Está difícil conviver hoje com as pessoas. Vivemos épocas cavernosas. A impressão que temos é que a humanidade aos poucos está voltando aos tempos das cavernas. Pode até ser pessimismo da minha parte. Muitos dizem que as coisas vão melhorar, mas não consigo acreditar nisso.

A velha geração das letras de conteúdo, de início, meio e fim, está se acabando, partindo para o além, e a nova faz questão do quanto menos pensar, melhor. Muitos colocam a culpa ao mundo da internet, das redes sociais de frase curtas e português errado, das abreviações das palavras e do besteirol, mas será que não está lá atrás quando começaram a definhar a educação? O conhecimento e o saber estão raquíticos!

Neste final de semana estava ouvindo uns vinis de Geraldo Vandré (Disparada, Pra que não dizer que falei das flores), Paulo Diniz (“E Agora, José” – Drummond), Zé Ramalho, com Avôha!, Caetano (Alegria, Alegria), Gilberto Gil (Domingo no Parque), Edu Lobo (Ponteio), Milton Nascimento (Travessia) e outros clássicos eternos dos saudosos festivais, de longas letras (muitas são aulas de história) que nos fazem refletir e têm sentido.

Naqueles tempos, muitos de hoje dirão se tratar de saudosismo, coisa de velho, as letras eram tão importantes, ou até mais, que as melodias musicais. Hoje, as músicas, se é que se pode chamar isso de músicas, são ritmos barulhentos, de letras de uma só estrofe, repetida várias vezes, com mulheres e homens rebolando no palco, e o artista é ovacionado por uma massa histérica que imita as coreografias e faz o papel de papagaio.

Existem letras de uma só frase e algumas com apenas duas palavras fazendo o maior sucesso em shows de multidões, e ainda chamam isso de festivais. A grande maioria não quer mais saber de letras longas, e até os artistas de conteúdo entraram nessa onda e rejeitam porque sabem que o público em geral não escuta mais o que se fala.

Tem gente hoje que sai do nada e de repente, de uma hora para outra, está nas paradas de sucesso, como um tal João Gomes e tantos outros. As duplas “sertanejas” são verdadeiras pragas daninhas, com letras curtas de sofrência e amor barato. Arrastam galeras jovens sem nenhum senso crítico.

As redes de televisão abraçam porque dá audiência e mais patrocínios, e na internet são milhões de visualizações. É um esquema bruto de jabás que se paga alto pelas divulgações. Com o baixo nível cultural, onde a juventude cai dentro e se afoga nas merdas, está bem mais fácil fazer sucesso e ganhar dinheiro.

Antigamente, aquela velha geração que me referi lá em cima, dava um duro danado, ralava e comia o pão que o diabo amassou, para ser reconhecido pelo público como grande artista. Passava um bom tempo de viola nos ombros virando a noite, de barzinho em barzinho, recebendo um cachê minguado.

Os nordestinos, hoje famosos, lá atrás, sem estrutura de mercado em suas capitais, iam para o Rio de Janeiro disputar na tora e na raça uma gravação nas grandes gravadoras, a maioria norte-americanas. Era tanta procura que tinha gente que pagava para gravar uma música. Lutavam bravamente por um espaço para divulgar suas obras.

A música, por ser mais atrativa, é apenas um exemplo de arte que sofreu essa decadência, mas as outras também padecem do mesmo “mal de siècle” do cada vez se pensar menos. Na literatura, são poucos os que se dedicam à leitura. A desculpa é que não têm tempo. Claro, o celular se tornou no deus mais idolatrado. A humanidade ficou mais imbecil.

Na maioria, os novos autores procuram fazer textos curtos, e os livros não passam de 150 páginas, no máximo, porque quase ninguém se debruça numa obra de 200 ou mais folhas. Até os livros didáticos são chochos. De poucas narrativas e muitos cortes.

Nas outras artes, a questão é semelhante, com poucos teatros, poucas danças, raras casas de espetáculos (em Vitória da Conquista estão fechadas) e não existem mais aquelas galerias e salões de artes plásticas, com algumas exceções em determinadas capitais. Os jovens preferem os shows de cantores, músicos e compositores que só parem lixo.

Diante de todo esse quadro de decadência cultural, de uma arte sem conteúdo que não é mais a mesma, como ter esperança de que as coisas vão melhorar? Muitos procuram pensar positivo, só porque ser negativo é pior e passa uma imagem de derrotismo.

É aquele negócio do faz de conta que tudo vai mudar para melhor. ”Que nada, cara, vamos pensar positivo”! Confesso que não consigo enganar a mim mesmo. Prefiro me comportar como um anormal, um estúpido ou bruto, fora desse eixo social maquiado, mesmo recebendo fortes críticas.

Estou nessa idade e não mais me incomodo com elas. Dentro das minhas condições, faço o possível para virar o jogo, mas já entramos no segundo tempo tomando de goleada. Necessitamos de muitos craques lá na frente para fazer gols, só que essa safra também está escassa. O técnico já fez de tudo e está rouco de tanto gritar! Só temos pernas de paus!