Numa situação onde o sistema já nasceu excludente, num emaranhado de peças enferrujadas, ser otimista neste país é até ser leviano. É como vender um alimento estragado e tentar convencer o comprador de que ele pode se tornar saudável com a introdução de substâncias químicas. É o caso brasileiro onde há muitos anos um monte de itens esperam na fila do país do futuro.

Palestrantes de autoajuda e estrangeiros maravilhados que aqui chegam tentam incutir em nós de que este é o Brasil do futuro. Os primeiros porque querem vender seu peixe passado na base do ânimo a qualquer custo. Os segundos porque ficam encantados com suas belezas, com a vida bagunçada que eles não têm e quase sempre desconhecem o interior do produto. Só uma revolução de verdade começando do zero nos levaria ao país do futuro.

Não estou falando daquela história de injetar competição capitalista a qualquer custo no indivíduo para ele vencer na vida, mesmo que não seja por meios lícitos. Estou me referindo ao país como um todo no sentido coletivo da palavra que requer planejamento e gestão de inclusão, justiça social, reparação e expurgação dos privilégios nababescos restritos a determinadas categorias que estão bem longe da pobre realidade brasileira.

Como acreditar num país do futuro que reluta endireitar os caminhos tortuosos que há anos só fazem aumentar as desigualdades sociais e crescer o ódio entre as classes? O povo aqui sempre foi vítima de calotes e mais calotes de um poder público negligente, arcaico e roedor famélico das entranhas de seus cidadãos.

Existe um sem número de coisas na vida do país que não adianta fazer remendos para galgarmos este futuro tão decantado pelos otimistas de plantão. Comecemos pelo esquema eleitoral montado que nada difere do antigo coronelismo. Nele se vota iludido de que é a saída, só que os resultados nunca aparecem. É um modelo totalmente antipatriota no lugar de ser uma cidadania respeitada e digna.

A esta nação ignorante, construída pelos governantes passados e presentes, se incute nela que a eleição é a única arma de mudança para um futuro melhor de políticos comprometidos. Mas como, se ela funciona como um alçapão onde só o caçador tem vez? Além de não saber separar o trigo do joio, mesmo que isto fosse feito, pouco adianta porque lá em cima eles se misturam e se lambuzam nas benesses, nas mordomias, nos privilégios, conchavos e maracutaias.

Para acreditarmos neste Brasil do futuro, o primeiro ato de mudança radical deveria partir do Congresso mais caro do mundo no país da miséria na educação, na saúde e campeão na violação dos direitos humanos. Para começar, deveria ser fechada a “Casa dos Lordes”, mas conhecida como o Senado dos caras de paus.

Na Câmara dos tresloucados que só pensam em si, seriam cortados ou drasticamente reduzidos as verbas de gabinetes, indenizatórias e outros penduricalhos, com extensão às assembleias e câmaras de vereadores ociosas. Nem deveriam existir as tais emendas parlamentares, fontes de trapaças, corrupção e compra de votos por migalhas.

Longe de pensar nessas coisas para se construir um país do futuro, eles tramam como Catilina no Império Romano, mais ainda para engessar o cruel sistema e se perpetuarem no poder do luxo e das orgias pagas pela população, que come o pão que o diabo amassou e engole cacos de vidros pensando no raiar do futuro. Até prostitutas e garotas de programas são pagas pelo Brasil do futuro.

Como acreditar num país do futuro se constantemente, no maior cinismo e deboche, nossos direitos são negados e muita gente morre nas portas dos hospitais, na maioria das vezes pela falta de um médico, de um curativo ou ausência de um equipamento para se tratar?

Como se orgulhar de um país onde não se controla com rigor o uso indiscriminado de agrotóxicos venenosos que só são injetados aqui nas terras do Brasil do futuro? Onde as penitenciárias são calabouços medievais, onde as repartições públicas de incompetentes estão atoladas de burocracias e onde há 10 ou 15 anos milhões de processos judiciais se acumulam nas prateleiras empoeiradas na espera de decisões?

Temos um amontoado de leis que não são cumpridas ou foram feitas para punir os pobres negros e brancos desprovidos de recursos, e ainda apregoam mentirosamente que todos são iguais perante a lei. As agências reguladoras de não sei do quê, são coniventes com as operadoras e estão mais para cabides de empregos.

Não acredito neste Brasil que cuida mal de suas crianças, dos jovens e dos idosos, embora os políticos exibam volumosos estatutos e códigos com a cara “moderna” de país de primeiro mundo. Com todas estas mazelas juntas nos ensinam a decorar a velha esfarrapada e moribunda lição de que é preciso ter esperança, fé e otimismo no futuro.

Não é a superação deste atual caos político e econômico, nem um prato racionado de comida na mesa e uma casa popular sem infraestrutura lá nos cafundós das periferias que vão fazer do Brasil um país do futuro. Como se diz no popular, “o buraco é bem mais embaixo”. Parem de nos fazer de otários e imbecis do futuro!