COM QUE ROUPA?
(Chico Ribeiro Neto)
Minha primeira calça comprida, que ganhei aos 11 anos, usei durante um mês sem deixar mamãe Cleonice pegar pra lavar. Calça comprida era uma grande conquista.
A farda do Ginásio São Bento, cáqui, era muito sem graça. Depois, o azul e branco do Colégio Central da Bahia eram mais livres e animados, principalmente pela presença das meninas. A primeira mulher que apareceu no São Bento foi uma professora de Francês. Belos joelhos. Foi no Central que comecei, em 1968, a lutar contra a ditadura militar que esmagava o Brasil.
Menino de farda não entrava no cinema. Mas aí era só tirar o escudo (preso por um clips no bolso da camisa) que o porteiro deixava entrar. Uma fiscalização “faz de conta”. O porteiro sabia que era um estudante, mas o dinheiro falava mais alto.
Tem gente que não usa roupa dos outros por dinheiro nenhum, principalmente se a roupa for de alguém que já morreu. Acham que a roupa traz um pouco da alma do antigo dono.
Lá em casa a roupa ia passando. Luiz, o mais velho dos quatro filhos de Waldemar e Cleonice, comprou uma camisa Volta ao Mundo, aquela de nylon que não precisava passar ferro. Essa camisa percorreu uma grande rota, pois de Luiz passou pra Zé Carlos, depois foi Cleomar e foi terminar em mim, já amarela no sovaco, mas inteira.
Meu pai só tinha crediário na Renner, na Avenida Sete de Setembro, onde eram compradas minhas calças compridas. “Tá grande, meu pai!” “Você tá crescendo ligeiro e sua mãe vai fazendo a bainha. Vai levar essa mesmo”.
Tem um famoso cantor brasileiro que tem pavor a roupa marrom e já expulsou do camarim um repórter que foi entrevistá-lo usando uma camisa dessa cor.
Primeiro encontro com a namorada. “Vou com que roupa?”. Noel Rosa cantou: “Com que roupa que eu vou/ Pro samba que você me convidou?”
Tinha um amigo adolescente que, quando ia pro cinema com a namorada, rasgava o bolso da calça e lá no escurinho perguntava se ela queria drops. “Então pegue aqui”, mostrava o bolso, e ela acabava pegando em outro drops.
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