:: 2/abr/2026 . 22:19
GUARDA COMPARTILHADA DE ANIMAIS
– Gostaria de falar com o sr. Doutor Wilson da Cunha Amaral. Assim se apresenta o senhor aflito para conversar com seu advogado sobre sua situação calamitosa de pedido de aposentadoria no INSS, que nunca sai, ou indenização de perdas morais e financeiras por negligência do Estado.
– Sinto muito, mas ele está numa audiência com o juiz no Fórum, na Vara dos Animais Domésticos, tratando de uma demanda sobre a guarda compartilhada entre um casal, pais do cachorro Tadeu, e vai demorar– responde a secretária.
Por sua vez, o advogado Wilson da Cunha procura o juiz Custódio da Silveira para resolver um processo de soltura de um inocente que há anos foi preso injustamente por erro da Justiça. A atendente responde contando a mesma história.
– Quando eu posso visitar meus “filhos”? Eles são alívio da minha alma, conforto dos meus problemas e até curam minhas doenças, enxaquecas de cabeça e gastrite de estômago – defendem os ex-casados, com unhas, garras e dentes. Haja xingamentos!
A briga é acirrada e os ânimos estão exaltados. Os advogados precisam conter seus clientes para não irem aos tapas. O juiz é severo e grita não admitir desordem ou bagunça em sua sala. “Roupa suja se lava em casa”. Acontece que não vivem mais juntos. O juiz suspende a audiência por alguns minutos e ameaça até prendê-los.
Lá em seu gabinete, o magistrado sério e justo reflete que tem um monte de milhares de processos humanos em sua mesa para despachar, e só aumentam em cada dia que passa.
– Estudei tanto, fiz concurso e agora aqui estou eu a julgar guarda compartilhada de animais, numa briga de dois idiotas alienados e desequilibrados que nem ligam para os filhos biológicos!
O juiz retorna irado, de cabeça quente e determina que a guarda vai ficar com a “mãe”, por ser mulher. O “pai” fica revoltado, nervoso, bate na mesa e afirma que isso não vai ficar assim. “Vou recorrer até ao Supremo Tribunal Federal”. É coisa de milhões!
E quando o juiz decide que ambos têm o direito de visitar seus “filhos” em finais de semana, de forma alternada? Sempre vai ter um que vai se sentir injustiçado (a) com a sentença.
– Vim buscar o meu “filho (a)” para ficar esta semana comigo em casa e passear por aí – bate o “pai” na porta da ex que o recebe com a cara enfezada e psicologicamente mal-humorada.
A “mãe” faz uma série de recomendações, com embalagens de alimentos e vestuários nas mãos, tudo de acordo com a temperatura do tempo. Tem aquela que por pirraça diz que o “filhote” ou a “filhota” está na casa da avó, gripado (a), ou está na rua.
Todo esse cenário “modernista contemporâneo-tecnológico”, meu camarada, só ocorre entre ricos e poderosos. O pobre não tem dinheiro para pagar honorários com advogado e cada um leva o animal na hora que bem entender.
Se o pobre quiser a guarda tem que apelar para a defensoria pública. Na maioria das vezes, o cão, ou o gato, vive mesmo é nas ruas. O marido nem está aí e prefere ir para um boteco encher a cara de cachaça.
Nada contra cães, gatos, papagaios, micos, bodes, cobras, lagartos, coelhos, hamsters, chinchilas, calopsitas, porquinhos-da índia, peixes, patos, pequenos mamíferos e outros animais domésticos e silvestres, mas que a humanidade está invertida, isto sim, está!
Naquele tempo, meu pai já dizia que é fim de mundo. Imagina agora com a inversão de valores onde o ser humano é o que menos importa e interessa, principalmente quando se trata da saúde e da educação. Cachorros e felinos passaram a ser filhos de papai e mamãe. São mais estimados e recebem mais atenção que as crianças, muitas geradas e jogadas nas ruas.
O Senado, com suas bancadas corporativas, acaba de aprovar um projeto-de-lei que institui a guarda compartilhada para animais quando casais decidem se separar. Vai ser um fuzuê danado. Processos vão parar no Superior Tribunal Federal que já tem milhares de casos amontoados dos humanos.
Com tantos problemas neste país no âmbito da corrupção, do narcotráfico, da segurança, da bandidagem de políticos, da saúde, da pobreza extrema, da violência, das injustiças sociais e o Congresso Nacional está mais preocupado com a guarda compartilhada de animais!
Enquanto isso, tem gente que briga para não ficar com os filhos. Pai cai no mundo e larga tudo com a mãe, que se vira nos trinta. Outros jogam nos orfanatos. Confesso que fico irado quando vejo essas dondocas chamarem o cão de meu “filhinho”. “Vem para a mamãe, vem”!
Aqui em Vitória da Conquista, um vereador apresentou uma proposta, e foi aprovada, que os animais domésticos sejam enterrados nos cemitérios ao lado de seus donos, com túmulos e tudo. Não seria mais sensato construir um cemitério próprio?
Dia de finados, com flores na mão, está lá o dono ou a dona chorando pelo “filho” ou a “filha”. “É muito duro e sofrido perder um “filho” logo cedo. O natural é que os pais partam primeiro”. E como ficam o avô e a vó? Vão se sentir de corações partidos e estraçalhados. “Perdi meu netinho e minha netinha. É uma dor muito grande”.
BARZINHO NOVO SÓ LHE TRATA BEM
(Chico Ribeiro Neto)
Atendimento em barzinho novo é igual à presteza de um funcionário novo numa loja: rapidez no atendimento, um desfazer-se em mesuras para segurar o cliente e fazê-lo voltar. Afinal, o negócio está começando e o dono está todo endividado.
Mal você entra e já tem um garçom junto, colado. A mesa está limpíssima, mas ele passa a flanela de novo, gesto que repete nas cadeiras. O dono está de lá, no balcão, e fica logo com uma postura mais ereta. Vê-se logo que ele está pronto para se desdobrar em cuidados.
Sai a primeira cerveja e noto que o dono fala baixinho com o garçom, entregando-lhe o cardápio. Na certa, deve ter dito: “Vá ver se o pessoal ali vai comer alguma coisa, mas sugira também, diga que o caldo de sururu está ótimo e que as lambretas estão enormes, que tem caldo de feijão e que, mais tarde, vai sair muqueca de arraia, comida caseira mesmo, e que o prato é só 40 reais. Se ele esperar, não vai se arrepender, e vá tirando logo aquele vendedor de amendoim de lá, senão o pessoal não come nada”.
A primeira cerveja ainda está pelo meio e o garçom já vem perguntar se a gente quer trocar os copos. O dono está de lá. Vejo logo que ele está fazendo contas. Deve ser a primeira prestação do freezer, a primeira conta de luz que já dá um susto, a cartinha do ECAD que fala em pagamento de direitos autorais, a nota do fornecedor da carne-de-sol, separar 500 reais para o cigarro, que vai chegar amanhã, e mandar consertar o liquidificador, que é novinho e já pifou.
O doido está doido pra se aproximar. Está um pouco mais tranquilo agora, porque há seis mesas ocupadas, e ainda é cedo pra dia de sexta-feira. Arruma algumas cadeiras, dá ordens a outro garçom, afugenta o menino vendedor de ovos de codorna e vai pra porta fumar um cigarro.
Sai a carne-de-sol que pedimos de tira-gosto. A bandeja está tinindo de nova, o paninho de prato vem alvíssimo e o molho, ao lado, está coberto de tempero verde, um festival de coentro e cebolinha.
“Qualquer coisa é só pedir”, diz o sorridente garçom, cujos sapatos pretos foram engraxados hoje mesmo.
A carne-de-sol está gostosa, a farofa foi feita com manteiga mesmo. Daqui a uns dias vão mudar pra margarina, pois a freguesia já estará conquistada.
“O senhor me chamou?”, pergunta o garçom.
“Não, estava só coçando a cabeça”.
Acabamos de pagar a conta. O dono vem anunciar que dispensou os quebrados, e saímos do barzinho recém-inaugurado com os bolsos cheios de folhetos, que têm até um mapinha dizendo como chegar lá.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/5/1993)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
HOMENAGEM AO TRABALHADOR
A Chapada diamantina não é somente famosa pelas suas belezas naturais e paisagens encantadoras que atraem turistas do mundo inteiro, não somente do Brasil. Além da mineração de pedras preciosas, como o ouro e o diamante, cujo ciclo terminou lá pelo meado do século XX, dando lugar ao turismo, a região é também rica pelo seu potencial agrícola, destacando os hortifrutigranjeiros (Ibicoara e Mucugê), o café e agora a vinicultura. Estas duas últimas culturas estão espalhadas em vários municípios, como Barra da Estiva, Piatã (1.280 metros de altitude), Morro do Chapéu e Bonito onde a Prefeitura Municipal ergueu um merecido monumento em homenagem ao trabalhador, peneirando à moda antiga, os grãos do café para separar dos bagaços. Nossas lentes flagraram as estátuas do homem e da mulher nessa labuta que, infelizmente, foram substituídos pela máquina, mas não deixa de ser um resgate da memória desse nobre produto que não falta na mesa dos brasileiros e dos estrangeiros. Barra do Choça, aqui em nosso Planalto da Conquista, também é um dos maiores produtores de café do Nordeste que, em épocas passadas, empregou milhares de trabalhadores vindos de várias partes da Bahia e até de outros estados. Bonito fica próximo de Morro do Chapéu que, além do café, introduziu a cultura da uva (passamos por várias fazendas) e já está produzindo vinhos de qualidade.
TIRANA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quem é essa tirana,
Que tanto nos engana,
Reina entre os deuses,
Toda eterna soberana?
A gente sabe que ela existe,
Dona do seu próprio tempo,
Sopra, geme como o vento;
Evitamos dela lembrar;
Nasce no elo da vida,
Cheia de encantos para amar,
E vem a danada tirana,
Como cruel espartana,
Com sua espada nos levar.
Oh tirana, tirana, tirana!
Quantos disfarces tu terás?
Às vezes és tão repentina,
Noutras nos fazes sofrer devagar;
Tens o poder de nos consolar,
Até acalmas nossas almas,
Quando vês o ente querido penar,
Mas nosso coração acelera,
Na dor doída de rasgar,
Quando fechas tua esfera.
Oh tirana, tirana, tirana!
Tu és fogo, terra, água e ar,
Catingueira e mateira,
Flecha que nos faz sangrar;
Teu nome é tirana,
Fera sorrateira da savana.
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