De Orlando Senna

Blog Refletor Tal-Televísión América

Indicado pelo professor Itamar Aguiar

Angola está celebrando 40 anos de independência, ocorrida em 1975 quando Portugal devolveu a soberania do país aos angolanos, depois de meio milênio de dominação. A construção de uma Angola independente, durante essas quatro décadas, não foi, nem está sendo, nada fácil. Teve de superar uma guerra intestina entre os três grupos armados que lutaram pela independência (MPLA, UNITA, FNLA), que só terminou em 2002, e tentativas de invasão por parte da África do Sul, do brutal regime do apartheid.

O MPLA-Movimento Popular de Libertação de Angola controlou a situação e fixou-se no poder, sob a liderança do poeta Agostinho Neto e pautado pelo marxismo-leninismo, que foi substituído no final da década 1990 por um sistema de economia de mercado e democracia multipartidária. Multipartidária em termos, já que, após a morte de Agostinho Neto em 1979, ocupou o poder o engenheiro José Eduardo dos Santos, que está completando 36 anos como presidente.

Especialistas em política africana dizem que as reeleições se devem ao bom desempenho de Santos na administração das maiores riquezas de Angola, petróleo e diamantes, mas os problemas sociais e econômicos são muitos, além de suspeitas e acusações de corrupção (Isabel dos Santos, filha do presidente, é considerada a mulher mais rica da África). Esse cenário confuso e convulso, com elementos relacionados tanto à ancestralidade (a milenar cultura banto) como à construção de um novo país formado por várias etnias é o tema central da obra de um dos maiores escritores da atualidade, o angolano Pepetela, Prêmio Camões de 1997.

Neste mês de março a editora LeYa está lançando no Brasil mais um de seus livros, Lueji-O nascimento de um império, uma singular História de Angola em dois planos, narrada através de duas mulheres separadas por 400 anos, ambas perseguindo suas identidades pessoais e sociais: Lueji, rainha do Reino Lunda (1050 a 1887), e a contemporânea Lu, uma jovem bailarina. A editora LeYa e antes a Ática publicaram no Brasil vários dos mais de 20 livros dele, a maioria romances inesquecíveis.

Conheci a literatura de Pepetela e o próprio no fim da década 1970, quando fui a Luanda para trabalhar com ele no projeto de um filme angolano-moçambicano, que não foi consumado, a partir de seu romance Mayombe, sobre os sentimentos, opções, sintonias e assintonias de um grupo guerrilheiro em ação durante a guerra de libertação de Angola. Pepetela, na época um dos comandantes guerrilheiros do MPLA, escreveu o livro enquanto combatia, em meio a tiroteios e angústias. Pepetela, seu nome de guerra, que adotou para sempre, é a tradução em umbundo, um dos idiomas angolanos, do seu sobrenome português Pestana (foi batizado como Artur Pestana). E sua única filha se chama Lueji.

Não sei por que razão o cinema e a televisão ainda não mergulharam no mar de personagens e histórias de Pepetela (Angola é uma excelente opção para a atual política de coproduções do Brasil), mas sabemos todos que o gênero romance nos conta as sagas de povos e culturas com maior profundidade do que a História com H maiúsculo. Vale lembrar Homero e a Grécia, Dostoiévski e a Rússia, Balzac e Victor Hugo e a França, Jane Austen e a Inglaterra, Dante Alighieri e o mundo medieval, García Márquez e a América hispânica, Machado de Assis e o Brasil. É nos romances, e não na historiografia, que podemos conhecer a alma dos povos.

Pepetela, com sua delicada, sutil, maliciosa, bem humorada e aguda arte literária está desvendando a alma de Angola, de um país em construção habitado por culturas pré-históricas, de um conjunto de povos que, mesmo escravizado durante séculos, influenciou culturas assentadas como a portuguesa e culturas novas como a brasileira. Mais ou menos a cada dois anos ele dá à luz um novo livro e é sempre uma surpresa.

No ano passado li seu romance mais recente, O tímido e as mulheres, sobre a esfuziante Luanda da atualidade, seis milhões de habitantes, a cidade mais cara do mundo, com novos ricos, novos milionários e muitas favelas, os musseques como se diz por lá. Uma roda viva de desejos, desilusões, encantamentos, paixões, desesperos, alegrias e a busca incansável de felicidades e de atalhos para o futuro. Uma África que muitos de vocês não conhecem e outros muitos nem fazem ideia. Recomendo: leiam e vivam Pepetela.

Por Orlando Senna

Comentário:

Orlando que nos anos 1970 contribuiu com a cinematografia e com a organização da TV de Angola, com o seu especial poder de síntese, nos brinda desta feita com informações preciosas sobre a obra literária de Pepetela e, a importância de Angola no contexto da história da Europa, Africana e das Américas e, mui especialmente destaco o Brasil para onde foram traficados em torno de quatro milhões de africanos, dentre os quais, a maior quantidade de bantos e, dentre estes, a maioria de indivíduos Angolanos distribuídos pelas diversas regiões do País, os quais contribuíram com a criação da língua Portuguesa fala no Brasil. Assim, afirma Yeda Pessoa de Castro: ”- a presença do povo banto, anterior em dois séculos à introdução maciça de ewes e em três séculos à de iorubás, foi marcante e constante em todas as regiões do Brasil […] e o negro banto, mais do que outros, o principal modelador da língua portuguesa em sua feição brasileira e seu difusor pelo território brasileiro sob regime colônia e escravista (CASTRO, 2001, p.129).

A grande influência dos angolanos na formação da língua portuguesa falada no Brasil, com certeza, justifica e potencializa a importância de conhecermos a obra literária de Pepetela e denota o conhecimento e perspicácia de Orlando ao eleger o tema, Pepetela e a alma de Angola, e escrever o presente artigo.

Orlando Senna nasceu em Afrânio Peixoto, município de Lençóis Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, Pésaro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos estão Diamante Bruto e o clássico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños e do Instituto Dragão do Mar, Secretário Nacional do Audiovisual (2003/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil (2007/2008). Atualmente e presidente da TAL – Televisão América Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.

Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara – Bahia; concluiu o Ginásio e Escola Normal em Lençóis, onde foi Diretor de Colégio do 1º e 2º graus (1974/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ciências Sociais – Antropologia – 2007, pela PUC/SP; Pós doutorando em Ciências Sociais – Antropologia – pela UNESP campus de Marília – SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da Bahia – UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de criação dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual/UESB.