(Chico Ribeiro Neto)

O contínuo se declara à secretária do chefe. A secretária do chefe se declara ao subchefe e o subchefe adorou a cunhada do contínuo que veio de miniblusa pra festinha de Natal da empresa.

Tendo sempre à frente uma comissão que briga pelo que faz – pois, por melhor que você faça sempre tem um espírito-de-porco pra botar defeito -, toda festinha de Natal, seja ela de empresa ou de repartição pública, se parece muito.

Aqui vão algumas das reações colhidas em festinhas de Natal, encorajadas por uísque, cerveja e pelo próprio espírito natalino que perdoa tudo:

“Não gostei daquilo que você me disse na festinha de Natal do ano passado”.

“Cadê aquela promoção que o senhor me prometeu e até hoje nada?”

“Sua cunhada é linda!”

Toda festinha de Natal é repleta de surpresas que vão além do sorteio de brindes. Um funcionário tímido assume o microfone com a mão esquerda, porque a mão direita segura um copo cheio de uísque, e ataca de “Besame Mucho”.

No fim da festa, uma funcionária que sempre sofreu pedindo carona vê, de repente, três marmanjões disputando à sua frente o direito de levá-la em casa. “Não tem problema (hic), pra onde você quiser ir eu lhe levo. Quanto mais eu bebo, melhor eu dirijo. Pode confiar, pode confiar”. A essa altura, já esconderam a chave do carro dele, diante do estado em que se encontra, e ele vai ter que ir para casa de carona, também, ou de táxi. Algumas vezes, o congraçamento se transforma em aborrecimento.

Festinha de Natal dá de tudo. Tem o que reclama do quibe e o que diz que a empada tá fofa demais. Tem o que reclama porque não tem uísque e o que reclama porque não tem mais cerveja às 10 da noite, numa festa que começou às 16 horas.

Tem o que leva pra casa meia bandeja de salgados e as flores que decoravam a mesa. E tem aquele que continua a dizer, depois de umas quatro: “Sua cunhada é realmente linda!”

Seja em empresa, fábrica ou repartição, festinha de Natal é isso: dizer coisas que ficaram entaladas o ano todo. Nem que essa coisa seja dizer “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/12/91)

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