O “VELHO” E O “NOVO” DE BRAÇOS DADOS
Com todo respeito às crendices, superstições e ao sincretismo religioso, vou de branco, de azul, vermelho, amarelo, roxo ou preto, comer lentilhas, frango, carne de porco, pato, peru, ema ou ganso, para receber o “novo”, de braços dados com o “velho”. Não importa a cor ou a comida, se religioso ou profano.
Quando chegamos às vésperas do último dia do ano, festejamos essa passagem com o nome pomposo de “Réveillon” (Êta que adoramos mesmo estrangeirar e copiar a cultura alheia, ou alienígena), dizendo que estamos enterrando o velho, tanto que nos abraçamos e nos beijamos desejando um “Feliz e Próspero Ano Novo”.
É um ritual ancestral que já fazemos de forma maquinal, sem ao menos refletirmos que o velho, mesmo com seu paletó surrado, segue com o novo, que já nasce velho, porque no âmbito geral das formas política e social estabelecidas e do sistema vigente em que já vivemos, nada muda, a não ser fatos e acontecimentos novos que já fazem parte do nosso cotidiano. “Nada se cria, tudo se copia”.
No outro dia do primeiro do ano, como nos outros dias comuns do “velho”, os noticiários trazem fatos “novos” que acontecem no andar da carruagem da vida e muitos outros que já são velhos conhecidos da sociedade. Portanto, os dois continuam entrelaçados entre si como fios de corda no sentido latu sensus.
Isso de enterrar o “velho”, dele passar o bastão para o “novo”, só existe no nosso imaginário psicológico e é uma expressão que já sai automaticamente do nosso subconsciente. Sabemos que sem o velho ancestral, com suas aprendizagens, com seus erros e acertos, não nos renovamos para construir o novo.
Por sua vez, nem pensamos que cada ano que “enterramos”, ficamos mais velhos junto com a nossa data de aniversário. Um está atado ao outro. O “velho” leva muita coisa para o “novo” e o “novo” não vive sem o “velho”. Sem o “velho” não fazemos nossos planos, nossas metas e nossos sonhos, muitas deles não cumpridos que se tornam caducos durante o “novo”, que nada tem de novo.
Bastam de tantos firulas e trocadilhos de filosofia barata. A realidade é que sempre, de uma maneira ou de outra, estamos sempre condenando o “velho” quando afirmamos que queremos um “novo” melhor. Isso é natural porque o ser humano nunca está satisfeito com o que tem ou com o que recebeu e teve lá atrás. É por assim dizer, um ingrato das graças. Claro que no meio existiram desgraças.
Todos os anos temos catástrofes e tragédias humanas e da natureza, com suas tormentas, temporais, raios, vendavais, ciclones e tornados (cada vez mais crescentes devido ao aquecimento global); desmandos dos políticos corruptos e tiranos; guerras de bombas voadoras destruidoras; campanhas de doações; gestos de maldades e generosidades; crimes hediondos e ações que ainda alimentam nossa esperança e fé.
Tudo isso está no cardápio que o “velho” passa para o “novo”. As mudanças nos ingredientes e temperos para que a comida fique menos ou mais saborosa só dependem de nós. Não adianta lamentar porque o tempo continua se arrastando tinhoso e nem se atreva pedir para parar. Ele é o dono dos nossos destinos.
Mas, “vamos em frente que atrás vem gente”, meu amigo e, como dizia nosso cancioneiro, o Bob Dylan do Nordeste, ainda vivo (outros acham que é o Zé Ramalho), Geraldo Vandré, vamos embora que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Felicitações ao “velho” e um forte abraço ao “novo”, uma incógnita, que não seja aquele tipo amigo da onça.











