:: 26/jan/2026 . 22:13
NO BAÚ DAS MEMÓRIAS
Fotos de arquivos de José Silva 
Quando vejo antigas fotografias do nosso secular Patrimônio Histórico Arquitetônico, bate no peito uma saudade danada e, ao mesmo tempo, uma sensação de revolta. As imagens que vão se descortinando em nossas retinas são cenários deslumbrantes de cerca de 200 anos atrás quando Vitória da Conquista ainda era Vila Imperial da Victória e depois Cidade da Conquista.
Na época que o príncipe alemão Maximiliano Alexander Philipp por aqui passou, por volta de 1817, se deparou com uma vila, então Arraial Imperial da Conquista, no estilo de um presépio de cerca de 40 casas. Descreveu a vida da sua gente simples e a Serra do Periperi como uma floresta coberta por espessas matas, lembrando o frescor dos prados das zonas temperadas de uma vasta e bela paisagem da sua terra natal.
As antigas fotos pelas suas plasticidades, são como poesias homéricas do tempo, marcas de um passado glorioso, onde cada uma delas nos conta uma história, não apenas sobre a matéria em si, mas, especialmente, no âmbito espiritual. Elas já têm vida sem textos literários porque falam por si através de fortes palavras de sentimento e fazem voar nossa imaginação.
A revolta nasce justamente da estupidez do homem, principalmente do brasileiro, que traz em seu instinto a perversa cultura da destruição de seus monumentos e antigas construções de linhas coloniais e outros estilos das artes arquitetônicas esculturais. São belos casarões e ruas inteiras de Conquista que foram derrubados pela ganância imobiliária para dar lugar a uma nova armação de concreto pesado que não gera mais rima e estrofe aos poetas, nem melodias aos cancioneiros.
O portal de entrada que guiava e ainda guia a outros pontos da cidade era a conhecida Rua Grande, naquela época, hoje praticamente todo miolo do centro de Conquista, compreendendo o antigo Jardim das Borboletas, hoje Praça Tancredo Neves, e a Praça Barão do Rio Branco até o Caixeiro Viajante (Praça do Índio), com seus suntuosos casarões históricos que foram demolidos para dar lugar a bancos, hotéis e lojas comerciais.
Na Rua grande nos encantamos com as belas fotos em preto e branco da feira da cidade onde se reuniam produtores rurais e comerciantes para realizar seus negócios. O local também era utilizado para comemorações do Sete de Setembro, festejos juninos, eventos diversos e até para comícios eleitorais dos coronéis.
Poucas edificações sobreviveram à ganância imobiliária. Esse ímpeto de demolição ainda continua nos dias atuais, como no final do século XIX e durante todo o século XX. Essa insensatez custou muito caro para os conquistenses que não contam com um Centro Histórico para apresentar aos seus visitantes, como existe nas grandes cidades. Pelo menos esta lacuna se encontra em escassas fotos em mãos de pouca gente que teve a sensibilidade de preservar este acervo, um verdadeiro tesouro cultural, como a primeira Igreja de Nossa Senhora das Vitórias.
No roteiro dessas antigas fotos, destacamos preciosidades de riquezas passadas. Nossos olhos brilham com a velha Praça Nove de Novembro de portas coloniais e nos faz entrar no túnel do tempo onde se realizava antigos carnavais, e nos bares de sinucas se confabulavam coronéis com seus jagunços no início do século XX. Um pouco mais adiante, a Rua do Triunfo, ou Rua dos Cachorros (poucos conhecem) porque ali existia um açougue e os cães se juntavam para se alimentar de vísceras dos animas.
Bem que ali hoje poderia se ter uma intensa vida noturna cultural de botecos gastronômicos com encontros de artistas, intelectuais, shows musicais, declamação de poemas e apresentação de outras artes. O mesmo se poderia dizer do Terminal Lauro de Freitas (o Pela Porco), implantado em 1984 por Pedral Sampaio.
Nossa caminhada segue pelas fotos na Alameda Ramiro Santos (Beco Chico Piloto em referência à casa comercial Major Francisco Piloto da Silva), célula do surgimento da cidade próxima à Rua Maximiliano Fernandes (antiga Rua Grande), passando pelo casarão de dona Zeza (ainda em pé) ao lado do moderno prédio do Banco do Nordeste. Mais na frente a casa do Grêmio Castro Alves onde funcionou até pouco tempo a Rádio Clube, infelizmente descaracterizado. Na maior parte foram instalados modernos escritórios empresariais.
Oh quanta saudade do imponente Lindoia onde existiam lojas de serviços diversos e era ponto de ônibus, ou marinetes, em direção a outras cidades! Ao lado, o palacete do coronel Paulino (hoje Banco do Brasil) e um pouco mais embaixo outro casarão que abrigava os tropeiros que se transformou na primeira Igreja Batista. Praticamente toda aquela área foi tombada ao chão e desfigurada em nome do progresso. Ah, temos ainda fotografias da Alameda Lima Guerra (Beco da Tesoura por conta das alfaiatarias)!
A nossa viagem prossegue pela Rua Dois de Julho (Rua da Várzea porque sempre alagava nas enchentes) onde está localizada a casa do cineasta conquistense Glauber Rocha, ainda em sua originalidade, mas fechada e carente de manutenção. Pode se acabar. Cortando mais alguns quarteirões, temos a famosa Rua João Pessoa, ou Rua das Boiadas, como era chamada, por onde transitavam os boiadeiros e vaqueiros conduzindo o gado para outras paragens. Não podemos deixar de lado o Colégio Macaúbas que deu lugar ao Fórum.
São fotos documentais, testemunhos da nossa história, como o “Megasapo”, ou Dom Pedro, lugar de divertimento, prazer e boemia naquela época onde residiam as prostitutas, por sinal muito movimentado. Assim era conhecida porque na trilha que levava até o local, um tipo brejo, cruzavam muitos sapos e na escuridão os boêmios chegavam a pisar neles.
Existem muitas outras fotos de ruas e casarões, mas poucos deles ainda resistem à depredação humana, embora ameaçados, como a Casa Regis Pacheco, do ex-prefeito e governador da Bahia, o antigo palacete que sediou a Câmara de Vereadores, construído em 1910/12 pelo mestre Luiz Pedreiro, onde foi residência do coronel Manoel Fernandes dos Santos, ou Maneca Santos, antes de abrigar o Hotel Central e o Fórum (possui quatro estátuas no telhado representando os deuses Apolo, Mercúrio, Diana e Júpiter), o prédio da Prefeitura Municipal (sede do governo desde 1962), na Praça Joaquim Correia, inaugurado em 1921 que serviu de quartel da polícia militar, dentre outras raridades.
Não podemos deixar de citar os antigos cinemas de Conquista, entre os anos 70 e 80, com bons filmes, todos bem frequentados pelos amantes da Sétima Arte, inclusive pelo menino Glauber Rocha. A geração mais velha se lembra muito bem do Rivera, Cine Glória, Eldorado, Cine Trianon (1977), o Ritz, todos eles registrados em velhas fotografias. Muitos desses cines pertenciam ao empresário Nivaldo Araújo. Por fim o Cine Madrigal, o último a ser fechado e que assim permanece há muitos anos, sendo corroído pelo tempo.
Enfim, são papeis, tintas, textos escritos e fotografias. São expressões contra o esquecimento e a favor da memória, como prova de que o passado nunca morre. É algo vivo e pulsante que ainda vive em nossas emoções.
Cada fotografia, cuidadosamente trabalhada com esmero, representa um processo de resgate, não apenas técnico, mas, sobretudo, espiritual. Revelar uma imagem antiga é pedir licença ao tempo para aquilo que se foi. As imagens atravessam quase dois séculos de história, fragmentos de um passado que se foi.
Antes da fotografia existia a pintura, o retrato pintado como símbolo de poder. A fotografia mudou o mundo e nos oferece uma sensação de pertencimento, como é o caso das fotos que trazem Vitória da Conquista de volta, num ritual mágico que faz renovar a nossa sensibilidade. As imagens são como convites para que você olhe o passado com coração e com alma. São obras que celebram a persistência da vida e a beleza daquilo que permanece eterno.
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