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ASSIM QUIS O DESTINO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

No ferro, fogo e aço,

Entre jurema e o calumbi,

Na imbira da macambira,

Rifle, fuzil e punhal,

Na alpercata do carrasco,

O agreste era seu quintal,

Na glória e no fracasso.

 

Assim quis o destino,

Não importa se terreno ou divino,

Aprendeu menino ser bandido

De um povo isolado sem lei,

Onde foi governador e rei.

 

Meia dúzia de balas,

No corpo carregava,

Cegueira e doenças renais,

No Angico apertado se refugiava,

Com seus deuses e satanais,

Sertão dos tempos medievais.

 

Acabou o corpo fechado,

No cinzento da oração,

Maria Bonita caiu junta,

Com seu amor Lampião,

E o tenente Bezerra atirava,

Nove cabras tombaram no chão.

 

Eram dois pernambucanos,

Da região do Pajeú,

Celeiro de cangaceiros,

De nordestinos espartanos,

Renegados pelo sul.

 

Um aprendeu a atirar,

Com a pontaria de Antônio Silvino,

Depois entrou para a volante,

E assim quis o destino,

Que caísse o Virgulino.

 

O outro, aluno de Sinhô Pereira,

Que ensinou sua cabroeira,

A ser andante bandoleiro,

Como negócio, refúgio e vingador,

Na terra de coronéis e doutor.

 

Só sobrou o velho Corisco,

Que até serviu o exército,

Cabra valente e arisco,

Como lutador teve seu mérito,

Mas o Governo Getulista,

Em quarenta fechou a lista,

Do Nordeste cangacista.

 

 

A MALDIÇÃO DA BASE DE ALCÂNTARA

Quando num local acontecem fenômenos estranhos e as coisas sempre dão erradas, caso de um estabelecimento onde negócio nenhum prospera e sempre está mudando de dono, as pessoas costumam dizer que o lugar é amaldiçoado.

No folclore, ou na cultura popular, falam de casas mal-assombradas onde antigos moradores foram mortos tragicamente por assassinos cruéis, inclusive pertencentes às famílias. Diz a crendice que é necessário muita reza, um ritual de candomblé de pai-de-santo, muita água benta ou de um padre exorcista para espantar a maldição. O assunto tem sido utilizado como matéria-prima para roteiros de livros e filmes.

É o caso da Base de Alcântara, no Maranhão, o Cabo Canaveral brasileiro de lançamento de foguetes tupiniquins que sempre explodem, como ocorreu nesta semana. Os lançamentos emperram na hora ou provocam acidentes graves nas decolagens. Melhor não mais tentar porque já virou piada e deboche de fracassos. Esses foguetes poderiam ser chamados de Marimbondos de Sarney.

Desconfio que ali, em tempos passados, tenha sido cemitério sagrado de alguma tribo indígena e os espíritos dos nossos antepassados não ficaram nada satisfeitos em transformar o local numa base de foguetes, por isso que eles interferem nas operações ao serem perturbados com esses monstrengos da tecnologia.

Como só dá problema, bem que a Base (antes era na Barreira do Inferno) poderia ser transferida para a Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, a “Suíça Baiana”, mas aí os mongoiós iriam se vingar dos massacres passados do colonizador português de Chaves, João Gonçalves da Costa. Já imaginaram o orgulho de ter uma Base de Foguetes na Serra! Pelo menos seria um ponto turístico!

Brincadeiras à parte, a Base, localizada em ponto estratégico da linha do Equador, teve seu início de construção em 1982. Seu núcleo foi inaugurado no ano seguinte, mas só se tornou operacional mesmo em 1989. Em 1990 foi lançada a Sonda 2, como símbolo da entrada do Brasil no programa espacial. O homem já havia pisado na lua há mais de 20 anos.

Para quem tem boa memória, o acidente mais notório e trágico na Base de Alcântara foi a explosão do foguete VLS-1, em agosto de 2003 que resultou na morte de 21 técnicos e pesquisadores brasileiros, sendo o maior revés do Programa Espacial Brasileiro.

Por coincidência, estava lá nesse dia numa viagem de carro que fiz pelo interior do Nordeste, da Bahia a São Luis, do Maranhão. Além desse (agora mais um), outros seis lançamentos falharam, como em 1997 e outro em 1999.  Não parece mesmo uma maldição, ou coisas do Brasil que terminam em anedotas.

Dizem que o de 2003, o erro foi em decorrência da ignição prematura do foguete no solo. No de 1997 foi falha no acionamento de um motor, resultando no foguete caindo no Atlântico. Em 1999, o foguete foi destruído remotamente três minutos após a decolagem devido a uma chama no bloco do segundo estágio.

O acidente desta semana, se não me engano, foi parecido com o de 1999. Houve retardo por cousa do mau tempo (só temos temporais no serviço de meteorologia), e o foguete não era para ter sido lançado naquele instante. Devem ter errado na contagem regressiva e os técnicos não combinaram a partida com São Pedro. Quem sabe não daria certo na contagem progressiva!

Recordo que em 2003 – de lá para cá ninguém falou mais no assunto e até achava que nem existia mais essa Base de Alcântara – falaram que o acidente seria investigado para punir os responsáveis pela atrapalhada e que o governo iria buscar parcerias internacionais.

Desta vez, pelo que se está sabendo, uma empresa sul-coreana está envolvida no imbróglio. O coreano resolveu enfrentar a maldição e deu no que deu. No próximo tem que se fazer um ritual ecumênico de orações, porque a coisa está feia. Ainda bem que não tinha ninguém no foguete, como em 2003.

Com tudo isso, a Base de Alcântara virou um projeto fantasmagórico de horror. Quem sabe se os foguetes não são feitos de bambus, para economizar gastos! Deve vir um próximo por aí porque o brasileiro é tinhoso e teimoso. Não seria melhor lançar em noite de São João? Assim disfarçava que foi apenas um foguete junino que estourou nos céus do Maranhão!

TUDO TEM A SUA VEZ

Só os deuses em sua plenitude religiosa de cada um deles, venerados e adorados desde os primórdios das civilizações tribais, podem ser considerados imortais. Eles estão em nossas memórias originárias dos ancestrais. No mais, na vida terrena, religiosa ou profana, tudo tem sua vez de glória, fracasso e fim. O poeta cancioneiro disse certa vez que o amor é eterno enquanto existe.

O planeta e o ser humano vivem numa evolução constante de mudanças, de vez em vez, passo a passo. O presente logo se torna em passado para se construir o futuro do amanhã que fica velho e vem outro amanhecer. É a metamorfose ambulante, como pontuou para nós o poeta das profecias. O sofrer e o prazer, o choro e o sorriso, a derrota e a vitória, têm, cada um, a sua vez.

Tudo na vida tem sua vez de ser, como a criança que nasce, cresce e tem seu tempo de brincar, estudar e trabalhar. Depois amadurece e não é mais o mesmo de antes. Sua graça se volta à corrida pela sobrevivência. Seu pensar é se multiplicar na corrida do ter e do ser. Não é o Ano Novo que lhe renova. Pelo contrário, ele lhe convida para você se preparar para sua vez.

A velhice é como o pôr-do-sol anunciando a noite, não importa se em dia nublado, céu claro ou de nuvens carregadas com prenúncio de temporais e tempestades. Depois do mar revolto, vem a calmaria. Será que falo coisa sem coisa? Faz parte da nossa imaginação. O sonho pode se evaporar, ou ter sua vez de se realizar.

Essa vez de cada vez acontece nos planos material e espiritual. É a sua vez de pegar o cavalo selado, ou sua vez de encontrar um amor, que lá na frente pode se torna em separação, ódio e rancor. É sua vez de declamar sua poesia, de participar do jogo, de externar seu pensar, de entrar em cena e dela sair. É sua vez de respeitar o outro e ouvir o que ele tem a lhe dizer.

Veja o lixo e a flor. O primeiro já foi produto e bem de valor, ou alimento, que se torna em resto de entulhos jogados fora, que emporcalha a natureza, que se revolta e provoca tragédias de morte. O petróleo e outros metais se transformam em gases tóxicos que aquecem a terra. Mesmo assim, o lixo não deixa de ter sua importância quando é usado como adubo para fertilizar o solo.

A flor tem a sua vez de alegrar, criar momentos de felicidade, bombear seu coração de esperanças e fé, mas não tarda a murchar e a se tornar em lixo, que reciclado em sua vez, servirá de alimento para o renascer de uma outra flor. É o ciclo da vida.

Ela tem sua vez nos casamentos, como prova de paixão, nos aniversários, para decorar mesas em ceias festivas e em encontros de chefes poderosos. No Dia de Finados, lá está ela para homenagear os mortos, ou em ocasiões onde famosos ou grupos de etnias diferentes são vítimas de assassinatos trágicos. Depois de murchas são incineradas ou se acabam em lixo.

Existe aquele ditado que diz, sempre existe a primeira vez, como o primeiro namoro, o primeiro beijo e a primeira relação sexual, muitas das quais ficam inesquecíveis ou perturbadoras nas mentes, que também têm suas vezes de escolhas no mundo das ideologias.

Tudo tem sua vez, mas não fique aí esperando o acontecer. Faça a sua vez porque outro está de olho em sua vez para passar a rasteira. Você transa a vida toda com a cruel competição para depois ficar cansado e se ir, no momento da sua vez.  O segredo é não pegar ou descer na estação errada. Preste bem atenção nos letreiros, nos avisos e nos comunicados.

Tudo tem a sua vez e essa é a máxima filosófica natural, desde a criação. A simplicidade é a mãe da virtude para o encontro da sua vez. A inspiração tem a sua vez de fazer nascer a poesia. Espere a maré baixar para fazer sua travessia. Não são apenas os fortes, os fracos também têm a sua vez, como um dia é da caça e o outro é do caçador. Quem faz o mal, aqui se paga. Não se apoquente e nem se vanglorie. Não seja prepotente porque tudo tem sua vez.

COMO SERIA O BRASIL DE HOJE SEM O GOLPE CIVIL- MILITAR DE 1964?

Várias vezes me pego imaginando como seria o Brasil de hoje se não tivesse ocorrido o golpe civil-militar de 1964. Muitas pessoas já devem também ter feito essa suposição. O assunto renderia um livro ou um filme imaginário de ficção dentro do realismo-fantástico a partir da existência de um contragolpe. Neste final de semana, meu amigo Dal Farias levantou esta questão.

Difícil de responder porque muitas coisas poderiam ter acontecido no decorrer do processo de implantação das reformas de base propostas pelo então presidente João Goulart no início dos anos 60 com a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961. São mais de 61 anos e de lá para cá, a desigualdade, a pobreza e a exclusão só aumentaram, talvez em maior proporção ao crescimento populacional.

Quando fazemos esta pergunta temos que nos reportar aos anos de 1954 quando Getúlio Vargas se suicidou e os milicos ensaiaram o primeiro golpe naquele imbróglio de Café Filho, mas foi impedido pelo general Lott que optou em se posicionar ao lado da legalidade.

Tentaram até não dar posse ao eleito Juscelino Kubistchek, mas tiveram que se recolher em suas casernas, apesar de não terem desistido da ideia. A mesma coisa ocorreu com Jango, em 1961, impedidos pela campanha da legalidade de Leonel Brizola. A frustração deles serviu para alimentar mais ainda a vingança, concretizada em 1964.

Bem, a indagação é como seria o Brasil de hoje se não tivesse existido o golpe de 64. Em minha modesta opinião de observador, tenho certeza que teríamos um pais bem melhor, mais igualitário, mais educado, de maior conscientização política e mais conhecimento e saber, tanto nas zonas urbana como rural, inclusive com a implementação da reforma agrária, que nunca foi feita.

Pelos meados dos anos 50 e até início dos 60 estávamos no caminho certo da educação e se respirava cultura, principalmente entre aquela nova geração, inspirada nos movimentos socialistas da Rússia, China e Cuba. Creio, no entanto, que não seríamos um país comunista na América Latina, como propagava o Ocidente através do Estados Unidos.

Naquela época da guerra fria, o pior inimigo era o comunismo da União Soviética (até hoje ainda é visto como vilão pela extrema), mas o Brasil não era um marxista convicto. Boa ala das forças armadas, inclusive soldados e oficiais, como nos movimentos tenentistas da década de 20, aderiam às reformas de base e às mudanças sociais propostas, mas não eram comunistas marxista-leninistas, com raras exceções.

O BRASIL É MAIS DE DIREITA OU DE ESQUERDA?

Isso responde a uma outra pergunta: O Brasil é mais de direita ou de esquerda? Mais uma vez, no meu entendimento, o pêndulo sempre esteve mais para o lado da direita e centro. Pela sua tradição cultural, inclusive religiosa católica e mais ainda evangélica, a família brasileira sempre foi conservadora moderada, não tanto extremista de direita como atualmente.

Interessante que foi a Igreja Católica, naqueles anos, que despertou nos jovens e trabalhadores em geral, principalmente, a participação nos movimentos sociais através da criação de grupos de ações populares, como JEC, JUC, JOC, JAC e tantos outros, inclusive no meio rural com os camponeses.

Aquela geração se engajou na defesa social visando conscientizar politicamente o povo do seu direito à justiça e à dignidade humana, com vistas a combater as desigualdades e contra a exploração do capital, especialmente das multinacionais. No fundo pregava-se a luta de classe e o povo no poder. Durante a ditadura, a bandeira principal era a volta da democracia.

Foi esta mesma Igreja, ávida por mudanças e na defesa dos pobres, a classe média dita burguesa e as elites oligarcas, que nunca aceitaram a distribuição de renda, que juntas se uniram para apoiar o golpe-civil-militar de 1964, sob o argumento de que o país estava à beira de uma ditadura comunista. Essa ideia foi amplamente bem trabalhada e divulgada pela CIA (Serviço de Inteligência) dos Estados Unidos, com a integração dos conservadores.

Sem contar a incoerência da Igreja Católica, que recuou e abriu mão de suas mobilizações sociais, a base da nossa formação familiar sempre foi de direita, tanto que tivemos aquelas megas manifestações de ruas, com os slogans de família, pátria e tradição.

Esses personagens, inclusive a imprensa, pediam também uma intervenção militar porque temiam que as reformas de base fariam do Brasil um país comunista. A história se repete e de forma mais aguda e agressiva, sem bem que os autores são diferentes. São esqueletos que há muito tempo estavam mofando nos armários.

O golpe de 1964 poderia ter sido evitado, não fossem as dúvidas, o medo ou covardia de Jango, que teve a possibilidade de abortar por ar a operação desastrada do general Olímpio Mourão, em 31 de março. Por sua vez, deveria ter permanecido em Brasília mobilizando comandantes que se colocaram a ser serviço.

Muito contribuiu também nesse processo de rendição, a falta de organização das esquerdas entre moderados e radicais, que pressionaram o presidente, até com ultimatos. Outros fatores entraram em cena, mas acredito que se o roteiro fosse outro, hoje o Brasil seria bem melhor, e não essa bandalheira de bandidos corruptos, fascistas extremistas e um Congresso Nacional que é o pior de toda história brasileira.

O CANGAÇO CINZENTO E O VERDE

O árido cinzento das secas e a questão social de pobreza, num Nordeste por séculos isolado, sem lei e sem rei, foram fatores preponderantes para a disseminação e expansão do cangaço, se bem que outros, como as intrigas entre famílias, o coronelismo e as disputas entre os poderosos chefes políticas também contribuíram para nutrir este fenômeno por mais de um século.

Entre o cangaço endêmico e o epidêmico, onde Pernambuco foi de longe o celeiro do banditismo, seguido por Paraíba, existiram o chamado cinzento concentrado no agreste do sertão e o verde na zona da mata mais próximo do literal onde estavam localizados os engenhos de cana-de-açúcar, conforme pontua Frederico Pernambucano de Mello, autor da obra “Guerreiros do Sol”.

No cinzento reinou Lampião e seus bandos durante cerca de 20 anos que percorreram sete estados, além de Jesuíno Brilhante e Sinhô Pereira no início do século XX, mas foi o Antônio Silvino, tipo acabado do sertanejo do Pajeú ressequido, o maior bandido que atuou em áreas férteis do Nordeste. Em seu primeiro ataque a um engenho a serviço de um contratante, no final do século XIX, foi naquela região que ele descobriu a galinha dos ovos de ouro.

Outros também agiram nesta área dos usineiros, como Rio Preto, Relâmpago, o Ferreiro, Cocada, o André Tripa e tantos outros. Naquelas áreas estendiam, em maiores proporções, as garras do latifúndio, minando a possibilidade de surgimento de uma classe média e produzindo um proletariado sem condições de ascensão. Em alguns pontos, o verde se aproximava do cinzento, este empobrecido por séculos.

Nesse rol, entre o verde o cinzento, não podemos deixar de citar o Lucas da Feira, que atuou na região de Feira de Santana, em meio aos dois tipos. Por vinte anos, foi o Lampião da Bahia. Dizem historiadores que ele está para a Bahia como o Cabeleira para Pernambuco. Seu tempo de criminalidade se deu entre 1828 a 1848, ao lado dos escravos Flaviano, Januário e outros. Foi um típico bandido de ofício. Após preso, Lucas foi enforcado em 25 de setembro de 1849.

O legista Nina Rodrigues dele fez um perfil um tanto curioso. Era negro canhoto, espadaúdo, corpulento, rosto comprido, barbado, olhos grandes e ferozes, nariz achatado, boca grande, peito peludo, orelhas pequenas, como também os pés e as mãos.

À luz da antropologia física do último quartel do século XIX, de acordo com Nina, constatou-se que seu crânio tinha todos caracteres dos negros, mas também pertencentes a crânios superiores, com medidas excelentes, iguais às das raças brancas.

SEQUESTRO COMO RESGATE E AS ESTRADAS

Quanto ao cangaço do cinzento, em o Canto do Acauã, de Marilurdes Ferraz, a escritora destaca que Lampião foi o introdutor do sequestro e resgate, modalidade que fazia uso corrente, tendo por vítimas empresas multinacionais, como a Standard Oil Company e a Souza Cruz. Segundo ela, Virgulino foi o primeiro cangaceiro a empregar o sequestro como resgate.

Como exemplo, é citado o sequestro do escrivão de Justiça de Capim Grosso, na Bahia. O escritor sergipano Ranulfo Prata diz que o bandido “usa também dos processos civilizados dos americanos”. Ele destaca, nos anos 30, o sequestro e resgate do filho de Charles Lindbergh, nos Estados Unidos, pelo imigrante alemão Bruno Richard Hauptman, condenado à cadeira elétrica.

O banditismo não foi exclusivo do Nordeste brasileiro. Aconteceu também em outros países, como na Espanha, em Andaluzia, na pedregosa Catalunha, na Córsega e Sardenha, na Itália. Como relata Frederico, no banditismo espanhol, os primeiros sequestros ocorreram em princípios de 1869, na província de Málaga, por Alameda y Alora. “É o que nos dizem Queirós e Ardila, em El Bandoleirismo Andaluz”.

De todos os banditismos em outros países, o que mais se assemelhou ao nosso, inclusive com uma gesta poética muito rica de autores nos cantos do jondo ou flamenco, de modo particular na chamada serrana, foi o espanhol da Catalunha e da Antaluzia, onde havia fundos fincados na alma do povo, sistema de coiteiros, relevo acidentado, culto à valentia, degolamentos e uma repressão ineficiente e corrupta.

No entanto, como diz Frederico de Mello, o maior banditismo rural brasileiro foi mesmo no cinzento das caatingas nordestinas onde encontrou condições extremamente favoráveis “capazes de endiabrá-lo em verdadeira praga”.

O caráter epidêmico no semiárido, “encontra-se intimamente ligado às condições mesológicas e aos processos que presidiram a formação da sociedade sertaneja, condicionando o aparecimento de um tipo de homem bem diferente do seu vizinho das regiões do litoral”.

Ranulfo Prata descreve também o ódio que o bandido Lampião tinha pelas aberturas de estradas no Nordeste. Em 1929 ele interrompe com ameaças a construção que ia unir Juazeiro a Santo Antônio da Glória, passando pelo seu predileto esconderijo que era o Raso da Catarina.

Em fins de maio de 1930, nas proximidades de Patamuté, Bahia, topa com uma turma de obras de estrada, matando um. Fez o mesmo em Mandacaru, na Bahia, com três mortes. Em 1934 ataca, em Sergipe, pelo mesmo motivo, bem como, em 1937, quando uma estrada federal é embargada a bala. O jornal A Tarde chegou a noticiar esses fatos.

AS PROPOSTAS

Nos tempos do cangaço ocorreram muitos fatos curiosos, muitos dos quais relacionados com Lampião. Em sua vida, recebeu muitas propostas para deixar o cangaço. Em 1922, no início do seu banditismo, Sinhô Pereira, ao pendurar seu rifle, o convidou a deixar o sertão. Anos mais tarde, vida já arrumada em Minas Gerais, Sinhô renovou o convite através do seu protetor político Farnesi Dias Maciel. Lampião tinha até a opção de ir morar em Mato Grosso.

Em 1924, ferido no pé em tiroteio, Belmonte, Pernambuco, recebeu oferta do então capitão Teófanes Ferraz Torres para que se entregasse juntamente com seus irmãos que seriam todos perdoados. Escondido no mato e perdendo sangue, Lampião aceita, mas com a condição de que seus cabras também fossem beneficiados. O capitão não concorda.

Em 1928, seu primo Sebastião Paulo procura Virgulino no Capiá, Alagoas, com proposta do tenente pernambucano Arlindo Rocha, para que se entregasse e seria levado sob escolta até o chefe de polícia de Recife, Eurico de Souza Leão. A proposta era que Lampião abandonasse Pernambuco e fosse para a Bahia. Lampião disse ao primo que falasse ao chefe de polícia de que ele não foi encontrado.

Apesar da recusa, dias depois ele foge de Pernambuco e se refugia na Bahia e Sergipe, isto porque o governador daquele estado, Estácio Coimbra mandou prender um bando de coiteiros, cortando a rede de proteção dos cangaceiros.

“Afora uma proposta ardilosa de perdão do presidente Vargas, feita pelo tenente João Bezerra (seu algoz em 1938), nos primeiros anos da década de 30, conhecemos mais duas, uma de Audálio Tenório, de 1937, para que abandonasse o sertão, e a de Joaquim Resende, com o beneplácito do major José Lucena (seu maior inimigo). A negociação estava em andamento quando ocorreu a morte do cangaceiro. Padre Cícero também tentou persuadi-lo de que deixasse o cangaço e fosse para Goiás, isto por volta de 1926/27.

 

 

 

 

ÚLTIMA SESSÃO DA CÂMARA

Vários temas foram debatidos pelos vereadores de Vitória da Conquista na última sessão do ano que aconteceu nesta sexta-feira, dia 19 de dezembro de 2025. Em recesso, as atividades da Câmara Municipal retornarão em março de 2026.

Nesta última reunião, os vereadores discutiram a concessão de ticket-alimentação para eles mesmos, servidores estatutários do quadro efetivo, comissionados e contratados por tempo determinado, assunto nada popular para os conquistenses.

Entraram em pauta também a instituição das festas de caruru de São Cosme, São Damião e Doum; dos erês dos orixás Ibeji e nos Nkisis Nvunji, que são patrimônio cultural e imaterial do município.

Foram debatidos ainda a reestruturação de setores e funções que alteram o quadro geral de cargos comissionados e o sistema de apoio à atividade parlamentar, e modifica dispositivos da lei número 2.955, de 23 de dezembro de 2024, revoga seus anexos e dá outras providências, com objetivo de promover o aprimoramento da estrutura administrativa e funcional do poder legislativo.

Como sempre, falaram todos vereadores se reportando ao ano de trabalho, só que as ações continuam durante o recesso, como destacou o parlamentar Adinilson Pereira. Ele apontou, em sua fala, a falta de infraestrutura às margens do Bairro Lagoa das Flores ao lado da BR-116, de responsabilidade do Denit.

Ricardo Babão falou da última sessão de 2025, dizendo estar feliz pelo seu terceiro mandato com realizações importantes em parceria com a prefeita, com o Governo do Estado e com o deputado Jean Fabrício.

A vereadora Cris Rocha também se reportou à última sessão e destacou os principais avanços da Câmara e da Mesa Diretora. O legislativo aprovou pautas fundamentais nos setores da saúde, melhorias no atendimento e mais investimentos – ressaltou a parlamentar. Outra conquista, de acordo com ela, foi a construção da unidade de saúda de Lagoa das Flores onde também irá receber a revitalização da quadra poliesportiva. Rocha ainda ressaltou os avanços de obras na zona rural. Disse ter sido um ano de intenso   trabalhos em benefício dos conquistenses.

Luis Carlos Dudé parabenizou o presidente da Casa, Ivan Cordeiro, quando enumerou diversos projetos aprovados em 2025. De acordo com ele, o ponto mais positivo foi a reforma da Lei Orgânica do Município de Vitória da Conquista. “Ela é uma espécie da nossa Constituição Municipal”. Na ocasião parabenizou a bancada feminina pela criação da comissão das mulheres.

 

É NESSE DIA

(Chico Ribeiro Neto)

Esse dia é o dia em que camelos voarão sobre o Saara e elefantes nadarão no Porto da Barra.

Nesse dia as flores vão acordar mais cedo para mandar embora o medo.

Caramujos vão invadir as sinaleiras levando novas cores: branco, azul e violeta.

Nesse dia todo mundo vai amanhecer cantando uma cantiga daquelas de quando era pequeno.

Gaivotas levarão seus boletos para uma ilha deserta.

Nesse dia não tem compromisso, nada com isso, e todos vão dançar com a banda BaianaSystem Não tem dentista nem problemas à vista, tudo é conquista.

Velhos, crianças e adultos vão correndo dar um mergulho no mar.

Nesse dia não tem não nem talvez, não tem senão nem porém.

Sabiá vai cantar na janela e vou ganhar um beijo dela.

Plantas vão romper o asfalto e vai cair uma chuva fininha.

Nesse dia beberemos o vinho tinto que escorre da montanha,

Mangas (rosa e espada), melancias, cajás, umbus e cajus vão rolar nas ladeiras de Salvador.

Fartura de acarajé, abará e peixe frito em cada esquina.

Ouviremos uma música lá longe.

No final do dia, um pombo branco vai cagar na cabeça de Dom Pero Fernandes Sardinha, na estátua da Praça da Sé.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

TEM DE TUDO NA FEIRINHA

As feiras nasceram com as primeiras tribos humanitárias de agricultores, classificados como sedentários, diferente dos caçadores e coletores que eram nômades. São tão antigas quanto a humanidade e surgiram da necessidade da troca de seus produtos entre as pequenas comunidades. Elas existem em qualquer parte do planeta, incluindo as grandes metrópoles, e sobrevivem ao mundo moderno das tecnologias, desde a criação dos armazéns, das lojas comerciais, dos supermercados e até dos mercados virtuais. Não existem cidades, vilas e distritos que não tenham a sua. Nas grandes são várias, como é o caso de Vitória da Conquista, mas sempre tem uma que entra nas graças de seus moradores. Em Salvador é a Feira de São Joaquim. Em Conquista é a Feirinha do Bairro Brasil, a mais famosa e graciosa, considerada patrimônio cultural da cidade. Aliás, toda feira é um palco livre da nossa expressão cultural, como a nossa histórica Feirinha onde se encontra de tudo, desde boxes de carnes, peixes, frutas, verduras, bebidas (cachaças), um caldo de cana com pastel (para quem aprecia o pastel), temperos, cereais em geral, a utensílios usados de casa, roupas, sapatos, ferragens, artesanatos, mesas, cadeiras, objetos de uso pessoal e um monte de bugigangas, superando os supermercados, com o diferencial que na feira o cliente pode pechinchar os preços. É gostoso passear na feira e fazer suas compras ao ar livre, sem estar empurrando carrinhos e pegando filas naquelas máquinas registradoras. Nos encontros com os amigos e conhecidos, até o papo na feira é mais prazeroso que o de um supermercado.  Na feira você não precisa ficar rodando entre prateleiras para encontrar um produto. As mercadorias ficam em bancas e até no chão. Além de ter de tudo, na feira existe muito mais calor humano e você pode até trocar um dedo de prosa com o vendedor, como se tornar freguês e selar uma amizade duradoura. Quando vou à feira, lembro dos meus tempos de moleque roceiro do interior onde fui até comerciante de farinha. A Feirinha do Bairro Brasil, por exemplo, tem algo de especial e é ali onde você se sente mais gente, mais humano e menos número e máquina. Trata-se de um ambiente mais social, bem mais popular, principalmente pela simplicidade da sua gente por onde circula. Nossas lentes flagraram esse colorido de imagens que não existe num supermercado.

CAVERNA VIRTUAL

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Você é produto do meio,

Ilusão e devaneio,

Nessa caverna virtual,

De morcegos vampirescos,

Dentes dantescos,

Que sugam seu sangue,

Até a medula cerebral.

 

Desculpe companheiro,

Se meu verso não lhe agrada,

Pela lasca da pedrada.

Livre-se desse cativeiro,

Do influenciador superficial,

Seja mais racional

 

Fique aí em sua rede,

Com sua bicharada,

Como caça do caçador,

Nem sente mais fome e sede,

Alienígena social,

Do vazio virtual.

 

Ao invés de curtir na tela,

Veja a vista da sua janela,

Sua caverna virtual,

Cria taquicardia,

Morte lenta, passional,

Drogaria, psiquiatria,

Clique no amor presencial,

O resto é idolatria.

 

 

PAPO RETO ENTRE AS VACINAS

Estou de saco cheio, enfastiado e enojado de falar desse Congresso Nacional! Por acaso, existe alguma vacina a ser aplicada no eleitor na hora de votar para eleger um colegiado sério e honesto de representantes do povo? Deixa pra lá, hoje estou mais interessado no papo reto entre as vacinas no Brasil.

Observou que vacina é do gênero feminino e a maioria das doenças também? Talvez esteja aí a explicação dos negativistas contra elas pelos misóginos preconceituosos! Em tempos mais recentes, a que sofreu mais rejeição foi a Covid-19, que ceifou a vida de mais de 700 mil brasileiros.

Por isso, quando se fala em vacina, lembramos logo dela. Foi aquela confusão e polêmica danada, ao ponto de se criar brigas e inimigos. Por ser chinesa dos olhos fechados, a discriminação foi ainda maior. Foi um tal de bota fora e até de se propagar que a pessoa que a tomasse iria virar jacaré ou pegar HIV, que nunca teve a sua vacina.

Um amigo meu bateu umas besteiras em meu cansado ouvido de escutar tantas asneiras. Afirmou que o brasileiro é um corpo ambulante de vacinas, daí os infartos em escala crescente. ”Cuidado, não tome vacina porque você pode sofrer uma parada cardíaca”!

Fiz de conta que não ouvi e mudei de conversa sobre a questão do aquecimento global. Aí, ele também respondeu que é uma falácia. Comentei sobre a terra. Respondeu que era plana. Assim fica difícil entabular uma prosa nos dias atuais. Melhor tapar a boca com esparadrapo.

Quanto as vacinas, dizem que existem 18 delas no Brasil para proteger famílias e seus filhos. Imaginou elas se cruzando na corrente sanguínea, na caça ao vírus malígno, que é macho, para eliminá-lo! Todas têm o DNA de estrangeiras, com exceção da mais caçula da dengue, nascida agora no Instituto Butantã, em São Paulo.

Por falar em vacinas, quando era menino na roça, nunca ouvi falar delas, mas tive aquelas doenças mais comuns em crianças, tratadas com simpatias e receitas caseiras. Recordo mais do sarampo, da catapora, das tais “tosse convusca” ou convulsa (coqueluche) e da “papeira” (caxumba).

Com relação a tosse, quando estava atacado, meus pais jogavam baldes d´água em mim. Parava no susto. Ah, enquanto se estava com sarampo e catapora, não se podia tomar banho, sem contar os resguardos das rezadeiras.

Quem tinha a papeira não podia passar debaixo de cerca, senão a “bicha” descia para baixo até o saco, que ficava grande. Quando passava alguém com aquele saco enorme balançando nas calças, cochichavam que foi porque teve papeira e passou por debaixo da cerca. Ah, seu moço, passei a ter um pavor de cerca”

Bem, voltando ao assunto, essas feministas juntas devem fazer um barulho da peste quando começam a papear. E aí, quem é você, como se chama? Pergunta a vacina do sarampo. Sou a poliomielite e venho da primeira campanha, em 1961. Minha missão é combater a paralisia infantil. Está bem, vá em frente e derruba o cabra.

A do sarampo, muito tagarela, também cruzou com a da rubéola, da caxumba, da febre amarela, com a tríplice viral, a BCG, a tetraviral varicela, a HPV, a do tétano, da raiva, das hepatites “A” e “B”, influenza trivalente (essa deve ser cangaceira), a H1N1 e a da DTPa. Existe até sopa de letras. São as empodeiradas!

Como todas falavam ao mesmo tempo, tem vez que é aquela zoeira perturbadora que até o coração precisa dar aquele basta e mandar que todas procurem circular. “Parem de tanta conversa barata! Até parecem um bando de desocupadas que ficam fofocando da vida alheia”!

– Olha lá, aquela velhinha que vem se arrastando! Apontou uma delas. A trivalente se encarregou logo de informar que se tratava da exterminadora da perigosa varíola, desenvolvida, em 1961/62, pelo Instituto Oswaldo Cruz.

Conta a história que a primeira a aparecer contra a doença varíola foi lá pelos anos de 1804. Cem anos depois, o cientista brasileiro Oswaldo Cruz foi responsável por implementar ela em larga escala no país e quase foi morto por uma tropa enfurecida de ignorantes negativistas – destrinchou a trivalente.

E quem era esse Oswaldo Cruz? Santa ignorância! Era diretor Geral da Saúde Pública e instituiu a vacinação obrigatório, em 1904.  Ah, isso deu um fuzuê daqueles! Gerou até uma rebelião popular, chamada de “Revolta da Vacina”, no Rio de Janeiro.

-Ninguém queria chegar perto dela. Muita gente fugiu, mas centenas tiveram que tomar na tora. Ameaçaram o homem de morte, mas ele não recuou e ainda introduziu as vacinas contra a febre amarela e a peste bubônica. Foi o cara!

– Coitadinha dela! De tanto apanhar, anda meio rejeitada pelos cantos, cabeça baixa, sem muita prosa! Falou a catapora, que mais parece nome de cabra do cangaço nordestino. Com seu “punhal,  afiado” saiu  para cuidar da sua obrigação.

A caxumba e a rubéola foram saindo de fininho, à moda francesa, pois se aproximava a raiva para dar aquele esporro. “Vão trabalhar, cabroeira de preguiçosas! Não vê que a carcaça brasileira está cheia de doenças e precisa de uma ajuda de vocês feministas!





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