Sou jornalista, escritor, poeta, letrista, fotógrafo; ganhei prêmios de reportagens; fiz matérias perigosas e fui ameaçado de morte; desbravei o sertão; passei fome nas secas; comi o pão que o diabo amassou na capital; e, por isso, também quero um Prêmio Nobel, não importa que seja de Literatura, da Paz ou qualquer outra coisa. Pode ser como velho rabugento chato que está sempre reclamando e contestando.

Outro motivo justo é que sou brasileiro e nordestino sofredor de todas as mazelas, num país que nunca recebeu um Prêmio Nobel e onde estão os maiores índices de desigualdade social. Seria uma forma de reparação pelos séculos de exploração colonial e escravidão. Acho que sou o mais indicado para receber a comenda e prometo não transferir a homenagem para ninguém.

Vou escrever, ou mandar uma mensagem virtual para a diretoria da Fundação Alfred Nobel exigindo o meu prêmio pelos meus feitos porque também sou filho de Deus e acho que mereço. Não deram para María Corina Machado, Boby Dylan e tantos outros por ai! Ora, vejo tanta gente ganhando prêmios e sendo homenageado. Vou fazer 80 anos e nada! Isso é muito injusto. Estou puto da vida! Irado eu viro bicho! Nem adianta me chamar de caquético senil!

Estou pensando em dar uma de menino birrento e briguento. Quero meu Prêmio Nobel! Em vida já apartei diversas brigas entre colegas e amigos; conciliei e fiz apertarem as mãos. Numa dessas, levei até socos e porradas. Dei muitos conselhos e até esmolas nas ruas. Discuti ideologias controversas com muita gente e consegui inimizades. Sou até membro fundador de um sarau que está completando 16 anos e atualmente moro na rota do lixo.

Ah, ia esquecendo de dizer que comi no “bandejão” da Residência Universitária da UFBA por quatro anos durante a ditadura civil-militar. Não podia parar num poste que logo vinha um militar de lá com um fuzil me indagar no que estava pensando. Conheci todos os cabarés de Salvador e amanhecia o dia ouvindo músicas bregas. Finais de semana me enterrava nas boemias das cachaças. Tenho bagagem suficiente no curriculum vitae! Até estudei latim e grego nos antigos ginásio e clássico.

Quando menino fui tropeiro, agueiro, carregador de malas e bagagens dos passageiros do trem que cortava pela cidade de Piritiba, o chamado “Trem Groteiro”. Depois fui sacristão, em Mundo Novo, do vigário Nicanor. Por oito anos fui seminarista para ser padre. Sabe o que é assistir missa de batina todos os dias! Não é fácil, meu camarada capitalista!

Portanto, também quero ser laureado, com muita pompa, bajulação e puxação de saco durante a solenidade do Prêmio Nobel. Quem não for vou cobrar uma taxa alta. Quem não pagar, mando matar. Se não me derem, vou tomar a Groelândia, que fica muito longe, no fim do mundo, e é toda de gelo. Vou guerrear, e nada de paz.

Além do mais, estou com a ideia de formar um bando de cangaceiros nordestinos cabras da peste, daqueles valentões com sangue no olho, e invadir as cidades de Anagé, Aracatu, Belo Campo, Itambé, Caraíbas, Caatiba, Maetinga, Tremedal, Planalto e outros municípios. No cassete, ou na bala mesmo, vou anexá-los à Vitória da Conquista, já que se recusam a vender seus territórios. Botei preço, e até agora nada! Pago à vista, pelo pix, na hora.

Quem não me apoiar, vai ter que pagar pedágio caro para entrar aqui. Vou decretar um tarifaço. Ilhéus e Itabuna que se cuidem. Aquelas belezuras de praias vão ser só nossa. Em meus planos está a abertura de um grande canal do mar até Vitória da Conquista. Aqui vai ser um tremendo balneário, melhor do que Cancun, no Caribe.

Providenciem logo o meu Prêmio Nobel, senão o bicho vai pegar! Quero ainda ser premiado com o Oscar de melhor bonachão, falastrão e guerreiro dos guerreiros. Caso contrário, vou pipocar e deportar todos forasteiros e imigrantes de Conquista que ficam aqui falando mal da nossa cidade e criticando nossa cultura.