TAPA NA CARA
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Deixaram o corpo estirado na maca,
No corredor de um sujo hospital,
Não ganhou nem o seu funeral,
E eu, nem ao menos protestei,
Por nos tratar como bruaca.
Fizeram esculacho da nossa lei,
Escarraram em minha cara,
Nos surraram com reio e caiçara,
Na carne tremida pelo frio vento,
Da urina fedida do cru cimento,
E mais uma vez com tudo me calei.
A noite pode até ser uma menina,
Mas o dia é uma ave de rapina,
Entre chibatas nos espinhaços,
E rações nos tachos de melaços,
Lembram as épocas da coivara,
Que se acordava com tapa na cara.
O tempo que amacia e suaviza,
Também alisa e retalha a pele,
Penetra e endurece as juntas,
Torce e retorce o seu corpo,
E nos faz andar lentamente,
Até nos deixar seco indiferente.











