:: 23/dez/2025 . 22:23
A MALDIÇÃO DA BASE DE ALCÂNTARA
Quando num local acontecem fenômenos estranhos e as coisas sempre dão erradas, caso de um estabelecimento onde negócio nenhum prospera e sempre está mudando de dono, as pessoas costumam dizer que o lugar é amaldiçoado.
No folclore, ou na cultura popular, falam de casas mal-assombradas onde antigos moradores foram mortos tragicamente por assassinos cruéis, inclusive pertencentes às famílias. Diz a crendice que é necessário muita reza, um ritual de candomblé de pai-de-santo, muita água benta ou de um padre exorcista para espantar a maldição. O assunto tem sido utilizado como matéria-prima para roteiros de livros e filmes.
É o caso da Base de Alcântara, no Maranhão, o Cabo Canaveral brasileiro de lançamento de foguetes tupiniquins que sempre explodem, como ocorreu nesta semana. Os lançamentos emperram na hora ou provocam acidentes graves nas decolagens. Melhor não mais tentar porque já virou piada e deboche de fracassos. Esses foguetes poderiam ser chamados de Marimbondos de Sarney.
Desconfio que ali, em tempos passados, tenha sido cemitério sagrado de alguma tribo indígena e os espíritos dos nossos antepassados não ficaram nada satisfeitos em transformar o local numa base de foguetes, por isso que eles interferem nas operações ao serem perturbados com esses monstrengos da tecnologia.
Como só dá problema, bem que a Base (antes era na Barreira do Inferno) poderia ser transferida para a Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, a “Suíça Baiana”, mas aí os mongoiós iriam se vingar dos massacres passados do colonizador português de Chaves, João Gonçalves da Costa. Já imaginaram o orgulho de ter uma Base de Foguetes na Serra! Pelo menos seria um ponto turístico!
Brincadeiras à parte, a Base, localizada em ponto estratégico da linha do Equador, teve seu início de construção em 1982. Seu núcleo foi inaugurado no ano seguinte, mas só se tornou operacional mesmo em 1989. Em 1990 foi lançada a Sonda 2, como símbolo da entrada do Brasil no programa espacial. O homem já havia pisado na lua há mais de 20 anos.
Para quem tem boa memória, o acidente mais notório e trágico na Base de Alcântara foi a explosão do foguete VLS-1, em agosto de 2003 que resultou na morte de 21 técnicos e pesquisadores brasileiros, sendo o maior revés do Programa Espacial Brasileiro.
Por coincidência, estava lá nesse dia numa viagem de carro que fiz pelo interior do Nordeste, da Bahia a São Luis, do Maranhão. Além desse (agora mais um), outros seis lançamentos falharam, como em 1997 e outro em 1999. Não parece mesmo uma maldição, ou coisas do Brasil que terminam em anedotas.
Dizem que o de 2003, o erro foi em decorrência da ignição prematura do foguete no solo. No de 1997 foi falha no acionamento de um motor, resultando no foguete caindo no Atlântico. Em 1999, o foguete foi destruído remotamente três minutos após a decolagem devido a uma chama no bloco do segundo estágio.
O acidente desta semana, se não me engano, foi parecido com o de 1999. Houve retardo por cousa do mau tempo (só temos temporais no serviço de meteorologia), e o foguete não era para ter sido lançado naquele instante. Devem ter errado na contagem regressiva e os técnicos não combinaram a partida com São Pedro. Quem sabe não daria certo na contagem progressiva!
Recordo que em 2003 – de lá para cá ninguém falou mais no assunto e até achava que nem existia mais essa Base de Alcântara – falaram que o acidente seria investigado para punir os responsáveis pela atrapalhada e que o governo iria buscar parcerias internacionais.
Desta vez, pelo que se está sabendo, uma empresa sul-coreana está envolvida no imbróglio. O coreano resolveu enfrentar a maldição e deu no que deu. No próximo tem que se fazer um ritual ecumênico de orações, porque a coisa está feia. Ainda bem que não tinha ninguém no foguete, como em 2003.
Com tudo isso, a Base de Alcântara virou um projeto fantasmagórico de horror. Quem sabe se os foguetes não são feitos de bambus, para economizar gastos! Deve vir um próximo por aí porque o brasileiro é tinhoso e teimoso. Não seria melhor lançar em noite de São João? Assim disfarçava que foi apenas um foguete junino que estourou nos céus do Maranhão!
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