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:: 9/jan/2026 . 22:40

“O CANTO DO ACAUÔ

“A LUTA DAS FORÇAS VOLANTES CONTRA OS CONGACEIROS”

No mundo épico e imaginário do cangaço, existe uma vasta literatura sobre o assunto, a grande maioria focada em Lampião que mais se sobressaiu na história do banditismo nordestino durante cerca de 20 anos, mas existiram outros, como Antônio Silvino, Cassimiro Honório e “Sinhô” Pereira que deixaram suas marcas como valentões.  Lampião foi transformado numa lenda na oralidade do povo, no canto exagerado dos repentistas e na boca da imprensa daquela época.

O livro “O Canto do Acauã”, da professora, jornalista e escritora, de Pesqueira (Pernambuco), Marilourdes Ferraz, não se trata de uma obra acadêmica, mas de muitas narrativas baseadas em depoimentos de testemunhas e nas memórias do seu pai Manoel de Souza Ferraz (Flor), uma família que passou a vida combatendo os cangaceiros bandoleiros do agreste nordestino desde início dos anos de 1900.

Com sua prosa no formato de contação das histórias daquele povo, com pitadas romanescas, ela mostra o outro lado das ações das volantes que foram, segundo a escritora, combativas, e procura desfazer aquela imagem distorcida de que essas forças atuaram com excessiva arbitrariedade e violência contra a população das vilas, chegando a cometer estupros, como relatam escritores.

Ela não nega que houve erros, mas não generalizados, e que eram homens valentes que combatiam com garra, mesmo sem os recursos necessários dos governantes. Ferraz dedica o livro aos combatentes das Forças Volantes “que entregaram sua mocidade e energia à luta contra o banditismo no sertão”.

Sua obra mapeia os lugares originários de Pernambuco onde nasceu o cangaceirismo, como Riacho do Navio, Nazaré, Serra de Uman, Vele do Pajeú, rio Moxotó, Serra Vermelha, Serra Negra, Campo da Ema, entre outros, que até o final do século XIX eram constituídos de um povo pacato, com vilas, caso da São Francisco, vivendo em prosperidade. As secas, as intrigas familiares, a precária situação social, os isolamentos do Nordeste, principalmente, mudaram o panorama, dando lugar à violência.

Marilourdes Ferraz descreve sobre o misticismo nordestino, suas crenças, rezas, festejos populares e a verve poética e musical dessa gente, inclusive entre os próprios cangaceiros, como um tal de “Cacheado” com seus versos, que tudo indica ter sido o autor de “Muié Rendeira”, muito apreciado por “Sinhô” Pereira e depois pelo próprio Lampião e seus irmãos Ferreiras.

“Na falta de uma explicação para os fenômenos climáticos, os sertanejos entregavam-se como sempre ao misticismo na procura de respostas às suas angustiadas indagações. Três pedras de sal eram expostas ao relento na véspera do dia de Santa Luzia. Se na manhã seguinte estivessem dissolvidas, as chuvas viriam, mas se permanecessem íntegras isto pronunciaria ano de seca. No final do ano, ventos fortes provenientes do Sul indicavam seca. Se no dia de Ano Novo o sol nascesse límpido e de repente uma nuvem o encobrisse, haveria boas perspectivas de chuvas na estação invernosa. Em época de estiagem ou de seca, o furto da imagem do Menino Jesus de junto da de Santo Antônio podia assegurar um bom inverno e, quando apareciam as chuvas, o Menino era devolvido aos braços do Santo, em procissão, com fogos e cânticos”. A própria ave Acauã é vista como agourenta, mas ela tem outro canto que traduz esperança.

Ao contrário de como muitos alardeiam, de acordo com o que narra em seu livro, José Ferreira, o pai de Virgulino, o Lampião, era um homem pacato que vivia desgostoso por ver seus filhos enveredarem na bandidagem, mas sua mãe chegava até incentivá-los e era, de certo ponto, violenta.

Para fugir daquelas desavenças entre seus filhos e o fazendeiro poderoso José Saturnino, ele e a família se mudaram para Alagoas por volta de 1919/20 onde foi morto. Sua esposa sofreu um AVC quando seu filho mais novo João Ferreira foi preso. Outros autores dizem que foi morto por engano pelo tenente José Lucena Maranhão, um dos maiores inimigos de Virgulino Ferreira e seus irmãos Antônio (Esperança), Livino (Vassoura) e Ezequiel (Ponto Fino).

Seu pai morreu em 21 de maio de 1921. Os episódios que acarretaram sua morte tiveram lugar em 9 de maio do mesmo ano. Foi o assalto a Paricônia por Lampião e seu bando onde roubaram joias, dinheiro e o que não pode ser levado foi destruído.

Sob o comando do tenente José Lucena, que cercou a propriedade Engenho Velho, no tiroteio foram mortos “Sinhô” Fragoso e José Ferreira, baleado quando se dirigia ao curral, conforme registro no cartório de Água Branca (Alagoas). Os irmãos Ferreiras não estavam em casa, mas ficaram revoltados. Lampião teria dito que iria matar até morrer.

Num combate com José Saturnino, no município de Custódia (Pernambuco), Lampião ficou desprovido de munição e mandou seu irmão João Ferreira comprar o material em Água Branca (Alagoas), mas o jovem foi preso, conforme relata a escritora. Com Antônio Matilde, os Ferreiras rumaram para Água Branca no intuito de arrombar a cadeia e soltar o irmão.

No caminho encontraram com as forças e estas, não conseguindo obstar o plano dos cangaceiros, voltaram para a cidade e libertaram João Ferreira. Após esse choque dos filhos, Maria Lopes Ferreira, a mãe de Lampião, sofreu um AVC e depois veio a falecer.

Marilourdes conta que a briga com Saturnino começou lá em Pernambuco por causa do furto de um chocalho, segundo ele, pelos irmãos Ferreiras. Ele perseguiu os jovens de forma implacável, com requintes de crueldade, “forçando sua adesão ao mundo do crime”.

Após a morte dos pais, os Ferreiras retornaram à região do Pajeú onde se associaram ao grupo de “Sinhô” Pereira, “da mesma maneira pela qual haviam estado antes sob a chefia dos irmãos Porcino, em Alagoas”.

Quando esteve sob as ordens de “Sinhô” Pereira, Lampião ficou temporariamente esquecido, mas voltou a ter notoriedade nacional quando realizou, com seu bando, o assalto à residência da idosa baronesa Joana de Siqueira Torres, em Água Branca (Alagoas), em 26 de junho de 1922, levando joias e pertences valiosos. Em 22 de agosto do mesmo ano, “Sinhô” Pereira partiu de Pernambuco, abandonando o cangaço.

 

 

“FAZER O QUÊ, NÉ”!

As pessoas hoje se entregaram, como se nada mais pudesse ser feito para mudar a situação. São como robôs comandados pelas ordens dos mandatários no poder, e se sentem reféns dos acontecimentos ruins que prejudicam nossas vidas.

É como se não tivéssemos mais direitos de reivindicar e protestar contra os desmandos e arbitrariedades. Como se não fossemos donos de nós mesmos. Somos objetos inocentes úteis dos deveres.

Quantas vezes já ouvimos esta expressão “fazer o quê, né” quando as administrações públicas aumentam o valor dos transportes públicos, as empresas elevam os custos da energia e da água, os combustíveis sobem, projetos de lei são absurdos e a violência brutal bate em nossas portas ceifando vidas que pouco valem.

Quando fenômenos anormais da natureza provocam tragédias, o pobre tem cinco ou seis filhos, as coisas não ocorrem como se queria e até as injustiças sociais atingem os mais fracos, sempre ouvimos que “foi Deus que assim quis”, como se não tivéssemos mais opções de decidir nossos caminhos.

“Queremos justiça”, que nunca chega, ou quando se alcança é tardia e não é justa na medida do crime cometido pelo agressor. É outra frase comum quando algum amigo, parente, ente querido da família é atingido por uma bala perdida ou pela truculência da polícia.

“Não podemos fazer nada” é outro termo irmão do “fazer o quê, né”! “É assim que a banda toca, meu amigo”, e não é com seu clamor e revolta que vai mudar o mundo. Êta vidinha acomodada e submissa que se perdeu na desilusão de que as coisas não podem mais mudar! Não adianta espernear! “É perda de tempo”!

Chegamos ao fundo do poço (ainda tem mais fundo) do comodismo, do individualismo, da indiferença e da falta de indignação onde cada um no mundo de hoje só pensa em si e acha que lutar pelo coletivo basta dar uma doação para uma campanha (sai uma e entra outra) de brinquedos ou alimentos em final de ano (Natal), ou para socorrer vítimas de catástrofes. Temos consciência política beirando a zero.

Nos tempos que não existiam internet e celular, nem redes sociais de milhões de visualizações e seguidores de besteiróis, multidões marchavam nas ruas, praças e avenidas na busca pelos seus direitos humanos e era “um por todos e todos por um”. Isto tudo se acabou e nem existem mais amigos de verdade, como antigamente, do tipo “certo nas horas incertas”.

Sentimos atualmente um vazio no peito quando observamos que as pessoas se entregaram à própria sorte, se isolaram e perderam a esperança de que sonhar juntos pode mudar os fatos ao nosso favor. O grito de “Unidos, venceremos” ficou apenas nas palavras!

Mais do que nos primórdios das civilizações, o egoísmo de hoje é mais visível, e o outro é como se fosse o seu inimigo. Vizinho não conhece mais vizinho. Faça um teste e pergunte os nomes de seus vizinhos. Que solidariedade é essa de que tanto se fala e se propaga por aí?

As comunidades rurais, os moradores de vilas e povoados ainda cultivam a cultura do companheirismo, da camaradagem, do mutirão, do adjutório e do querer mudar para melhorar, mas nas cidades predominam o isolamento humano e a falta de respeito para com o outro.

“Fazer o quê, né”, se o sistema é assim e temos que obedecer, sem questionar! Aliás, quem reclama e questiona demais é visto como um chato que vive a se lamentar da vida. “Olha lá, lá vai aquela mala que quer mudar as coisas e o mundo” – aponta com o dedo em riste o “fazer o quê, né”.

É, meus camaradas, os tempos mudaram, muito mais para pior, e não estou sendo pessimista.  “Cala-te boca, nojento”! Mas, falar da vida alheia e fazer fofocas, nisso todo mundo é craque e especialista. Julgar os atos dos outros, tem de montão. Mesmo cheio de pecados, atira pedras. É a vida, meu amigo, “fazer o quê, né”! “Só sei que é assim”!

FESTINHA DE NATAL

(Chico Ribeiro Neto)

O contínuo se declara à secretária do chefe. A secretária do chefe se declara ao subchefe e o subchefe adorou a cunhada do contínuo que veio de miniblusa pra festinha de Natal da empresa.

Tendo sempre à frente uma comissão que briga pelo que faz – pois, por melhor que você faça sempre tem um espírito-de-porco pra botar defeito -, toda festinha de Natal, seja ela de empresa ou de repartição pública, se parece muito.

Aqui vão algumas das reações colhidas em festinhas de Natal, encorajadas por uísque, cerveja e pelo próprio espírito natalino que perdoa tudo:

“Não gostei daquilo que você me disse na festinha de Natal do ano passado”.

“Cadê aquela promoção que o senhor me prometeu e até hoje nada?”

“Sua cunhada é linda!”

Toda festinha de Natal é repleta de surpresas que vão além do sorteio de brindes. Um funcionário tímido assume o microfone com a mão esquerda, porque a mão direita segura um copo cheio de uísque, e ataca de “Besame Mucho”.

No fim da festa, uma funcionária que sempre sofreu pedindo carona vê, de repente, três marmanjões disputando à sua frente o direito de levá-la em casa. “Não tem problema (hic), pra onde você quiser ir eu lhe levo. Quanto mais eu bebo, melhor eu dirijo. Pode confiar, pode confiar”. A essa altura, já esconderam a chave do carro dele, diante do estado em que se encontra, e ele vai ter que ir para casa de carona, também, ou de táxi. Algumas vezes, o congraçamento se transforma em aborrecimento.

Festinha de Natal dá de tudo. Tem o que reclama do quibe e o que diz que a empada tá fofa demais. Tem o que reclama porque não tem uísque e o que reclama porque não tem mais cerveja às 10 da noite, numa festa que começou às 16 horas.

Tem o que leva pra casa meia bandeja de salgados e as flores que decoravam a mesa. E tem aquele que continua a dizer, depois de umas quatro: “Sua cunhada é realmente linda!”

Seja em empresa, fábrica ou repartição, festinha de Natal é isso: dizer coisas que ficaram entaladas o ano todo. Nem que essa coisa seja dizer “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/12/91)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)





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