:: 19/nov/2025 . 21:10
UM BRASIL DESCONFIADO E CONSERVADOR
“Vá com Deus”, Deus que lhe acompanhe”, Deus está no comando”, “foi Deus quem assim quis”, “fui salvo, graças a Deus”, Deus é fiel” e “família é tudo na vida”. São expressões que se ouve cotidianamente, não importando os extremos, os opostos, se religioso, ou não, e é isso que nos une em meio a esta polarização política extremista e derrotista.
O interessante é que este Deus tem seu nome banalizado, usado em vão até num jogo de cartas, ou para cometer maldades e bandidagens. A família – no bom, sentido – é unida até quando não envolve dinheiro no meio. Numa herança, ela entra em “guerra” de mortes. Tudo isso não é um paradoxo?
Diante de tanta violência brutal, golpes, individualismo, falsidades e falta de respeito para com o outro, talvez o brasileiro seja o mais desconfiado no mundo de hoje. O brasileiro desconfia do próprio brasileiro, inclusive quando se está no exterior. Por falar nisso, o nordestino, que sofreu séculos de agruras e isolamento, é o mais desconfiado. Ele é um cismado por natureza.
Esta desconfiança está também na convicção de que nem todos são amigos, embora seja outra palavra mais pronunciada por onde se anda, até mesmo saída da boca de um desconhecido na rua. Tem aquele “amigo-irmão” de botequim, dos encontros nos bares e na cachaça, que depois se vai ao vento como pó.
“Confie, desconfiando”. São raros os amigos. Inconscientemente, houve uma vulgarização dessa coisa do amigo. Essa desconfiança empurrou o brasileiro para a indiferença com relação ao próximo. Todos são suspeitos, até que se prove o contrário. Difícil se parar um carro na estrada para atender um pedido de socorro. Nas ruas das médias e grandes cidades, essa desconfiança ainda é bem mais acentuada.
O desconfiar resulta em afastamento e medo, que criam o fatalismo da polarização e da divisão no campo político, só que no meio disso existe atualmente uma grande maioria silenciosa que não fica bradando e xingando nas redes sociais, nem quer entrar nessa discussão. Procura ficar de fora. É essa maioria que toma posições caladas e até decide eleições.
Por sua vez, o brasileiro acha que sabe de tudo, mas, no fundo, nada sabe. No acreditar que tudo sabe, ele procura impor suas ideias como se fossem padrão de verdade e é aí que são gerados os conflitos e inimigos. O que os une é que “Deus está no comando” e “família é tudo na vida”. Nisso, todos comungam, ou quase todos.
Outra coisa é que o brasileiro é conservador por natureza, mesmo os considerados progressistas de esquerda. Na questão do sexo, para ele, tudo é lícito entre quatro paredes, mas não aceita exposição em público. No íntimo, se choca com o que ver. Ele ainda conserva dentro de si a cultura ancestral patriarcal, por mais que se diga aberto e liberal.
O mesmo acontece quanto ao preconceito racial e até de gênero. Ele fala em público e até procura forçar sua convicção de que não é preconceituoso, mas, aqui e acolá, termina caiando em deslize e contradição, sem sentir que está sendo. Antigamente, esse preconceito era bem explícito, hoje ele é escondido e patrulhado por força das mudanças nas políticas públicas que incriminam a prática.
Conforme constatou uma pesquisa sobre estes valores arraigados nos brasileiros, a nova geração, chamada por alguns estudiosos do assunto, de zen, ou ponto com, é a mais liberta desses preconceitos, e isso nos dá a esperança de que podemos ter um futuro melhor, sem essa mancha e esse rancor. O preconceito religioso está mais enraizado entre os fanáticos fundamentalistas.
Outra coisa é que o brasileiro se tornou um punitivista, tanto que a grande maioria defende a pena de morte, a redução da maioridade penal e até que se faça justiça com as próprias mãos. Vimos isso nas últimas operações militares feitas nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. A maioria votou pela aprovação, segundo pesquisa realizada por uma empresa do setor.
Temos um Brasil paradoxal, “vira-lata”, de Nelson Rodrigues, que cultua o estrangeiro, caso dos Estados Unidos, que, por sua vez, enxerga nosso país como inculto, atrasado e arcaico. “Que país é esse”, tão miscigenado, místico e cheio de contradições?
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