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:: 28/nov/2025 . 22:52

AS SECAS E AS AGITAÇÕES POLÍTICAS FAZEM PROSPERAR O CANGACEIRISMO

Por séculos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crianças, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentração. Os governantes pouco fizeram para minimizar a situação.

Além das grandes secas, os nordestinos ainda eram acossados pelas agitações políticas e o cangaceirismo que, em bandos, aproveitavam para saquear feiras, povoados e pequenas cidades, principalmente nas primeiras décadas do século passado. O povo vivia abandonado à própria sorte diante da falta de estrutura e desorganização dos governantes para conter o banditismo.

As secas alimentavam o cangaço, que se juntava às disputas entre os chefes políticos e os coronéis, gerando uma onda de violência e mortes sem precedentes no Nordeste, que por séculos viveu isolado. A justiça era a lei do mais forte numa terra onde tudo se resolvia na base da bala, sobretudo entre os séculos XVIII, XIX e até meados do século XX.

O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, em sua obra, “Guerreiros do Sol” descreve esse panorama de miséria, fome, violência e sangue. Para quem não conhece sua história de lutas, sofrimento e abandono, simplesmente vê até hoje o nordestino como um povo atrasado.

O banditismo viveu seu apogeu nos períodos de desorganização social, especialmente em razão dos fenômenos das secas, com destaques para as de 1692, 1723/27, 1774/76, 1792, 1844/45, 1877/79 (a maior de todas), 1915, 1919/20, dentre muitas outras.

As secas, ao lado das agitações políticas e o cangaço, golpeavam as incipientes estruturas, reduzindo as famílias, que prosperavam em tempos de chuvas, em estado de miséria. As lavouras eram perdidas, o gado morria à mingua e os retirantes faziam suas procissões profanas. Era o salve-se quem puder.

Descreve o autor que no coice dessas ocorrências, certamente o cangaço de ofício se manifestava com intensidade redobrada. Fazendo um balanço dos efeitos da seca de 1877/79 (na verdade começou bem antes), Irineu Joffily, em “Notas sobre a Paraíba”, lembra que era geral a falta de segurança. Muitos fazendeiros eram obrigados a levantar forças para defesa de suas propriedades.

O transporte de gêneros era difícil, Caravanas atravessavam 50 e 60 léguas de sertão, levando cada homem às costas, 40 e até 80 litros de farinha, além de armas para repelir as investidas dos famintos e os ataques dos cangaceiros.

Destaca o estudioso no assunto que, em 1692, os indígenas foragidos pelas serras reuniram-se em grupo e caíram sobre as fazendas das ribeiras devastando tudo. Em 1725 e nas outras secas desse século repetem-se as depredações e assassinatos. As disputas políticas incentivavam a proliferação da aventura cangaceira.

Paralelo à seca de 1844/45, surge no Cariri cearense o bando dos Sereno, espalhando por três estados até a Chapada do Araripe onde também aparece os Xio. No meado do século passam a atuar os Guabiraba que se fizeram bandidos nas escolas de Pajeú de Flores. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, o Pajeú se tornou numa universidade da violência e do cangaço. Com exceção de Jesuíno Brilhante (Rio Grande do Norte), de lá saíram os mais famosos como Lampião, Sinhô Pereira, Antônio Silvino, Antônio Quelé e tantos outros.

Os membros de os Guabiraba eram irmãos naturais da vila de Afogados da Ingazeira, no sertão pernambucano. De longe, Pernambuco liderou a criação de bandos na década de 20. Segundo historiadores, praticamente todos os dias aparecia um bando novo nos sertões nordestinos, destacando os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Em 1878, no auge da grande seca, salteadores infestaram todo interior, como dos Quirino, em Milagres, sob a proteção de João Calangro que, de acordo com o escritor Rodolfo Teófilo, fazia guerra de extermínio aos grupos que se formavam sem o seu consentimento. Nesta época, existiram os Mateus, formados por cem homens, os Simplício, os Meireles, os Barbosa e Viriato, todos da zona do Pajeú.

Frederico de Mello aponta que, com a seca de 1919, o cangaceirismo profissional entrou em fase de vertiginosa expansão. Quando os esforços repressores começaram nos anos seguintes, veio a Coluna Prestes, em 1926, proporcionando aos bandidos ampla recuperação devido a desorganização das forças volantes.

O ano de 1926 se converteu no maior apogeu de toda história do cangaço, tendo Lampião como principal responsável, ainda como cabra dos Maltide e dos Porcino, bem como no bando de Sinhô Pereira. Depois ele formou o seu grupo sanguinário.

Entre as agitações políticas, Frederico de Mello cita a ‘guerra santa” de Juazeiro do Norte, em 1914, a passagem da Coluna Prestes, entre 1926/27, o clima social e político do Cariri, em 1901, com inúmeras lutas armadas. As duas primeiras décadas do século XX foram as piores.

Com base em fontes de jornais e pesquisadores, o autor da obra elenca todos os anos, como em 1907, quando o coronel Gustavo Lima depõe à bala o próprio irmão Honório Lima, assumindo o comando político do município de Lavras.

Em 1909, os chefes políticos de Milagres, Missão Velha, Barbalha e outros municípios próximos reúnem mil homens para atacar o coronel Luis Alves Pequeno, do Crato. Em 1823 é assassinado, em Fortaleza, o coronel e então deputado estadual Gustavo Lima. Em 1928, o chefe político de Missão Velha, Isaias Arruda, é assassinado no trem.

Para acabar com toda essa guerra, em outubro de 1911, aconteceu um curioso encontro com vista a se firmar um pacto de paz, em Juazeiro. O Padre Cícero procurava harmonizar os conflitos dos coronéis que dominavam o Cariri.

O documento ficou conhecido como “pacto dos coronéis”, com duas clausulas principais. A primeira dizia que nenhum chefe procurará depor outro. A outra era que cada chefe, por ordem moral política, terminaria a proteção a cangaceiros, ou seja, não seriam mais coiteiros.

Nem bem secara as tintas, o Padre Cícero, mentor do pacto, derruba o Governo do Ceará, em 1914. Os coronéis fizeram o contrário. O documento foi letra natimorta. Por mais trinta anos vigorou a lei do mais forte.





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