DEPOIS DE MAIS DE 50 ANOS, PASSANDO POR ANTÔNIO SILVINO, SENHOR PEREIRA, JESUÍNO BRILHANTE E TANTOS OUTROS CHEFES VALENTES, O CANGAÇO ENTRA EM DERROCADA COM A MORTE DE LAMPIÃO, O “SENHOR DO SERTÃO”. CURISCO TENTA OCUPAR O POSTO DO CHEFE, MAS TAMBÉM É TOMBADO EM 1940.

Lá pelos meados dos anos trinta, com o cansaço nas brigadas e persigas nos sertões das caatingas, doenças nas vistas e nos rins, a morte do seu protetor “Padim Ciço”, o padre Cícero Romão, de Juazeiro do Norte, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos, Lampião não era mais o mesmo de sempre; andava macambúzio; era descuidado; vacilava nas decisões; e não tinha mais aquela disposição nos combates contra as forças das volantes.

Os próprios companheiros do cangaço sentiam e diziam isso, principalmente os “cumpades” mais chegados, como Curisco, Labareda, Saracura, Zé Sereno, Luiz Pedro e outros. Quis o destino que um seu conterrâneo, de Serra Talhada (Pernambuco), o tenente João Bezerra, servindo no Batalhão de Alagoas, com mais as volantes de Ferreira e Aniceto, lhe tirasse a vida, em 28 de julho de 1938, na gruta de Angico, ou Angicos, em Sergipe.

Em entrevista ao médico e antropólogo Estácio Lima, autor do livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, o já coronel João Bezerra disse que a morte de Lampião não foi um mero acaso, mas resultou da tenacidade comprovada de vários anos de lutas. O já coronel Ferreira de Melo (leptossomático) leva em conta a escolha de indivíduos preparados. “Levamos a vantagem da surpresa”.

Foram ao todo onze abatidos que tiveram suas cabeças decepadas, das quais somente as de Lampião e Maria Bonita foram para o Museu Estácio de Lima, em Salvador, na Bahia.

Ferreira diz que sua força foi a primeira que atirou, mas até hoje não se sabe ao certo de onde partiu a primeira bala que pôs fim a Lampião, se de Bezerra, Ferreira, sargento Aniceto ou outro “macaco” como assim denominavam os cangaceiros quando se referiam aos soldados.

O Batalhão de Polícia de Alagoas, sediado em Santana do Ipanema, era comandado pelo coronel José Lucena, um dos maiores inimigos de Lampião, possível matador do seu pai e irmão mais novo.

Antes de tudo acontecer, Bezerra havia deixado Piranhas para ir a Pedra se encontrar com Ferreira, para umas batidas nas caatingas de Moxotó.

Bezerra havia partido quando surge um portador, em Piranhas, com um telegrama do sargento Aniceto. O texto dizia “Bois no Curral” ou “garrotes no Pasto”, o que na tradução significava “Lampião aqui por perto, venha urgente”.

Os dois, Bezerra e Aniceto, acertaram se encontrar na estrada. Com Ferreira, a tropa viajou, em 27 de julho à noite, pelo Rio São Francisco em três canoas cheias de soldados, para não deixar rastros. O destino era Entre Montes.

Os soldados não sabiam da missão e deviam ficar calados, mas temiam os bancos de areia. Um deles chegou a dizer que “nóis quer morre brigano, afogado é ruim”. Nas margens do rio, mandaram buscar o coiteiro que negou sua ligação com os bandidos. “Ponta de faca, porém não brinca”.

O coiteiro Domingos, vaqueiro e barqueiro, que cortava dos dois lados nas informações, tipo X9 dos militares, terminou abrindo o bico. O comando, então, foi pegar o segundo coiteiro parente do outro, o Pedro da Cândida. ”Ou diz tudo, ou morre”. Passava da meia noite quando os canoeiros partiram. Os coiteiros conheciam toda área e sabiam conduzir as volantes naquelas densas trevas.

Tinham que subir o morro rastejando, para não deixar pistas e suspeitas. Não foi encontrado nenhum vigia do grupo, que esqueceu as “boscadas”. No clarear do dia, o aspirante Ferreira se deparou a poucos metros dos cangaceiros. Zé Serenos e outros foram logo reconhecidos.

A volante de Ferreira estava em boa situação, só esperando o sinal do comandante Bezerra. Alguns bandoleiros pressentiram o cheiro dos “macacos” e deram o alarme. Ferreira não pode mais esperar e abriu fogo cerrado. A confusão se estabeleceu e alguns cabras caíram logo.

Os primeiros que reagiram foram Zé Sereno e Luiz Pedro, mas já era tarde demais. Um grito anunciou que o “Governador do sertão” se achava baleado. Dizem que partiu de Maria Bonita. Luiz Pedro acorreu para perto do chefe, tentando acudi-lo.

Maria Bonita teria falado: Você não disse que desejava morrer na mesma hora de Lampião? Pois agora espie, aqui, o homem como está”… O capitão agonizava, sem gemidos. Luiz Pedro tomou-lhe o mosquetão e o chapéu bordado de estrelas. A companheira tentou fugir, mas também foi tombada.

Mesmo ferido, Bezerra não deixava a metralhadora silenciar, bem como Aniceto com seus homens. Tudo foi bem planejado. No combate, Luiz Pedro foi atingido nas costas, ou no peito.

Seu afilhado Vila Nova tentou ajudá-lo, mas ele pediu que o matasse antes das volantes. Zé Sereno conseguiu escapar com sua companheira Cila que depois foi para São Paulo parar nos braços de outro.  O cangaço praticamente acabou ali, mas Curisco tentou resistir, ocupar o lugar do chefe e se vingar dos traidores.