Confesso que não consegui entender as críticas veladas e raivosas contra a escultura de um coronavírus e nele sendo aplicado uma injeção, ou uma vacina, feita pelo artista Alan Kardec, e que foi instalada nas imediações da Avenida Olívia Flores.

Muitos se expressaram nas redes sociais – e até aí é um direito de cada um – como um desrespeito e uma afronta aos mortos pela Covid-19, que em Vitória da Conquista está em torno de 140 pessoas e mais de 140 mil no Brasil.

NÃO COM ÓDIO E DEBOCHES

Em minha opinião, é uma homenagem prestada à ciência, aos médicos e aos técnicos da área de saúde que estão na linha de frente nos hospitais no combate à doença, e salvando vidas. De um modo geral, a arte é para ser vista e interpretada subjetivamente de várias maneiras, e é passível de críticas, mas não com manifestações de ódio, intolerância e até deboches, com memes.

O próprio autor da arte, um grande e talentoso escultor conquistense que tem dedicado toda sua vida a mostrar seu valioso trabalho, com recursos próprios, disse encarar as críticas com naturalidade, e que sua intenção foi puramente a de homenagear à ciência que está batalhando para encontrar uma vacina, ou medicamentos para acabar de vez com o vírus, de forma que a vida no planeta, de cerca de oito bilhões de habitantes, volte ao seu normal.

Alan, que é muito conhecido por suas polêmicas – e assim deve ser a vida inquieta de um artista – tem centenas, ou até milhares de obras espalhadas pela cidade que são apreciadas por muita gente. Como se não bastasse, em breve ele deverá entregar ao público o “Museu Kard” de esculturas, fruto do seu incansável trabalho de um operário abelha ou cigarra da cultura.

Infelizmente, não somente em Conquista, mas em todo nosso país, a nossa cultura tem sido jogada na cesta de lixo, censurada por moralistas dos “bons costumes” e até esconjurada. Arte deixou de ser reflexão da vida e da alma.

Essa gente das críticas ácidas, na sua grande maioria sem base fundamentada de conhecimento, não tem coragem de fazer cultura, não liga e nem dá importância para ela. Pouquíssimos hoje valorizam uma boa música, um bom filme, uma boa peça teatral, um poema, a leitura de um bom livro e, raramente, frequentam museus e salões de artes plásticas.

Nessa era de trevas, com odor podre medieval inquisitório ultraconservador, quase todos artistas hoje são vistos como comunistas esquerdistas que merecem ser queimados nas fogueiras. São espécies em extinção, como centenas de animais da nossa natureza. São pessoas que têm se mantido solitários nas trincheiras da resistência.

A SOLIDÃO DOS ARTISTAS

Como jornalista, pelo pouco que tenho feito pela cultura, escrevendo e elaborando minhas letras poéticas, me sinto vítima dessa solidão, onde meu produto tem o mínimo de valorização e merecimento. Também respondo como Alan, de que as críticas não me abalam. Muito pelo contrário, me dão mais forças para continuar na peleja.

Um exemplo disso são os nossos pioneiros vídeos de textos-poéticos que, com uma pequena equipe e um celular na mão (Jeremias Macário, Vandilza Gonçalves e José Carlos D´Almeida) vêm sendo realizados desde o início de março com a chegada da pandemia, e distribuídos para grupos de amigos, conhecidos, interessados e parentes. Com a colaboração financeira de algumas pessoas, conseguimos fechar um curta-metragem de pouco mais de 20 minutos.

Temos ainda o nosso “Sarau Cultural A Estrada” que neste ano completou dez anos de existência, produzindo conhecimento e troca de ideias. Com meus textos, tenho ouvido e recebido críticas invejosas de forte cunho ideológico, mas não é por isso que vou parar, e creio também que Alan está ainda mais inspirado para nos brindar com suas novas criações.

Neste Brasil de tantos retrocessos, arte hoje é destruir o meio ambiente, com derrubadas de árvores e queimadas; praticar a homofobia e o racismo; chamar o negro de escória; e defender que a terra é plana. Arte hoje em nosso país é acabar com o Ministério da Cultura, com a nossa cinemateca; apoiar a volta da ditadura; negar a ciência; e dizer que a Covid é uma “gripezinha”. Arte hoje é reduzir recursos do Ministério da Educação; roubar os cofres públicos e alimentar a corrupção com o fim da Força Tarefa da Lava Jato. Arte hoje é chamar os artistas de comunistas e bando de vagabundos imprestáveis.