Sessenta e dois anos depois e os brasileiros acordaram neste Brasil, em 1º de abril de 1964, com tanques nas ruas, militares armados de fuzis e metralhadoras, muita gente sendo presa, grêmios estudantis e a União Nacional dos Estudantes sendo fechados e a nossa liberdade de expressão vilipendiada.

Nesta data, o presidente João Goulart ainda estava em território brasileiro, no Rio Grande do Sul, tentando impedir o golpe civil-militar que durou mais de 25 anos, com quase 500 mortos e desaparecidos. Mesmo assim, o Congresso Nacional traidor, através do Aldo Moro, usurpou das prerrogativas constitucionais e depôs o mandatário do poder, contando com a força da cúpula dos generais carrascos.

Lamentável que o 1º de abril (dia da mentira) passe praticamente esquecido dessa mídia alienada, desmemoriada e entreguista do capitalismo. Nas escolas nada se fala nas aulas sobre este episódio de terror e torturas. Os jovens até desconhecem de que tenha existido ditadura que matou centenas de presos políticos nos porões das cadeias imundas. A sociedade se cala e até os trabalhadores ignoram esse fato histórico.

O pior ainda, e o que nos deixa mais temerosos e sobressaltos é que milhões de brasileiros, 62 anos depois, ainda vão às ruas pedir uma intervenção militar, ou seja, outra ditadura. Eles não sabem o que falam, mas não merecem ser perdoados, quanto menos anistiados os que tentaram dar outro golpe no dia oito de janeiro de 2023 quando invadiram os três poderes da República.

Não se trata aqui de ser de direita, de centro ou de esquerda. Não importa qual ideologia seja, se marxista, leninista, liberal, conservadora, progressista ou comunista, mas de se colocar na mente de que a liberdade e a democracia são intocáveis e templos sagrados das nossas vidas.

Cada um deve ter sua maneira de pensar, direito ao seu contraditório quanto as formas de se expressar, mas atentar contra a liberdade e levantar a bandeira de uma ditadura é inadmissível e devem ser as únicas coisas proibidas neste país. Em Sociedade Alternativa, o nosso cancioneiro Raul Seixas defendeu o “fazes o que tu queres”, um hino à liberdade.

Por ela (a liberdade), podes até lutar e matar que não constituem crime algum perante a lei. Portanto, devemos todos os dias dizer, ditadura, nunca mais no Brasil. Devemos estar sempre vigilantes para que a maldita nunca mais bata em nossas portas e separe famílias, amigos e espalhe o terror.

Essa vigilância deveria estar presente cotidianamente nas salas de aulas, em reuniões, nos encontros, seminários, nas manifestações populares, nas propagandas institucionais e comerciais, nas igrejas, em associações porque ela está sempre rondando nosso terreiro para roubar nossas flores e depois invadir nossos lares.

Ode à liberdade e à democracia deve ser uma lei pétrea para que as ideologias diversas, inclusive as mais arcaicas e atrasadas sobrevivam, contanto que respeitem o livre pensar dos outros, sem racismos, homofobias e misoginias porque estas já cheiram a ditadura e estão próximas de regimes autoritários e tirânicos.

Os que pedem ditadura militar são tão ingênuos, brutos e ignorantes que nem sabem que se ela se instalar com seu cutelo sanguinário, serão os primeiros a serem atingidos. Essas pessoas devem achar que serão privilegiadas para criticar o monstro que elas mesmas criaram. Quando a liberdade cessar de vez, vão perceber tarde demais que é até proibido pensar.