:: 19/jan/2026 . 21:59
SONHOS DE TESOUROS ENTERRADOS
Antigamente os mais velhos contavam histórias e estórias de pessoas do sertão nordestino e de outros cantos que em vida enterravam moedas e até tesouros em botijas (joias, ouro, objetos valiosos) sempre em torno de uma grande árvore (umbuzeiro, juazeiro, gameleira, faveleira, angico, aroeira, barriguda), próximo a cacimbas, açudes ou em algum ponto estratégico das fazendas.
Naquela época do dinheiro no colchão (muito manjado), ainda nos tempos do Brasil colônia e do império, não existiam bancos e o recurso era guardar suas economias dentro das casas (na comieira) ou enterrar debaixo do chão. Quem mais utilizava dessa prática eram os avarentos e os chamados “mão de vaca” usurários.
Estava imaginando que na era do cangaço, principalmente nas duas primeiras décadas do século XX, muitos coronéis e usineiros devem ter enterrado seus tesouros em algum lugar para não cair nas mãos dos bandoleiros. Não vou revelar quem, mas cochicharam em meu ouvido que existe um tesouro enterrado aqui na Serra do Periperi, inclusive com o provável local.
O Nordeste deve ser um “tesouro”. É só sonhar, seguir o mapa e fechar o corpo para se proteger das almas penadas. Meu amigo Beto Veronezzi sabe de todos os truques. Sua consulta é cara, mas vale a pena.
Lembro que meus pais contavam esses causos em rodas de conversas com seus compadres, na luz do fifó do candeeiro, tomando bules de café, mas a parte que nos dava mais medo como crianças, era a dos sonhos que outros (parentes da família, amigos e os felizardos mediúnicos) tinham sobre os lugares onde esses tesouros estavam enterrados.
A noite avançava enquanto o medo aumentava nos suspenses quando vinha o lado das assombrações e a coragem de quem se atrevia arrancar o tesouro. A gente era muito pobre e eu ia dormir pensando naquelas prosas do outro mundo e com receio de sonhar com alguma alma de tesouro. Quando via uma árvore grande no terreno, imaginava logo que ali poderia ter um tesouro enterrado, sobretudo quando era oca.
Contam as lendas que o sonhador para conseguir desenterrar o tesouro tinha que fazer pactos, rituais, mandingas de corpo fechado, rezas fortes com as almas penadas ou espíritos que vinham do além, para ter a permissão de ficar com a riqueza. As assombrações me davam arrepios, mas não deixava de escutar tudo calado.
Em vidas, as pessoas nunca revelavam onde esconderam suas riquezas. As histórias são baseadas em crenças populares que unem cobiça, fé e misticismo. Não era fácil desenterrar o tesouro perdido, e o interessado ou interessada tinha que ter muita coragem para enfrentar as assombrações da meia noite.
Na dura peleja de ficar rico com o tesouro, existiam vários pactos e rituais, como a Oração das Almas Penadas que consistia em rezar um determinado número de ave-marias, especialmente nas sextas-feiras ou de madrugada, pedindo a exata localização.
Outros faziam promessas em troca da revelação, como realizar missas em nome da alma. O vigário já ficava desconfiado quando alguém pedia uma missa para alguém distante. Em troca ela indicaria o lugar em sonhos ou através de sinais.
Meu pai narrava que durante a escavação, geralmente a alma aparecia de forma assustadora para testar a coragem do buscador. Não poderia ter medo e manter silêncio absoluto até a retirada da última moeda ou objeto. A alma fazia o vento soprar forte, jogava pedras, paus e a vegetação balançava toda em torno do tesouro.
No imaginário popular existia o ouro encantado pela mãe do ouro ou pelos espíritos. O pacto era necessário para desencantar. Muitas dessas lendas vêm dos tempos dos escravos ou das guerras onde riquezas eram enterradas para proteção contra ladrões.
De acordo com a tradição, se o pacto for quebrado, se falar para alguém, ou sentir medo, a alma desapareceria com o tesouro, ou afundaria ainda mais na terra. Os relatos misturavam orações cristãs com crenças de assombrações.
No folclore brasileiro, tinha ainda o pacto do corpo fechado, associado ao Livro de São Cipriano. Havia o pacto com o diabo/demo para encontrar a riqueza perdida. Para o indivíduo ficar invulnerável a perigos físicos ou espirituais, era obrigado a fechar o corpo no pacto de sangue com a alma enquanto realizava o trabalho de desenterrar a botija.
Se for premiado, a pessoa entrega a alma após a morte. Se descumprir com os pactos ou rituais, fica com o corpo seco, ou é amaldiçoado para sempre. Nesses tempos difíceis, onde o dinheiro está escasso, muita gente se arriscaria a desenterrar esses tesouros e entregar a alma ao satanás. Aliás, essa prática já é feita quando se vende a alma ao capitalismo, quando corrompe e se deixa corromper.
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