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:: 25/dez/2025 . 23:01

A MORTE ANUNCIADA DOS CASARÕES

(Chico Ribeiro Neto)

Passo na orla marítima de Salvador e vejo uns três casarões que vão virar prédio. A imensa placa está à frente dos casarões ostentando o novo nome da moradia que vai ser construída, uma moradia mais alta e, sem dúvida, mais apertada para caber muita gente. Onde tinha 10 vai ter 200.

Como um biombo que se coloca no quarto do paciente para mostrar que ele ainda não morreu – mas seu estado é grave  -, a grande placa da construtora antecipa a morte dos casarões que ainda estão lá, firmes, com as janelas fechadas. A placa é uma tarja branca na frente deles, como uma mordaça para que não digam o que estão sentindo.

O mato ainda não começou a crescer e logo logo os tratores entrarão em ação. Num cantinho com ar-condicionado os corretores já estarão vendendo os apartamentos e fazendo milhões de cálculos de renda, sinal e prestação, enquanto os filhos dos compradores brincam com os carrinhos da maquete do prédio e ganham carão.

Você já viu derrubar um casarão? É um tropel de ferros, cabos de aço e picaretas. Extasiados, operários e populares assistem um trator derrubar uma parede em poucos segundos, enquanto o coração de quem morou lá já deve estar implodindo, mesmo tendo feito um bom negócio na venda do casarão. Resta o consolo de que uma casa velha tem coisas que nem derrubando saem.

Alguma cadeira ficará para o peão sentar e bater um dominó. Uma velha folhinha com fotos da Europa e rasgada no mês de maio servirá também para distrai-lo.

Muitos objetos foram deixados pelo canto, na pressa da saída. Num velho caderno de apostilas do vestibular o mestre-de-obra fica encantado com um poema de Chico Buarque. Por coincidência, ele abriu o caderno bem naquele lugar: “Amou daquela vez como se fosse a última…”

Logo após o início da obra, começam a chegar, de manhã cedo, vendedores de mingau, café, pastel e bolo, ocupam a frente do tapume, e aquela mão calejada e suja de areia recebe um pedaço de bolo pela abertura do tapume. Um guaraná litro ajuda a descê-lo e o feliz arroto dá a sensação de barriga cheia.

Prédio quase pronto, os primeiros moradores vão começar a chegar com o apartamento ainda no cimento. “Aquela mulher é muito enjoada, pois já está falando em derrubar parede”.

O peão recolhe rapidamente os pedaços de pão e a lata de sardinha, pois a madame quer ver também como é a cozinha.

Se pudesse, faria um apelo aos construtores: quando forem erguer um prédio no lugar de um casarão, não coloquem nenhuma placa na frente do moribundo. Esperem a retirada da última janela e o olhar de saudade do velho morador.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 17/07/91).

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

O PRESIDENTE QUE O BRASIL PRECISA PARA ACABAR COM A BANDIDAGEM

Diante desse quadro promíscuo em que vivemos na política polarizada, de tanto ódio e intolerância, muitas vezes ouvimos alguém dizer que precisamos de um presidente que seja poeta ou filósofo, para colocar este país no caminho da justiça social, da ética e da honradez. Antes de qualquer coisa, que seja honesto. Não importa se de esquerda ou de direita, não a extremista fascista fanática. O povo já não aguenta mais com tantos desmandos e bandidagens!

Às vezes, fico a pensar comigo mesmo de que precisamos de um presidente sem ambição em se perpetuar no poder ou fazer seu substituto. Um líder comandante que seja destemido e não tenha medo de perder o cargo, sem essa de fazer pacto com o diabo para manter a tal da governabilidade. Parece uma utopia, mas seria possível realizar a distopia desse sistema, não necessariamente com mão de ferro.

Não seria um presidente ditador, populista ou assistencialista, apenas que falasse democraticamente a língua do povo. Um presidente que tivesse a coragem de quebrar com todas essas amarras e alianças oportunistas velhacas e formasse o seu próprio ministério com pessoas competentes e comprometidas com o Brasil e não com seus interesses individuais. Um presidente destemido que suportasse as críticas.

Imagino um presidente que tivesse a coragem e a “valentia” de um sertanejo brabo para criticar, de peito aberto, dando nome aos bois, os bandidos que compõem a maioria desse Congresso Nacional de pervertidos, sem medo de ameaças de ser cassado. Um presidente que botasse a boca no trombone e falasse a verdade, doesse em quem doesse. Um cabra de “sangue no olho”.

Um presidente que por decretos ou projetos propusesse cortar todas as mordomias e orgias dessas três castas dos poderes executivo, judiciário e legislativo, mesmo que suas propostas fossem rejeitadas e criticadas por esses canalhas que vivem às custas dos trabalhadores. Que cortasse metade dos feriados e acabasse com essa pilantragem dos feriadões, os tais enforcamentos. Com certeza, mesmo que demorasse um pouco para entender suas posições, o povo ficaria ao seu lado e apoiaria suas medidas.

A grande maioria se engajaria nessa empreitada de fazer do Brasil um país sério, e não essa república de bananas. Entendo que o Brasil precisa de um presidente que apresente para toda população um projeto de reforma eleitoral que acabe de vez com esse coronelismo do voto, não esses projetos tampões ou remendos que esses embusteiros do Congresso aprovam em épocas eleitoreiras.

Queremos um presidente que procurasse, por todos os meios possíveis, derrotar essa cabroeira que faz da política um meio de vida e de negócio, inclusive elementos que se dizem de esquerda, mas não passam de aproveitadores da ingenuidade do povo. Um presidente que condenasse veementemente esse processo criminoso de emendas parlamentares.

Nada de fazer negociações esdruxulas para agradar as elites burguesas e oligarcas que sempre sugaram nossas riquezas e contribuíram para aprofundar as desigualdades sociais onde a miséria não passa de entulhos. Um presidente que combatesse esse agro predador e esse sistema financeiro selvagem.

Precisamos de um presidente sem esse jogo duplo, de ser mãe dos pobres e pai dos ricos. Basta de tanto dar, sem ensinar a pescar. Poderia até não ficar muito tempo no poder, mas ficaria para sempre na história como o presidente que enfrentou os dragões diabólicos e tentou acabar com o banditismo do colarinho branco e das organizações narcotraficantes que hoje estão de mãos dadas depenando nosso país.

Não é esse PT ou essa esquerda que aí está, que faz alianças com essa gente fedorenta facínora, que vai consertar o Brasil e exterminar esse câncer epidêmico da corrupção e da malandragem desembestada. Esse Governo está apenas abrindo a porteira para a boiada passar. Por que não mudar e enfrentar os malignos junto com o povo, sem acordos e pactos sujos?

 

 

POLITICAGEM PARA AGRADAR

Que me lembre, nestes mais de 34 anos em Vitória da Conquista, não via um recesso tão extenso e longo para os servidores públicos municipais, de duas semanas, com a grande maioria das secretarias fechadas. Pelo decreto da prefeita, só estão funcionando os serviços essenciais. No meu entendimento, todos são imprescindíveis para o cidadão. Trata-se de uma politicagem para agradar os funcionários, mas prejudicial aos usuários contribuintes que pagam altos impostos. Neste país e nesta Bahia, especialmente, já temos muitos feriados e feriadões que atrasam o desenvolvimento econômico e social, sem contar que é o período de mais gastanças e acidentes no trânsito, com aumento de mortes. São as épocas em que o sistema SUS fica sobrecarregado, com mais custos para o Tesouro. Na Bahia, por exemplo, as festas começam em início de dezembro e só terminam em março. O legislativo e o judiciário entram em recesso por dois meses, e agora vem o poder executivo de Conquista querendo fazer quase o mesmo. Tudo isso é muito bom para o setor de turismo em geral, como agências de viagens, transportes e hotéis. Do outro lado, deixa a classe com menor poder aquisitivo, que sempre está imitando o rico, ainda mais endividada. Vamos todos às farras e às favas para o trabalho.

ASSIM QUIS O DESTINO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

No ferro, fogo e aço,

Entre jurema e o calumbi,

Na imbira da macambira,

Rifle, fuzil e punhal,

Na alpercata do carrasco,

O agreste era seu quintal,

Na glória e no fracasso.

 

Assim quis o destino,

Não importa se terreno ou divino,

Aprendeu menino ser bandido

De um povo isolado sem lei,

Onde foi governador e rei.

 

Meia dúzia de balas,

No corpo carregava,

Cegueira e doenças renais,

No Angico apertado se refugiava,

Com seus deuses e satanais,

Sertão dos tempos medievais.

 

Acabou o corpo fechado,

No cinzento da oração,

Maria Bonita caiu junta,

Com seu amor Lampião,

E o tenente Bezerra atirava,

Nove cabras tombaram no chão.

 

Eram dois pernambucanos,

Da região do Pajeú,

Celeiro de cangaceiros,

De nordestinos espartanos,

Renegados pelo sul.

 

Um aprendeu a atirar,

Com a pontaria de Antônio Silvino,

Depois entrou para a volante,

E assim quis o destino,

Que caísse o Virgulino.

 

O outro, aluno de Sinhô Pereira,

Que ensinou sua cabroeira,

A ser andante bandoleiro,

Como negócio, refúgio e vingador,

Na terra de coronéis e doutor.

 

Só sobrou o velho Corisco,

Que até serviu o exército,

Cabra valente e arisco,

Como lutador teve seu mérito,

Mas o Governo Getulista,

Em quarenta fechou a lista,

Do Nordeste cangacista.

 

 





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