:: 16/jan/2026 . 23:34
AINDA SOBRE QUIOSQUES FECHADOS NO CRISTO DA SERRA DO PERIPERI
Quanto a questão dos quiosques fechados no Cristo da Serra do Periperi, por mim abordada nesta semana, em áudio o professor Durval Menezes disse ser muito simples e objetiva a resposta. De acordo com ele, tudo está na falta de segurança para que haja abertura de qualquer comércio no local, no que concordo plenamente com o mestre memorialista.
Há mais de 40 anos que o monumento do artista plástico Mário Cravo foi cravado no alto da Serra, pouca coisa mudou de lá para cá, e o conquistense ainda tem medo de visitar o Cristo e ser assaltado. Se quer uma prova do que digo é só perguntar a qualquer um.
Como comentei, cada prefeito colocou um tijolo e hoje temos um mirante, mas o cenário permanece de abandono e isolamento. Sempre que levo alguém com a máquina fotográfica e outros objetos, logo na subida ouço uma advertência: Vamos ter muito cuidado e não demorar muito!
Durval afirmou que ninguém se arrisca explorar o comércio de comes e bebes no alto do Cristo porque toda mercadoria será saqueada e o proprietário ainda corre o risco de ser morto. “Apesar do alto da Serra estar sob a proteção do Cristo, talvez seja a área mais perigosa de Vitória da Conquista”.
Há muitos anos, conforme Menezes, que o banditismo ocupa aquela área, fazendo do Poço Escuro seu quartel general. “Por muito tempo o banditismo decretou quem deveria entrar ou sair do Alto do Cruzeiro. Os Correios deixaram de entregar encomendas, bem como as empresas de gás”.
Em sua opinião, o alto da Serra poderia ser o maior ponto turístico de Conquista, um cartão postal para as pessoas tirarem fotografias e apreciarem a cidade lá do alto. “Os quiosques seriam mais uma atração, desde que houvesse uma fiscalização segura para não se tornarem pontos de vendas de drogas”.
Eu vou mais além, meu amigo professor, e defendo que toda aquela área em torno do Cristo seja ampliada e urbanizada, com iluminação, maior espaço para estacionamento de veículos, um posto policial permanente, bem como implantação de um restaurante que pudesse funcionar até durante à noite. Todos ganhariam com isso e, sem dúvidas, o Cristo seria a maior atração turística.
Estive visitando o local no último final de semana e observei o vazio de pessoas, sem considerar a expressão de receio em seus rostos apressados para deixar a área. Quem chega ali é logo recepcionado pelo latido ensurdecedor da cachorrada que ocupa a frente dos quiosques. O visitante pode até ser atacado por um cão de rua.
EVENTOS DA POLÍCIA
Em épocas de verão, a corporação da polícia militar, como está previsto para este final de semana (sábado e domingo) realiza eventos de shows musicais e outras atividades culturais, oferecendo todo suporte de segurança, embora o espaço para estacionamento é exíguo. Da última vez que fui, tive que parar o carro perto do Anel Viário, dentro dos matos e pagar uma taxa ao “guardador”.
A iniciativa é louvável, mas tudo não passa de uma enganação porque depois, durante o resto do ano, a situação de abandono continua a mesma, sendo um ponto perigoso para visitas. Quem se atreve ir ali à noite, no máximo acompanhado num pôr-do-sol?
Como não existe muita opção nesta “Suíça Baiana” (ridícula a denominação) todos vão subir contentes a pés, de bicicleta, de moto, correndo, de carro próprio e festejar as atrações, mas ninguém tem a sã consciência de reivindicar e cobrar melhorias para a área. Tudo continua como dantes na casa de Abrantes.
Comandante Paulo, o que queremos é um posto policial permanente e que o poder executivo, em parceria com o setor privado, invista na urbanização do espaço, de modo a oferecer condições para que haja eventos todos os finais de semana e não somente em edições esporádicas.
Sei que um empreendimento dessa natureza não é da alçada da polícia militar, mas da Prefeitura Municipal que nunca teve esta visão de transformar o alto do Cristo do escultor Mário Cravo no maior ponto de visitação dos moradores e de pessoas que chegam de fora.
Com um projeto desse porte, ganhariam os artistas da cidade com suas apresentações culturais, os comerciantes, o próprio executivo com a arrecadação de impostos e todos os conquistenses em geral, inclusive aproveitando o nosso período invernoso, que não é uma “Suíça Baiana”, mas é friento.
NAZARENOS CONTRA OS CANGACEIROS
“A FORÇA DE NAZARÉ/É VALENTE E TEM AÇÃO/ANOITECE E AMANHECE/ NO RSTRO DE LAMPIÃO”
Em pleno sertão pernambucano, na região do Pajeú, com uma população pacata e simples, várias vilas e povoados começaram a prosperar no comércio e na agricultura nos primeiros anos de 1900 do século passado, principalmente lá pelos meados da segunda década, mas começaram a ser fustigados pelos cangaceiros. No vale as terras eram mais férteis.
Além do São Francisco, a vila de Nazaré, nas proximidades da Vila Bela (Serra Talhada) e Floresta, foi um dos destaques dessa prosperidade e também de resistência e bravura contra o banditismo, exemplo de que a união faz a força. Através da família Ferraz Flor, os sertanejos se armaram para defender a vila.
Como em Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde Lampião e seu bando foram impedidos, em 1926, de tomar a cidade, o rei do cangaço também encontrou barreiras para dominar a vila que sempre foi visada pelos irmãos Ferreiras (Virgulino, Ezequiel, Livino e Antônio).
Quem conta esta história épica dos sertões dos tempos do cangaceirismo dos anos 20, com auge em 1926/27, como destaca o historiador Frederico Pernambucano de Melo, é a escritora e professora Marilourdes Ferraz em sua obra “O Canto do Acauã”, uma ave de canto agourento do Nordeste místico.
Em sua narrativa, baseada em testemunhas e, sobretudo, nas memórias do seu pai Manoel Ferraz Flor, que chegou a ser coronel das volantes, ela pinta os irmãos Ferreiras como encrenqueiros e que Lampião começou a provocar os nazarenos com furtos e roubos e, como foi revidado, por vingança passou a atacar a vila constantemente.
Tudo começou quando a família Ferreira se mudou para Nazaré vindo do Poço Negro por causa das intrigas e tiroteios de morte contra José Saturnino Borges, isto num acordo de se acabar de vez com as desavenças. Seus pais foram depois morar em Água Branca (Alagoas), mas os irmãos voltaram para infernizar a região.
Marilourdes faz uma imagem positiva das volantes como homens corajosos e heróis, apesar das deficiências em termos de recursos materiais e humanos. No entanto, o que se ouve era que muitos combatentes se davam à violência, inclusive contra as mulheres.
Existe fundo de verdade nisso e muitos soldados torturavam sertanejos para confessar o paradeiro dos cangaceiros. Por sua vez, as pessoas de bem temiam as represálias e ficavam caladas, como ocorre nos tempos atuais nas favelas das grandes cidades.
Os militares entram derrubando portas de moradores com suas botinas, como se todos fossem bandidos. No tempo do cangaço, nem todos eram cangaceiros. A maioria era gente ordeira que só queria trabalhar sossegada para sobreviver às adversidades das secas. Ficavam entre a cruz e a espada, ou seja, as estiagens e os bandoleiros.
ALISTAMENTO DOS CIVIS
Segundo ela, a situação ficou tão crítica que os moradores de Nazaré se armaram e muitos se alistaram nas forças das volantes para combater os bandoleiros, como naqueles filmes de faroeste, mas Lampião não desistia e sempre estava armando suas ciladas e emboscadas, especialmente nos anos 20.
Marilourdes narra várias escaramuças e diz que Lampião passou a ser perseguido quando se encontrava próximo entre Serra Talhada e Floresta, tudo para evitar sua entrada em Nazaré que se tornou uma fortaleza. Faz lembrar daqueles povoados mexicanos lutando de dentro de suas casas contra os bandidos do Oeste, do outro lado da fronteira.
A escritora descreve em seu livro várias batalhas, como a de novembro de 1925 quando Lampião se encontrava na fazenda Cipó, às margens do riacho São Domingos, em Serra Talhada e rumava para a Serra dos Pereiros. Prontamente João Ferraz, Manoel Flor e outros se prepararam para dar buscas aos bandidos. Houve um tiroteio sangrento num campo de algodoal que correu muito sangue.
No capítulo “Alistamento no Sertão” ela fala das dificuldades de enfrentar os cangaceiros, não somente Lampião, naquelas caatingas íngremes. Foi aí que o comerciante a agricultor João Flor teve a ideia de solicitar ao coronel paraibano José Pereira, da cidade Princesa Isabel, o alistamento dos civis.
PEDÁGIO E SEQUESTRO
Ferraz cita o cangaceiro José Gomes, o Palmeira, que se incumbia da tarefa de extermínio, colocando o povo em pânico (muitos fugiam de suas casas). Com o mesmo modus operandi dos traficantes e milicianos urbanos das favelas, os cangaceiros extorquiam os proprietários e obrigavam a pagar um pedágio de segurança.
Esse José Gomes chegava na residência ou numa casa comercial com um rifle papo-amarelo na horizontal à altura do pescoço, configurando uma cruz, com os braços estendidos para prender o coice da arma com a mão direita e o cano com a esquerda. “Ele era o protótipo do cangaceiro representado nestes versos: “Eu sou cabra ignorante/ Só aprendo a matar/Fazer a ponta da faca/Limpar rifle e disparar/ Só sei fazer pontaria/ E ver o cabra embolar”.
De acordo com a escritora, Lampião foi o primeiro cangaceiro, na história do Nordeste e talvez do Brasil, a inventar o sequestro de resgate de fazendeiros e comerciantes ricos. Ela relata, com sua linguagem simples e atrativa, numa contação de histórias, a invasão de Sousa (Paraíba) por Livino Ferreira e seu bando.
Nesse episódio foi sequestrado o magistrado da cidade e seu resgate foi pago. O fato ocorreu em julho de 1924. Depois o bando atravessou a fronteira de Pernambuco. Para perseguir os bandoleiros, o major Teófanes Torres (foi ele quem prendeu o cangaceiro Antônio Silvino) assumiu o comando.
Sob suas ordens estavam muitos nazarenos, como Odilon Flor. Manoel e Euclides Flor, João Domingos Ferraz, dentre outros. Nessa empreitada teve o reforço do valentão Clementino “Quelé” que em 1922 cometeu um, homicídio e entrou no grupo de Lampião.
Durou pouco tempo no bando por causa de divergências, inclusive com o “Meia-Noite”, o homem de confiança de Virgulino. Na retirada disse que não passasse em seu sítio, mas a ordem foi desobedecida e “Quelè” foi cercado em sua casa. Recebeu o socorro do destacamento de Triunfo. Perdeu dois irmãos e se alistou na força volante. Diz que ele enfrentou Lampião e chamou para uma briga a sós.
No estado da Paraíba, as localidades de Princesa, Conceição, Misericórdia e Piancó eram as áreas preferidas dos cangaceiros. Muitas famílias foram trucidadas. Nesse ano de 24/25, foi ouvida uma canção cujo estribilho era assim: “Ô seu Virgulino?!/ Me espere, faz favô,/ Pra receber o recado / Que seu Quelé te mandô”. Em outra diz: “Canta tanta pabulage/ Mas no pisada rebêra/Quando vê Quilimintino/ Sai danado na carrera”.
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