“FAZER O QUÊ, NÉ”!
As pessoas hoje se entregaram, como se nada mais pudesse ser feito para mudar a situação. São como robôs comandados pelas ordens dos mandatários no poder, e se sentem reféns dos acontecimentos ruins que prejudicam nossas vidas.
É como se não tivéssemos mais direitos de reivindicar e protestar contra os desmandos e arbitrariedades. Como se não fossemos donos de nós mesmos. Somos objetos inocentes úteis dos deveres.
Quantas vezes já ouvimos esta expressão “fazer o quê, né” quando as administrações públicas aumentam o valor dos transportes públicos, as empresas elevam os custos da energia e da água, os combustíveis sobem, projetos de lei são absurdos e a violência brutal bate em nossas portas ceifando vidas que pouco valem.
Quando fenômenos anormais da natureza provocam tragédias, o pobre tem cinco ou seis filhos, as coisas não ocorrem como se queria e até as injustiças sociais atingem os mais fracos, sempre ouvimos que “foi Deus que assim quis”, como se não tivéssemos mais opções de decidir nossos caminhos.
“Queremos justiça”, que nunca chega, ou quando se alcança é tardia e não é justa na medida do crime cometido pelo agressor. É outra frase comum quando algum amigo, parente, ente querido da família é atingido por uma bala perdida ou pela truculência da polícia.
“Não podemos fazer nada” é outro termo irmão do “fazer o quê, né”! “É assim que a banda toca, meu amigo”, e não é com seu clamor e revolta que vai mudar o mundo. Êta vidinha acomodada e submissa que se perdeu na desilusão de que as coisas não podem mais mudar! Não adianta espernear! “É perda de tempo”!
Chegamos ao fundo do poço (ainda tem mais fundo) do comodismo, do individualismo, da indiferença e da falta de indignação onde cada um no mundo de hoje só pensa em si e acha que lutar pelo coletivo basta dar uma doação para uma campanha (sai uma e entra outra) de brinquedos ou alimentos em final de ano (Natal), ou para socorrer vítimas de catástrofes. Temos consciência política beirando a zero.
Nos tempos que não existiam internet e celular, nem redes sociais de milhões de visualizações e seguidores de besteiróis, multidões marchavam nas ruas, praças e avenidas na busca pelos seus direitos humanos e era “um por todos e todos por um”. Isto tudo se acabou e nem existem mais amigos de verdade, como antigamente, do tipo “certo nas horas incertas”.
Sentimos atualmente um vazio no peito quando observamos que as pessoas se entregaram à própria sorte, se isolaram e perderam a esperança de que sonhar juntos pode mudar os fatos ao nosso favor. O grito de “Unidos, venceremos” ficou apenas nas palavras!
Mais do que nos primórdios das civilizações, o egoísmo de hoje é mais visível, e o outro é como se fosse o seu inimigo. Vizinho não conhece mais vizinho. Faça um teste e pergunte os nomes de seus vizinhos. Que solidariedade é essa de que tanto se fala e se propaga por aí?
As comunidades rurais, os moradores de vilas e povoados ainda cultivam a cultura do companheirismo, da camaradagem, do mutirão, do adjutório e do querer mudar para melhorar, mas nas cidades predominam o isolamento humano e a falta de respeito para com o outro.
“Fazer o quê, né”, se o sistema é assim e temos que obedecer, sem questionar! Aliás, quem reclama e questiona demais é visto como um chato que vive a se lamentar da vida. “Olha lá, lá vai aquela mala que quer mudar as coisas e o mundo” – aponta com o dedo em riste o “fazer o quê, né”.
É, meus camaradas, os tempos mudaram, muito mais para pior, e não estou sendo pessimista. “Cala-te boca, nojento”! Mas, falar da vida alheia e fazer fofocas, nisso todo mundo é craque e especialista. Julgar os atos dos outros, tem de montão. Mesmo cheio de pecados, atira pedras. É a vida, meu amigo, “fazer o quê, né”! “Só sei que é assim”!











