A FOLINHA DE ARRANCAR O DIA
(Chico Ribeiro Neto)
Começo a pensar no calendário da infância, quando mamãe Cleonice, logo de manhã cedo, arrancava todo dia o dia anterior, na folhinha do Sagrado Coração de Jesus, vendida pela Editora Vozes. A folhinha, que existe desde 1940, traz o calendário anual que é encaixado na parte inferior da estampa.
Mais tarde, passei a gostar de ler aquelas pequenas folhas soltas onde, não sei como, cabia tanta coisa escrita na frente e atrás: um trecho do Evangelho, o santo do dia, fases da lua, frases célebres e como tirar mancha de caju da roupa.
Aquilo, sim, é que era calendário, pois o dia era arrancado um a um. Faz bem arrancar o dia de ontem e jogar fora. Hoje, a gente recebe calendários onde cabem até 3 meses numa só página, quando não é o ano todo, Nos últimos tempos, compro todo ano a folhinha do Coração de Jesus.
“Seu Chico, o senhor tem folhinha?”
Qual não era a satisfação de meu avô ao pegar na gaveta aquela folhinha da sua loja em Ipiaú, a Casa São Roque, e o freguês exclamar ohs! diante dos cachorrinhos, crianças e cascatas. As folhinhas são bonitas certamente para tornar os dias mais amenos.
A folhinha caiu de moda. Saiu até da sala pra cozinha. Eu me lembro que se brigava por folhinha: “Seu Manoel, olha lá, hein? Pode guardar a minha que venho buscar segunda-feira. Não posso ficar esse ano sem folhinha”.
Casa com cinco quartos tinha uma folhinha em cada um. A mais bonita ficava pra sala e as que sobravam iam pro corredor ou cozinha.
Já um pouco mais crescido, passei a notar que nas folhinhas do quarto da minha tia beata só tinha santo, enquanto as da barbearia só tinha mulher boa. Barbearia, casa de peças e borracharia são lugares danados pra ter calendário de mulher nua e fazendo propaganda de amortecedor ou de pneu. Já vi uma barbearia onde setembro era mulher boa e outubro era um girassol. Outubro chegou, já era dia 15, mas a folhinha continuava em setembro, pra não virar a página.
Os calendários – ou folhinhas, nome gostoso e cheio de lembranças – também servem para marcar os dias perigosos das mulheres, os dias férteis, a famosa tabela. Aquele pequeno círculo em volta dos dias já diz tudo.
Folhinha velha não podia continuar na parede nem um dia a mais. Folhinha nova dava azar se colocada antes de primeiro de janeiro.
Dia após dia, todos iguais. A folhinha traz um pouco de poesia para o cotidiano. Nesse ano-novo, que você receba uma folhinha de cachorrinhos, crianças e cascatas.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 19/12/90)
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