“O CANTO DO ACAUÔ
“A LUTA DAS FORÇAS VOLANTES CONTRA OS CONGACEIROS”
No mundo épico e imaginário do cangaço, existe uma vasta literatura sobre o assunto, a grande maioria focada em Lampião que mais se sobressaiu na história do banditismo nordestino durante cerca de 20 anos, mas existiram outros, como Antônio Silvino, Cassimiro Honório e “Sinhô” Pereira que deixaram suas marcas como valentões. Lampião foi transformado numa lenda na oralidade do povo, no canto exagerado dos repentistas e na boca da imprensa daquela época.
O livro “O Canto do Acauã”, da professora, jornalista e escritora, de Pesqueira (Pernambuco), Marilourdes Ferraz, não se trata de uma obra acadêmica, mas de muitas narrativas baseadas em depoimentos de testemunhas e nas memórias do seu pai Manoel de Souza Ferraz (Flor), uma família que passou a vida combatendo os cangaceiros bandoleiros do agreste nordestino desde início dos anos de 1900.
Com sua prosa no formato de contação das histórias daquele povo, com pitadas romanescas, ela mostra o outro lado das ações das volantes que foram, segundo a escritora, combativas, e procura desfazer aquela imagem distorcida de que essas forças atuaram com excessiva arbitrariedade e violência contra a população das vilas, chegando a cometer estupros, como relatam escritores.
Ela não nega que houve erros, mas não generalizados, e que eram homens valentes que combatiam com garra, mesmo sem os recursos necessários dos governantes. Ferraz dedica o livro aos combatentes das Forças Volantes “que entregaram sua mocidade e energia à luta contra o banditismo no sertão”.
Sua obra mapeia os lugares originários de Pernambuco onde nasceu o cangaceirismo, como Riacho do Navio, Nazaré, Serra de Uman, Vele do Pajeú, rio Moxotó, Serra Vermelha, Serra Negra, Campo da Ema, entre outros, que até o final do século XIX eram constituídos de um povo pacato, com vilas, caso da São Francisco, vivendo em prosperidade. As secas, as intrigas familiares, a precária situação social, os isolamentos do Nordeste, principalmente, mudaram o panorama, dando lugar à violência.
Marilourdes Ferraz descreve sobre o misticismo nordestino, suas crenças, rezas, festejos populares e a verve poética e musical dessa gente, inclusive entre os próprios cangaceiros, como um tal de “Cacheado” com seus versos, que tudo indica ter sido o autor de “Muié Rendeira”, muito apreciado por “Sinhô” Pereira e depois pelo próprio Lampião e seus irmãos Ferreiras.
“Na falta de uma explicação para os fenômenos climáticos, os sertanejos entregavam-se como sempre ao misticismo na procura de respostas às suas angustiadas indagações. Três pedras de sal eram expostas ao relento na véspera do dia de Santa Luzia. Se na manhã seguinte estivessem dissolvidas, as chuvas viriam, mas se permanecessem íntegras isto pronunciaria ano de seca. No final do ano, ventos fortes provenientes do Sul indicavam seca. Se no dia de Ano Novo o sol nascesse límpido e de repente uma nuvem o encobrisse, haveria boas perspectivas de chuvas na estação invernosa. Em época de estiagem ou de seca, o furto da imagem do Menino Jesus de junto da de Santo Antônio podia assegurar um bom inverno e, quando apareciam as chuvas, o Menino era devolvido aos braços do Santo, em procissão, com fogos e cânticos”. A própria ave Acauã é vista como agourenta, mas ela tem outro canto que traduz esperança.
Ao contrário de como muitos alardeiam, de acordo com o que narra em seu livro, José Ferreira, o pai de Virgulino, o Lampião, era um homem pacato que vivia desgostoso por ver seus filhos enveredarem na bandidagem, mas sua mãe chegava até incentivá-los e era, de certo ponto, violenta.
Para fugir daquelas desavenças entre seus filhos e o fazendeiro poderoso José Saturnino, ele e a família se mudaram para Alagoas por volta de 1919/20 onde foi morto. Sua esposa sofreu um AVC quando seu filho mais novo João Ferreira foi preso. Outros autores dizem que foi morto por engano pelo tenente José Lucena Maranhão, um dos maiores inimigos de Virgulino Ferreira e seus irmãos Antônio (Esperança), Livino (Vassoura) e Ezequiel (Ponto Fino).
Seu pai morreu em 21 de maio de 1921. Os episódios que acarretaram sua morte tiveram lugar em 9 de maio do mesmo ano. Foi o assalto a Paricônia por Lampião e seu bando onde roubaram joias, dinheiro e o que não pode ser levado foi destruído.
Sob o comando do tenente José Lucena, que cercou a propriedade Engenho Velho, no tiroteio foram mortos “Sinhô” Fragoso e José Ferreira, baleado quando se dirigia ao curral, conforme registro no cartório de Água Branca (Alagoas). Os irmãos Ferreiras não estavam em casa, mas ficaram revoltados. Lampião teria dito que iria matar até morrer.
Num combate com José Saturnino, no município de Custódia (Pernambuco), Lampião ficou desprovido de munição e mandou seu irmão João Ferreira comprar o material em Água Branca (Alagoas), mas o jovem foi preso, conforme relata a escritora. Com Antônio Matilde, os Ferreiras rumaram para Água Branca no intuito de arrombar a cadeia e soltar o irmão.
No caminho encontraram com as forças e estas, não conseguindo obstar o plano dos cangaceiros, voltaram para a cidade e libertaram João Ferreira. Após esse choque dos filhos, Maria Lopes Ferreira, a mãe de Lampião, sofreu um AVC e depois veio a falecer.
Marilourdes conta que a briga com Saturnino começou lá em Pernambuco por causa do furto de um chocalho, segundo ele, pelos irmãos Ferreiras. Ele perseguiu os jovens de forma implacável, com requintes de crueldade, “forçando sua adesão ao mundo do crime”.
Após a morte dos pais, os Ferreiras retornaram à região do Pajeú onde se associaram ao grupo de “Sinhô” Pereira, “da mesma maneira pela qual haviam estado antes sob a chefia dos irmãos Porcino, em Alagoas”.
Quando esteve sob as ordens de “Sinhô” Pereira, Lampião ficou temporariamente esquecido, mas voltou a ter notoriedade nacional quando realizou, com seu bando, o assalto à residência da idosa baronesa Joana de Siqueira Torres, em Água Branca (Alagoas), em 26 de junho de 1922, levando joias e pertences valiosos. Em 22 de agosto do mesmo ano, “Sinhô” Pereira partiu de Pernambuco, abandonando o cangaço.












