AS SECAS E OS BANDOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vejo pelas estradas e veredas
Levas de esfarrapados famintos,
Ao sol das labaredas,
Bandos enfeitados de cartucheiras,
Nas lágrimas secas das secas,
Balas varam quintais,
Coronéis derrubam cercas.
Êta Nordeste de guerreiros!
Infestado de bandoleiros!
Lá vem Antônio Silvino,
Ventania de um furacão,
No aço reluzente do cangaço,
Depois os bandos de Lampião,
Pelas secas dos Pereiras e Quelés,
Vinte e Dois, os Patriotas e Sabinos,
Jararaca, os Marianos e Porcinos,
Fechando lojas e até cabarés.
Nesta terra sofrida sem lei,
O bandido é o dono e rei.
Nas secas não existem feiras,
“Padim Ciço” derruba governador,
Pajeú, Cariri e Piancó das bagaceiras,
Há anos que não se colhe uma flor,
Neste agreste de tanta desgraça e dor.
As secas com seus bandos,
Os bandos com seus santos,
Com rezas de corpos fechados,
Os beatos com seus pobres rebanhos,
Cada cabra com seus comandos,
E nordestinos expulsos de seus cantos.
Chusmas de maltrapilhos,
Estirados pelo árido chão,
E os debilitados sobreviventes,
Em campos de concentração.
Meus versos não têm graça,
Oh, Senhor Deus dos desamparados,
Cadê sua divina Graça:
Deixar seus filhos morrem,
Nas florestas do ciclo da borracha?
Os bandos têm seus coiteiros,
Os chefes políticos, o poder,
E as secas parem os cangaceiros.
A Coluna Prestes passa,
No meio dessa confusão,
Querendo justiça social,
Mas o reacionário capital,
Metralha sua Revolução.
A marcha é arrastada difícil,
Dos levantes em busca de comida,
Sacrificam até suas crianças,
Para sustentar suas andanças,
No labirinto entre morte e vida.
As secas são implacáveis,
Como nas antigas guerras romanas,
Acossadas pelos bandos desumanos.
É arder no caldeirão do inferno,
De almas na espera
Das chuvas de inverno.
O último bando foi de Corisco,
As secas continuam por séculos,
E eu por aqui fico,
Sem mais nenhum rabisco.











