COMO SERIA O BRASIL DE HOJE SEM O GOLPE CIVIL- MILITAR DE 1964?
Várias vezes me pego imaginando como seria o Brasil de hoje se não tivesse ocorrido o golpe civil-militar de 1964. Muitas pessoas já devem também ter feito essa suposição. O assunto renderia um livro ou um filme imaginário de ficção dentro do realismo-fantástico a partir da existência de um contragolpe. Neste final de semana, meu amigo Dal Farias levantou esta questão.
Difícil de responder porque muitas coisas poderiam ter acontecido no decorrer do processo de implantação das reformas de base propostas pelo então presidente João Goulart no início dos anos 60 com a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961. São mais de 61 anos e de lá para cá, a desigualdade, a pobreza e a exclusão só aumentaram, talvez em maior proporção ao crescimento populacional.
Quando fazemos esta pergunta temos que nos reportar aos anos de 1954 quando Getúlio Vargas se suicidou e os milicos ensaiaram o primeiro golpe naquele imbróglio de Café Filho, mas foi impedido pelo general Lott que optou em se posicionar ao lado da legalidade.
Tentaram até não dar posse ao eleito Juscelino Kubistchek, mas tiveram que se recolher em suas casernas, apesar de não terem desistido da ideia. A mesma coisa ocorreu com Jango, em 1961, impedidos pela campanha da legalidade de Leonel Brizola. A frustração deles serviu para alimentar mais ainda a vingança, concretizada em 1964.
Bem, a indagação é como seria o Brasil de hoje se não tivesse existido o golpe de 64. Em minha modesta opinião de observador, tenho certeza que teríamos um pais bem melhor, mais igualitário, mais educado, de maior conscientização política e mais conhecimento e saber, tanto nas zonas urbana como rural, inclusive com a implementação da reforma agrária, que nunca foi feita.
Pelos meados dos anos 50 e até início dos 60 estávamos no caminho certo da educação e se respirava cultura, principalmente entre aquela nova geração, inspirada nos movimentos socialistas da Rússia, China e Cuba. Creio, no entanto, que não seríamos um país comunista na América Latina, como propagava o Ocidente através do Estados Unidos.
Naquela época da guerra fria, o pior inimigo era o comunismo da União Soviética (até hoje ainda é visto como vilão pela extrema), mas o Brasil não era um marxista convicto. Boa ala das forças armadas, inclusive soldados e oficiais, como nos movimentos tenentistas da década de 20, aderiam às reformas de base e às mudanças sociais propostas, mas não eram comunistas marxista-leninistas, com raras exceções.
O BRASIL É MAIS DE DIREITA OU DE ESQUERDA?
Isso responde a uma outra pergunta: O Brasil é mais de direita ou de esquerda? Mais uma vez, no meu entendimento, o pêndulo sempre esteve mais para o lado da direita e centro. Pela sua tradição cultural, inclusive religiosa católica e mais ainda evangélica, a família brasileira sempre foi conservadora moderada, não tanto extremista de direita como atualmente.
Interessante que foi a Igreja Católica, naqueles anos, que despertou nos jovens e trabalhadores em geral, principalmente, a participação nos movimentos sociais através da criação de grupos de ações populares, como JEC, JUC, JOC, JAC e tantos outros, inclusive no meio rural com os camponeses.
Aquela geração se engajou na defesa social visando conscientizar politicamente o povo do seu direito à justiça e à dignidade humana, com vistas a combater as desigualdades e contra a exploração do capital, especialmente das multinacionais. No fundo pregava-se a luta de classe e o povo no poder. Durante a ditadura, a bandeira principal era a volta da democracia.
Foi esta mesma Igreja, ávida por mudanças e na defesa dos pobres, a classe média dita burguesa e as elites oligarcas, que nunca aceitaram a distribuição de renda, que juntas se uniram para apoiar o golpe-civil-militar de 1964, sob o argumento de que o país estava à beira de uma ditadura comunista. Essa ideia foi amplamente bem trabalhada e divulgada pela CIA (Serviço de Inteligência) dos Estados Unidos, com a integração dos conservadores.
Sem contar a incoerência da Igreja Católica, que recuou e abriu mão de suas mobilizações sociais, a base da nossa formação familiar sempre foi de direita, tanto que tivemos aquelas megas manifestações de ruas, com os slogans de família, pátria e tradição.
Esses personagens, inclusive a imprensa, pediam também uma intervenção militar porque temiam que as reformas de base fariam do Brasil um país comunista. A história se repete e de forma mais aguda e agressiva, sem bem que os autores são diferentes. São esqueletos que há muito tempo estavam mofando nos armários.
O golpe de 1964 poderia ter sido evitado, não fossem as dúvidas, o medo ou covardia de Jango, que teve a possibilidade de abortar por ar a operação desastrada do general Olímpio Mourão, em 31 de março. Por sua vez, deveria ter permanecido em Brasília mobilizando comandantes que se colocaram a ser serviço.
Muito contribuiu também nesse processo de rendição, a falta de organização das esquerdas entre moderados e radicais, que pressionaram o presidente, até com ultimatos. Outros fatores entraram em cena, mas acredito que se o roteiro fosse outro, hoje o Brasil seria bem melhor, e não essa bandalheira de bandidos corruptos, fascistas extremistas e um Congresso Nacional que é o pior de toda história brasileira.











