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:: 11/dez/2025 . 22:50

COM QUE ROUPA?

(Chico Ribeiro Neto)

Minha primeira calça comprida, que ganhei aos 11 anos, usei durante um mês sem deixar mamãe Cleonice pegar pra lavar. Calça comprida era uma grande conquista.

A farda do Ginásio São Bento, cáqui, era muito sem graça. Depois, o azul e branco do Colégio Central da Bahia eram mais livres e animados, principalmente pela presença das meninas. A primeira mulher que apareceu no São Bento foi uma professora de Francês. Belos joelhos. Foi no Central que comecei, em 1968, a lutar contra a ditadura militar que esmagava o Brasil.

Menino de farda não entrava no cinema. Mas aí era só tirar o escudo (preso por um clips no bolso da camisa) que o porteiro deixava entrar. Uma fiscalização “faz de conta”. O porteiro sabia que era um estudante, mas o dinheiro falava mais alto.

Tem gente que não usa roupa dos outros por dinheiro nenhum, principalmente se a roupa for de alguém que já morreu. Acham que a roupa traz um pouco da alma do antigo dono.

Lá em casa a roupa ia passando. Luiz, o mais velho dos quatro filhos de Waldemar e Cleonice, comprou uma camisa Volta ao Mundo, aquela de nylon que não precisava passar ferro. Essa camisa percorreu uma grande rota, pois de Luiz passou pra Zé Carlos, depois foi Cleomar e foi terminar em mim, já amarela no sovaco, mas inteira.

Meu pai só tinha crediário na Renner, na Avenida Sete de Setembro, onde eram compradas minhas calças compridas. “Tá grande, meu pai!” “Você tá crescendo ligeiro e sua mãe vai fazendo a bainha. Vai levar essa mesmo”.

Tem um famoso cantor brasileiro que tem pavor a roupa marrom e já expulsou do camarim um repórter que foi entrevistá-lo usando uma camisa dessa cor.

Primeiro encontro com a namorada. “Vou com que roupa?”. Noel Rosa cantou: “Com que roupa que eu vou/ Pro samba que você me convidou?”

Tinha um amigo adolescente que, quando ia pro cinema com a namorada, rasgava o bolso da calça e lá no escurinho perguntava se ela queria drops. “Então pegue aqui”, mostrava o bolso, e ela acabava pegando em outro drops.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

O ANEL VIÁRIO E A ROTA DO LIXO

Meu amigo “Zé Maria”, do Movimenta Conquista, a duplicação da BR-116 é para inglês ver. Deveríamos concentrar nossas forças para a construção de viadutos e passarelas no Anel Viário em torno da cidade. Esses pontos (zonas sul, oeste, leste e norte) se tornaram em passagens da morte. Quando fizeram o Anel, há cerca de 30 anos, prometeram fazer estas obras e até agora nada, só armengues, e agora umas sinaleiras da prefeitura que não solucionam o problema. São apenas paliativos.  Na boca do sertão, quem sai de Conquista para Anagé e Brumado, no sapé da Serra do Periperi, entre o Bairro Senhorinha Cairo e Henriqueta Prates, nossas lentes flagraram o tormento dessa travessia para motoristas e pedestres. É só confusão e, vez por outra, acontecem acidentes. Cadê os nossos políticos que, cinicamente, abrem a boca para dizer que estão trabalhando pelo povo. Conquista é uma cidade grande em termos de habitantes, mas pequena em sua infraestrutura.

Nesse trevo louco, sem viaduto e passarela, observei também que aquele local pode ser chamado de rota do lixo, a começar pela “Sucata Esperança”, que nada tem de esperança, mas de perturbação aos moradores da vizinhança. Além da zoeira das máquinas, o dia todo ela solta fuligem e poeiras tóxicas no ar poluindo as casas próximas. É um verdadeiro atentado à saúde pública. Cadê o poder executivo, o Ministério Público, a OAB e a própria Câmara de Vereadores que não tomam providências para relocalizar esse entulho para outro ponto distante da cidade. Além da sucata, ainda temos duas unidades de reciclagem do lixo, menos grave, mas que fazem parte da rota do lixo de Vitória da Conquista. Ainda tem gente idiota burguesa que chama aqui de “Suíça Baiana”. Essas pessoas não passam de alienadas que não conhecem as periferias da cidade, a maioria vivendo nas encostas da Serra do Periperi. Bem que essa rota do lixo poderia se transformar em mais um ponto turístico, já que aqui existem poucos para se visitar.

AS SECAS E OS BANDOS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Vejo pelas estradas e veredas

Levas de esfarrapados famintos,

Ao sol das labaredas,

Bandos enfeitados de cartucheiras,

Nas lágrimas secas das secas,

Balas varam quintais,

Coronéis derrubam cercas.

 

Êta Nordeste de guerreiros!

Infestado de bandoleiros!

Lá vem Antônio Silvino,

Ventania de um furacão,

No aço reluzente do cangaço,

Depois os bandos de Lampião,

Pelas secas dos Pereiras e Quelés,

Vinte e Dois, os Patriotas e Sabinos,

Jararaca, os Marianos e Porcinos,

Fechando lojas e até cabarés.

 

Nesta terra sofrida sem lei,

O bandido é o dono e rei.

Nas secas não existem feiras,

“Padim Ciço” derruba governador,

Pajeú, Cariri e Piancó das bagaceiras,

Há anos que não se colhe uma flor,

Neste agreste de tanta desgraça e dor.

 

As secas com seus bandos,

Os bandos com seus santos,

Com rezas de corpos fechados,

Os beatos com seus pobres rebanhos,

Cada cabra com seus comandos,

E nordestinos expulsos de seus cantos.

 

Chusmas de maltrapilhos,

Estirados pelo árido chão,

E os debilitados sobreviventes,

Em campos de concentração.

 

Meus versos não têm graça,

Oh, Senhor Deus dos desamparados,

Cadê sua divina Graça:

Deixar seus filhos morrem,

Nas florestas do ciclo da borracha?

 

Os bandos têm seus coiteiros,

Os chefes políticos, o poder,

E as secas parem os cangaceiros.

 

A Coluna Prestes passa,

No meio dessa confusão,

Querendo justiça social,

Mas o reacionário capital,

Metralha sua Revolução.

 

A marcha é arrastada difícil,

Dos levantes em busca de comida,

Sacrificam até suas crianças,

Para sustentar suas andanças,

No labirinto entre morte e vida.

 

As secas são implacáveis,

Como nas antigas guerras romanas,

Acossadas pelos bandos desumanos.

É arder no caldeirão do inferno,

De almas na espera

Das chuvas de inverno.

 

O último bando foi de Corisco,

As secas continuam por séculos,

E eu por aqui fico,

Sem mais nenhum rabisco.





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