o ritmo de sua destruição, principalmente pela presença de muitas cabras pastando. Sem as árvores e a cobertura de grama, sobreveio a erosão, e os vales encheram-se de lodo, enquanto a agricultura de irrigação, num ambiente de baixa pluviosidade, favorecia a salinização. Esses processos que começaram na era neolítica, continuaram nos tempos modernos. Por exemplo, as últimas florestas perto da antiga capital de Petra, na moderna Jordânia, foram derrubadas pelos turcos otomanos durante a construção da rodovia de Hejaz, pouco antes da Primeira Guerra Mundial”.

“Grandes áreas do antigo Crescente Fértil são agora desérticas, semidesérticas, estepes, solos muito erodidos ou salinizados, impróprios para a agricultura. A atual riqueza efêmera de alguns países da região, baseadas num único recurso não-renovável – o petróleo –  oculta a pobreza fundamental que vem de longa data”. O Saara africano também já foi fértil, rico em água, agricultável e abundante em animais silvestres. A depredação transformou a região num dos maiores desertos do mundo.

PANTANAL E AMAZÔNIA EM DESERTOS

Estes textos foram extraídos do livro “Armas, Germes e Aço”, do autor cientista e pesquisador Jared Diamond, mas podem servir de exemplo e lição para o Brasil de hoje que está derrubando e queimando suas florestas, principalmente do Pantanal e da Amazônia. No ritmo de destruição, num futuro não muito longo, essas regiões podem se transforma em desertos depois de serem usadas para plantação de grãos e pastagens para criação de gado. Não mais haverá água em abundância e animais silvestres. O problema é que os bárbaros de hoje negam a ciência, o aquecimento global e querem que tudo arda em chamas e cinzas, tudo pelo dinheiro, pelo capital.

Quanto ao Crescente Fértil, Diamond afirma que cometeram um suicídio ecológico, destruindo sua própria base de recursos. Destaca que a Europa setentrional e ocidental foi poupada deste destino, porque tiveram a sorte de viver em um ambiente mais resistente, com mais chuvas, em que a vegetação volta a crescer depressa. Para o pesquisador, a diferença nos ambientes de cada povo dita as regras. “As desigualdades nem sempre podem ser atribuídas à diferença inata dos próprios povos”.

De acordo com ele, se as populações da Austrália aborígine e da Eurásia tivessem sido trocadas durante o fim da era pleistocena, os aborígines australianos originais seriam hoje os ocupantes da maior parte das Américas e da Austrália, assim como da Eurásia.

Como exemplo disso, ele cita o que aconteceu quando os agricultores europeus foram transferidos para a Groelândia, ou para as Grandes Planícies dos Estados Unidos, e quando os produtores da China foram para as ilhas Chatham, as florestas tropicais do Bornéu, ou os solos vulcânicos de Java e Havaí. Os testes confirmaram que os mesmos povos ancestrais terminaram extintos, ou voltaram a viver como caçadores-coletores.

AS DIFERENÇAS CONTINENTAIS

A mesma coisa ocorreu com os caçadores-coletores aborígines da Austrália quando foram transferidos para as ilhas Flinders, ou para a Tasmânia. Acabaram extintos. “Os continentes diferem em inúmeras características ambientais que afetam as trajetórias das sociedades humanas. O primeiro conjunto consiste nas diferenças continentais entre as espécies selvagens de plantas e animais disponíveis como material inicial para a domesticação”.

Segundo ele, a produção de alimentos era decisiva para acumular excedentes que poderiam alimentar os especialistas não-produtores, e para a formação de grandes populações que disfrutam de uma vantagem militar, antes de qualquer vantagem tecnológica e política. Sobre as extinções de espécies selvagens candidatas à domesticação, Diamond concluiu que elas foram muito mais graves na Austrália e nas Américas do que na Eurásia e na África.

Outro fator de diferenças que afetam as trajetórias humanas, conforme seus estudos, está naqueles que influem no ritmo de difusão e migração que variava muito entre os continentes.  Foi muito mais rápido na Eurásia. Outro fator que influi é a facilidade de difusão intercontinental, que era variável. Alguns continentes são mais isolados do quer outros. Nos últimos seus mil anos ela foi mais fácil da Eurásia para a África subsaariana. O quarto e último fator é formado pelas diferenças continentais em área, ou tamanho da população total. Uma área maior, ou uma população maior, significam mais inventores potenciais e mais sociedades competindo entre si.

Para Diamond, foi isso que ocorreu com os pigmeus africanos e com muitas outras populações de caçadores-coletores expulsas por agricultores. Em contrapartida, o mesmo aconteceu com os conservadores produtores escandinavos na Groelândia, substituídos por caçadores esquimós, cujos métodos de subsistência e tecnologia eram muito superiores aos dos escandinavos nas condições existentes na Groelândia.

CONDIÇÕES AMBIENTAIS

Na sua avaliação científica, alguns ambientes oferecem mais materiais para começar e condições mais favoráveis para a utilização dos inventos, do que outras. “Um historiador que tivesse vivido em qualquer período entre 8.500 a.C. e 1450, e que tivesse tentado prever as futuras trajetórias históricas, teria considerado o predomínio europeu como o resultado menos provável, pois a Europa era a mais atrasada das três regiões do Velho Mundo durante grande parte desses dez mil anos”.

De 8.500 a.C. até a ascensão da Grécia, e em seguida a da Itália, depois de 500 a.C., quase todas as principais inovações na Eurásia ocidental surgiram no Crescente Fértil, ou perto dele. Até a proliferação dos moinhos movidos a água, depois do ano 900, a Europa não deu nenhuma contribuição importante para a tecnologia, ou a civilização do Velho Mundo. A Europa era uma receptora dos progressos do mediterrâneo oriental do Crescente Fértil e da China – conforme destaca o autor do livro.

Ele completa que, mesmo no período de 1.000 a 1450, o fluxo predominante de ciência e tecnologia era para a Europa, a partir das sociedades islâmicas que se estendiam da Índia ao norte da África, e não o contrário. Um dos fatores imediatos da ascensão da Europa foi o desenvolvimento da classe mercantil, o capitalismo e a patente para proteger as inovações. Outro fator foi a sua tradição grega-judaico-cristã de investigação empírica crítica.

Depois que perdeu suas vantagens, como região de concentração de plantas e de animais silvestres, o Crescente Fértil não contava com outras instigantes de ordem geográfica.  Sem as vantagens, houve mudança de impérios poderosos para o oeste.  Após a ascensão dos estados, no quarto milênio antes de Cristo, o centro do poder permaneceu no Crescente Fértil, alternando-se entre impérios, como da Babilônia, os hititas, a Assíria e a Pérsia.

Coma conquista pela Grécia de todas as sociedades avançadas, do leste da Grécia à Índia, sob o comando de Alexandre, o Grande, no final do século IV a.C., o poder fez sua primeira mudança para o oeste. Hoje, grandes áreas produtoras de alimentos são agora desérticas.  Foi assim que o Crescente Fértil perdeu sua liderança inicial em relação à Europa.

Outro ponto abordado pelo cientista é quanto aos efeitos desencadeados pela desunião que ocorreu na Europa com os efeitos advindos da unidade da China. Esses efeitos prejudiciais foram desencadeados na China moderna durante a Revolução Cultural, nas décadas de 1960 e 70. Por outro lado, a Europa nunca chegou a uma unificação política. Por que a China perdeu a primazia política e tecnológica para a Europa? A explicação está na unidade crônica da China e a desunião crônica na Europa.