ESCOLHA O SEU PECADO
(Chico Ribeiro Neto)
Um funcionário público amigo, “ligeiramente gordo”, foi ao médico e constatou estar com pressão alta. O médico lhe recomendou deixar de fumar logo, e ele, sabiamente, saiu com esta:
“Doutor, eu não bebo, não jogo e não raparigo. Deixa eu ter só um pecadinho na vida, senão viro santo e a Igreja já está cheia deles”.
Ele, felizmente, continua gordo, vivo e fumando. Um pecado deixa-o vivo, porque não quer acabar santo. Algum diabinho no meio da vida para animar.
Desde pequeno que sempre achei os capetinhas mais interessantes. Nas histórias que lia, em quadrinhos, o capetinha dava saltos, espetava todo mundo, colocava pimenta no café dos outros, aprontava mesmo.
O anjinho sempre tem uma cara sem graça, principalmente aqueles de procissão, representados por crianças: as mãos eternamente postas e duas asas de papelão que sempre despencavam de um lado.
Lembro como foi terrível enfrentar a ameaça de que a gente podia pecar por pensamentos, palavras e obras. Na minha Primeira Comunhão foi aquele negócio de todo mundo se confessar num dia e comungar no outro. Não deu outra: de noite, na hora de dormir, era só fechar o olho que aparecia um muro branco com um enorme palavrão (PORRA) escrito de fora a fora. Felizmente, minha mãe Cleonice me disse que não seria preciso se confessar de novo, pois se tratava de um pecado leve, um venialzinho.
A propósito dos pecados veniais, vale lembrar Rachel de Queiroz em “100 Crônicas Escolhidas: “Continua pecando os seus pecadinhos veniais, já que para os pecados mortais já não tem ocasião nem energia”.
Um pecadinho aqui, outro lá, uma birra aqui, uma zanga lá; desejar que o sujeito que lhe deu uma fechada se enfie num poste logo ali adiante; que o comerciário que lhe tratou tão mal não venda mais nada até o Natal; que o taxista que lhe roubou na Rodoviária fure três pneus de uma vez; que o motorista que não parou no ponto receba uma suspensão ou até demissão; que o mecânico enrolão ganhe uma prisão.
Só assim dá pra enfrentar esse mundo: com vários pecadinhos, na exata medida da vida, essa costura de bem e mal que tem hora que a gente não sabe quem é qual.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 11/12/1991)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)











