:: 26/dez/2025 . 23:30
O “VELHO” E O “NOVO” DE BRAÇOS DADOS
Com todo respeito às crendices, superstições e ao sincretismo religioso, vou de branco, de azul, vermelho, amarelo, roxo ou preto, comer lentilhas, frango, carne de porco, pato, peru, ema ou ganso, para receber o “novo”, de braços dados com o “velho”. Não importa a cor ou a comida, se religioso ou profano.
Quando chegamos às vésperas do último dia do ano, festejamos essa passagem com o nome pomposo de “Réveillon” (Êta que adoramos mesmo estrangeirar e copiar a cultura alheia, ou alienígena), dizendo que estamos enterrando o velho, tanto que nos abraçamos e nos beijamos desejando um “Feliz e Próspero Ano Novo”.
É um ritual ancestral que já fazemos de forma maquinal, sem ao menos refletirmos que o velho, mesmo com seu paletó surrado, segue com o novo, que já nasce velho, porque no âmbito geral das formas política e social estabelecidas e do sistema vigente em que já vivemos, nada muda, a não ser fatos e acontecimentos novos que já fazem parte do nosso cotidiano. “Nada se cria, tudo se copia”.
No outro dia do primeiro do ano, como nos outros dias comuns do “velho”, os noticiários trazem fatos “novos” que acontecem no andar da carruagem da vida e muitos outros que já são velhos conhecidos da sociedade. Portanto, os dois continuam entrelaçados entre si como fios de corda no sentido latu sensus.
Isso de enterrar o “velho”, dele passar o bastão para o “novo”, só existe no nosso imaginário psicológico e é uma expressão que já sai automaticamente do nosso subconsciente. Sabemos que sem o velho ancestral, com suas aprendizagens, com seus erros e acertos, não nos renovamos para construir o novo.
Por sua vez, nem pensamos que cada ano que “enterramos”, ficamos mais velhos junto com a nossa data de aniversário. Um está atado ao outro. O “velho” leva muita coisa para o “novo” e o “novo” não vive sem o “velho”. Sem o “velho” não fazemos nossos planos, nossas metas e nossos sonhos, muitas deles não cumpridos que se tornam caducos durante o “novo”, que nada tem de novo.
Bastam de tantos firulas e trocadilhos de filosofia barata. A realidade é que sempre, de uma maneira ou de outra, estamos sempre condenando o “velho” quando afirmamos que queremos um “novo” melhor. Isso é natural porque o ser humano nunca está satisfeito com o que tem ou com o que recebeu e teve lá atrás. É por assim dizer, um ingrato das graças. Claro que no meio existiram desgraças.
Todos os anos temos catástrofes e tragédias humanas e da natureza, com suas tormentas, temporais, raios, vendavais, ciclones e tornados (cada vez mais crescentes devido ao aquecimento global); desmandos dos políticos corruptos e tiranos; guerras de bombas voadoras destruidoras; campanhas de doações; gestos de maldades e generosidades; crimes hediondos e ações que ainda alimentam nossa esperança e fé.
Tudo isso está no cardápio que o “velho” passa para o “novo”. As mudanças nos ingredientes e temperos para que a comida fique menos ou mais saborosa só dependem de nós. Não adianta lamentar porque o tempo continua se arrastando tinhoso e nem se atreva pedir para parar. Ele é o dono dos nossos destinos.
Mas, “vamos em frente que atrás vem gente”, meu amigo e, como dizia nosso cancioneiro, o Bob Dylan do Nordeste, ainda vivo (outros acham que é o Zé Ramalho), Geraldo Vandré, vamos embora que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Felicitações ao “velho” e um forte abraço ao “novo”, uma incógnita, que não seja aquele tipo amigo da onça.
CARTAS E ORAÇÕES DOS CANGACEIROS
Durante o período do cangaço, que durou praticamente um século no Nordeste, além dos seus apetrechos que carregavam, como chapéus de couro de aba dobrada, com estrelas de Salamão, cartucheiras, bornais bordados e outros utensílios de sobrevivência no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coronéis coiteiros e oficiais das volantes, e carregavam consigo suas orações (de grande valor) para protegê-las dos seus inimigos.
As cartas, em sua maioria, principalmente de Lampião, no auge do banditismo, nas décadas de 20 e 30, eram endereçadas através de um portador do seu grupo aos fazendeiros, com cobranças (na verdade eram taxas de pedágios de proteção), aos inimigos, com intimidações e até a oficiais chefes de polícia, com recados severos para que parassem com os armamentos e as perseguições.
Com o português, considerado por estudiosos como a verdadeira língua de Camões e Gil Vicente, Lampião mandou uma dessas cartas ao major Pedro Augusto, onde em determinado trecho diz: “Não acho direito é vocês estarem armados e juntando gente. Isto não está direito. Preciso dar passagem deste lugar e não quero alarme no Ceará! Não sou moleque para andar com histórias erradas”.
Em outra, ele encaminha uma corta para Antônio Mando, onde pede dois contos de réis. Espero isto sem falta agora alarmi e não mandi qui depois vae se sahir muito mal, resposta pelo mesmo portador sem mais, não falti olhi olhi, Capm Virgulino Ferreira vulgo Lampião”.
Para Elias Barbosa, ele enviou uma carta de advertência: “O Sr. está com Um peçoal Em arma contra mim, portanto, quero qui faça como homem, sahia da Rua e mi pegue”. Mais na frente diz que “Eu tenho comido toicinho com Mais cabelo”. No final, assina seu nome com vulgo Lampião u terror do Sertão. Para o sargento José Antônio do Nascimento, em 1926, manda uma bem desaforada.
Corisco também endereçou uma carta para o padre José Bulhões, em 1935, da freguesia de Santa do Ypanema. Esta foi inusitada porque o portador levava o filho do chefe que teve com sua mulher Dadá e pedia ao vigário que criasse o menino como se fosse o seu filho, da melhor forma que pudesse.
Também o Moita Braba enviou uma carta semelhante ao promotor Manuel Cândido, em 1937, pedindo que o magistrado criasse seu filho que teve com Sebastiana Rodrigues Lima. Interessante que ele assina como Coronel Moita Braba.
No inventário dos objetos apreendidos, feito pelo Regimento Policial Militar, foram encontrados os seguintes pertences de Lampião: Chapéu de couro com seis signos de Salomão e 55 peças de ouro; peças e moedas de ouro; mosquetão mauser, modelo 1908 de uso exclusivo do Exército Nacional; faca; cartucheira para 121 cartuchos; bornais; lenços vermelhos; pistola parabélum; luvas; cobertas; anéis de ouro e prata; óculos (armação de ouro); e um pacote de orações.
Com Lampião foram encontrados vários livrinhos de orações onde, segundo a crendice e o misticismo religioso nordestino, funcionavam para fechar seu corpo contra balas e facas. Em todas essas orações eram citados os nomes de Jesus Cristo e Deus e, em uma delas, misturavam-se narrações do Antigo e do Novo Testamento.
Com o cangaceiro estavam em seus bornais as orações Da Pedra Cristalina, onde pede que se o inimigo atirar saia água pelo cano da espingarda e se for faca que caia da sua mão; a oração do Salvador do Mundo, a mais longa, intercedendo concórdia entre ele e seus inimigos (mistura trechos do Antigo com o Novo Testamento) e cita Santo Miguel Arcanjo trocando nome e sobrenome, de frente para trás e de trás para frente; a oração Das Treze Palavras Dictas e Retomadas e; por fim, a oração De Nosso Senhor Jezuz Christo.
Todas essas cartas e orações foram publicadas pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, tendo como fonte o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde se acham ainda as orações das Virgem das Virgens (prodigiosa), da Beata Catharina e de Santo Agostinho, está muito utilizada por Lampião.
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