SOCIEDADE DA ACELERAÇÃO
De Orlando Senna
Blog Refletor TAL-Television América
Indicado e comentado por Itamar Aguiar
O tempo é o maior dos mistérios. A única maneira do ser humano fazer uma ideia do que é o tempo é relacionando-o com o espaço, com a materialidade do espaço, com períodos que se fazem necessários para se deslocar entre um ponto e outro na Terra e entre nosso planeta e outros corpos do universo. Uma relação que começa na realidade de nossos passos e se dilui outra vez no mistério quando nos lembramos da física clássica de Isaac Newton ao afirmar que duas linhas paralelas se encontram no infinito.
Teorias contemporâneas, pós quânticas, supõem que as paralelas não se encontram e sim se separam no infinito, no mesmo não lugar, na mesma utopia. Tudo que se refere ao tempo, mesmo quando o relacionamos com o espaço que achamos saber o que é, se esvai no não entendimento do eterno, do que não tem princípio nem meio nem fim, o maior desafio para a imaginação humana. Einstein chegou à conclusão, como sabem, que tempo e espaço estão realmente entrelaçados, mas ambos são relativos. De qualquer maneira, a relação espaço/tempo é, até agora, nossa tábua de salvação do fazer sentido, do minimamente entendermos onde e como vivemos (já que o porquê jamais saberemos).
Às vezes com poesia, como a possibilidade de vermos o passado, vermos com os olhos, fisicamente: quando olhamos para uma estrela brilhante que já não existe, que desapareceu há muito tempo e cuja luz ainda está cruzando o espaço, obedecendo à velocidade dela. Ou ouvir o passado, quando o som do trovão só é percebido depois do clarão do relâmpago porque velocidade de luz e som são diferentes. Às vezes com grande impacto no nosso viver cotidiano, como o que a humanidade está vivendo neste momento de mudança de ritmo, que sociólogos e filósofos batizaram como Aceleração Social.
Claro que a evolução das habilidades e comportamentos da humanidade, ao longo da História, foram acelerando pouco a pouco a vida. No aspecto do deslocar-se pelo espaço, por exemplo, começamos andando e evoluímos para a montaria em animais, as carroças, as canoas, os carros com motor, as lanchas velozes, os aviões a jato. Quando as distâncias são vencidas com mais rapidez, temos a sensação que não apenas o espaço mas também o tempo contraiu. A conquista do fogo, a Revolução Industrial, as grandes guerras apressaram a vida, a cada trinta ou mais gerações o ritmo mudava. O fenômeno atual é que as mudanças acontecem a cada geração, e muitas em cada uma delas, em uma exacerbação temporal de ficção científica. Mas não é ficção, é a lógica capitalista do fazer as coisas no menor tempo possível, no curto prazo.
O sociólogo alemão Hartmut Rosa é o estudioso de nossa era mais referenciado, principalmente após a publicação de seu livro cujo título pode ser traduzido como Aceleração Social: uma Nova Teoria da Modernidade (não conheço tradução em português ou espanhol). Rosa descreve três acelerações simultâneas: a tecnológica, que incide na percepção do tempo na vida social; a das mudanças sociais, que incide na percepção do ritmo e gera incertezas; a do ritmo da vida (aumento de ações e experiências, multitarefas, fazer várias coisas ao mesmo tempo), que incide no embotamento da própria percepção. Essa teoria está bem relatada no vídeo Tempo e aceleração social na hipermodernidade, baseado em uma tese de Evie Giannini (https://www.youtube.com/watch?v=yTARiMPJYrg).
Os efeitos da super aceleração, segundo Rosa e outros estudiosos, reflete-se na incapacidade das instituições de seguir o novo ritmo. Instituições políticas, econômicas, educacionais, sanitárias estão sendo desestabilizadas, muitas à beira do colapso (os políticos, por exemplo, estão desacreditados em todas as partes do mundo devido à lentidão com que reagem ao fluxo contemporâneo). Como nem todas as organizações sociais conseguem se adequar à espantosa celeridade, fala-se em “dessincronizações” e possibilidade de colapsos de empresas e governos. As pessoas, ou grande parte delas, estão imersas nessa velocidade da vida mas não conseguem ter controle sobre ela, o que gera angústia, esvaziamento dos conteúdos e alienação.
Essa agudização do tempo social no que está sendo definido como hipermodernidade, de alguma maneira estabelece uma ponte com a arte de Jorge Luis Borges, com seu conto El jardín de senderos que se bifurcan, de 1941, onde ele tece a possibilidade de um labirinto no tempo. Não no espaço, não o labirinto de Dédalo e do Minotauro, mas uma teia de caminhos na imponderabilidade temporal. Partindo da normalidade de que a cada passo na vida o indivíduo encontra várias opções de caminhos, várias portas por onde seguir, e escolhe uma, Borges subverte isso propondo a abertura de todas as portas ao mesmo tempo. Conseguem pensar nisso?
Por Orlando Senna
Breve comentário:
“O tempo é uma fronteira entre presente e futuro, uma linha que se encolhe às nossas costas, até o ponto exato onde se apaga. A subversão do tempo” (MALDONATO, 2001, p, 111).
As oportunas considerações de Orlando sobre o tempo nos inspiram, e nos conduz aos tempos de crianças outono, inverno, primavera e verão: tempo de brincar de roda, de cantar cirandas e soltar pião; tempo de jogar triangulo de pular amarelinha; tempo de empinar arraia, de soltar balão, de correr na rua cata vento de papel na mão; tempo de brincar de bacondê, de fazer boi com fruta de quiabento. De quando as crianças inventavam e faziam os próprios brinquedos.
E, também, de outros tempos, da geração do passa o dedo: do Tablet, do Celular, do Computador, da Televisão. Tempos apenas de verão… “vem verão, vem verão, vem! Vai verão, vai verão, vai!”. Nesse, tempo império do virtual, tempo único de imensa clareira, tempo de seca onde a falta d’água ameaça multidão. Você tem mesmo medo de que?
Orlando Senna nasceu em Afrânio Peixoto, município de Lençóis Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, Pésaro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos estão Diamante Bruto e o clássico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños e do Instituto Dragão do Mar, Secretário Nacional do Audiovisual (2003/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil (2007/2008). Atualmente e presidente da TAL – Televisão América Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.
Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara – Bahia; concluiu o Ginásio e Escola Normal em Lençóis, onde foi Diretor de Colégio do 1º e 2º graus (1974/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ciências Sociais – Antropologia – 2007, pela PUC/SP; Pós doutorando em Ciências Sociais – Antropologia – pela UNESP campus de Marília – SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da Bahia – UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de criação dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual/UESB.











