A MORTE ANUNCIADA DOS CASARÕES
(Chico Ribeiro Neto)
Passo na orla marítima de Salvador e vejo uns três casarões que vão virar prédio. A imensa placa está à frente dos casarões ostentando o novo nome da moradia que vai ser construída, uma moradia mais alta e, sem dúvida, mais apertada para caber muita gente. Onde tinha 10 vai ter 200.
Como um biombo que se coloca no quarto do paciente para mostrar que ele ainda não morreu – mas seu estado é grave -, a grande placa da construtora antecipa a morte dos casarões que ainda estão lá, firmes, com as janelas fechadas. A placa é uma tarja branca na frente deles, como uma mordaça para que não digam o que estão sentindo.
O mato ainda não começou a crescer e logo logo os tratores entrarão em ação. Num cantinho com ar-condicionado os corretores já estarão vendendo os apartamentos e fazendo milhões de cálculos de renda, sinal e prestação, enquanto os filhos dos compradores brincam com os carrinhos da maquete do prédio e ganham carão.
Você já viu derrubar um casarão? É um tropel de ferros, cabos de aço e picaretas. Extasiados, operários e populares assistem um trator derrubar uma parede em poucos segundos, enquanto o coração de quem morou lá já deve estar implodindo, mesmo tendo feito um bom negócio na venda do casarão. Resta o consolo de que uma casa velha tem coisas que nem derrubando saem.
Alguma cadeira ficará para o peão sentar e bater um dominó. Uma velha folhinha com fotos da Europa e rasgada no mês de maio servirá também para distrai-lo.
Muitos objetos foram deixados pelo canto, na pressa da saída. Num velho caderno de apostilas do vestibular o mestre-de-obra fica encantado com um poema de Chico Buarque. Por coincidência, ele abriu o caderno bem naquele lugar: “Amou daquela vez como se fosse a última…”
Logo após o início da obra, começam a chegar, de manhã cedo, vendedores de mingau, café, pastel e bolo, ocupam a frente do tapume, e aquela mão calejada e suja de areia recebe um pedaço de bolo pela abertura do tapume. Um guaraná litro ajuda a descê-lo e o feliz arroto dá a sensação de barriga cheia.
Prédio quase pronto, os primeiros moradores vão começar a chegar com o apartamento ainda no cimento. “Aquela mulher é muito enjoada, pois já está falando em derrubar parede”.
O peão recolhe rapidamente os pedaços de pão e a lata de sardinha, pois a madame quer ver também como é a cozinha.
Se pudesse, faria um apelo aos construtores: quando forem erguer um prédio no lugar de um casarão, não coloquem nenhuma placa na frente do moribundo. Esperem a retirada da última janela e o olhar de saudade do velho morador.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 17/07/91).
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