:: 4/dez/2025 . 23:37
ALBUM DE FAMÍLIA E FORMATURA
Com o celular, as fotos de comemorações de aniversários, festas entre amigos e famílias ou encontros vão diretas para as redes sociais, se bem que o fotógrafo profissional ainda existe para registrar momentos inesquecíveis, mas com menor demanda.
Quem não se lembra dos velhos álbuns de famílias, alguns encadernados em pastas de capas duras, com papel de seda brilhante para proteger as fotos, feitos por pessoas com maior poder aquisitivo! Os pobres guardavam os retratos tirados em feiras livres em seus baús e, com o tempo, elas ficavam amarrotadas. Aliás, ainda existem.
Quando chegavam alguns amigos ou parentes em sua casa, as mães e as avós reuniam todos numa mesa para comer um bolo com café e mostrar as fotografias. Os comentários eram os mais variados, especialmente sobre aquelas fotos de poses e vestimentas engraçadas daquela época. Todos caiam na gargalhada, mas era muito gostoso recordar o passado.
Lembro de uma foto que meu pai mandou um retratista tirar numa dessas feiras de povoado, ou numa missa na igrejinha, onde a perna da minha mãe saiu torta. Eram feições de matutos e lá estava eu bem miudinho. Essa relíquia se perdeu.
Os álbuns de famílias representavam a própria história daquele clã, principalmente entre as mais poderosas. O patriarca ou o coronel sempre saia na frente com uma bengala. As mulheres em posições secundárias, como submissas.
Mesmo com o avanço tecnológico, ainda existe o tradicional álbum de família nos casamentos, nos batizados, aniversários importantes de 70, 80 e 90 anos e nas formaturas escolares. Só que é esquecido lá no canto e poucos mostram para evitar serem vistos como chatos.
Não existe mais aquele entusiasmo de ficar passando folha por folha, fotografia por fotografia. Fiz um dos meus 70 anos, mas não me atrevo mostrar aos amigos e parentes, para não me chamarem de mala. Se alguém abre por educação, passa rapidamente as folhas para chegar logo ao final do calhamaço e mudar de assunto.
E aqueles antigos álbuns de formaturas e encontros de estudantes? Estes têm muitas histórias e coisas para se falar e contar. Rendem fofocas, piadas e bullying maldosos entre os colegas. Mesmo assim, a maioria desses álbuns se perdem no tempo como velharias.
– Olha a Alice, lembra dela, era toda metida a gostosona, que passava se rebolando nos corredores e não dava “bola” para ninguém, mas transava com o diretor!
– Esta aqui, na foto, é a Cleonice, que namorava com todo mundo. E aqui, a Suzana, gordinha, que todos a chamava de “bolinho”, e ela ficava furiosa! A Ana era toda séria, metida a riquinha que esnobava dos mais pobres!
Entre os rapazes, tinha o playboy, o espirituoso que gostava de colocar apelido em todo mundo. Este é o “André Galinha” tirado a galã, mas só tomava fora das moças. Só queria tirar um sarro!
– Ah, cara, a foto está velha, mas este é o Carlos, o cdf – cu de ferro-, todo arrumadinho que passava todo tempo estudando para tirar nota boa. Nem adiantava chamar ele para um “assustado”. Era o queridinho da professora.
– Diogo era o mais gaiato da turma e bom de bola, mas só tirava nota baixa. Ele dizia que quando crescesse queria ser caminhoneiro para rodar o mundo numa boleia de carro!
Aqui é o Ronaldo valentão, que procurava briga com todo mundo. Sempre foi revoltado com tudo. Diziam que o pai dele era violento e batia até na mãe. Um dia entrou numa sala com uma barra de ferro e quebrou várias carteiras. Os professores tinham medo dele.
Pois é, esses álbuns guardavam histórias, inclusive de muitos que abandonaram a escola e sumiram. Outros foram para outras paragens com seus pais, mas deixaram seus semblantes e marcas registrados.
Atualmente, com a ferramenta da internet, muitas fotos são usadas de forma indevida, difamando e caluniando pessoas através de imagens criminosas. E agora com a tal inteligência artificial onde se pode falsificar fotos com falas que não são reais! Seja bem-vindo ao mundo das redes sociais onde nem tudo é verdade!
A SERRA E O TEMPO
O tema daria para se fazer um poema e ser musicado, uma crônica, um filme de ficção ou documentário, outro gênero literário e até mesmo uma tese de doutorado. Claro que estou a me referir sobre a nossa popular Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, que poderia ser chamada de Serra dos Mongoiós, Monachós, também conhecidos como Camacãs. A Serra e o Tempo, dela sobrou o vento no lamento zunido de seus antepassados espíritos.
A Serra tem muitas lendas e histórias para serem contadas. São poesias do tempo, matas que pertenceram aos índios, expulsos e exterminados de suas terras virgens pelos colonizadores. Corredeiras de águas que alimentavam o rio Verruga e matava a sede de seus primeiros nativos.
Há mais de 100 anos, em 1817, quando aqui chegou (Arraial da Conquista) o príncipe alemão Maximiliano Wied-Newied, ele ficou encantado com a exuberância da sua floresta, ainda praticamente virgem. Se retornasse depois ao túnel do tempo, ficaria horrorizado e decepcionado pela ação predadora do homem.
Dela sobrou uma pequena área do Poço Escuro, mesmo assim carente de preservação e urbanização. Por mais de 100 anos depredaram a Serra, derrubaram suas árvores, retiraram terra, pedras e areia, aterraram suas nascentes e, ao longo desse período, seus habitantes invadiram suas encostas. Maldita exploração imobiliária! O capital tem o dom do extermínio.
No final dos anos 90 ela foi cortada de ponta a ponta para construir o asfaltamento do Anel Viário, como mostram as imagens de comboios de carretas flagradas pelas nossas lentes. Lembro que se criou uma grande polêmica na época com opiniões contrárias dos ambientalistas e defensores da preservação da Serra, a esta altura totalmente desfigurada, verdadeira terra arrasada. A discussão custou a demissão do secretário municipal do Meio Ambiente que contestou pontos do projeto.
Toda sua encosta hoje, praticamente de ruas de chão, sem saneamento básico, está tomada pela pobreza periférica que mais sofre com as fortes chuvas. As partes altas e baixas da cidade também são atingidas por lamas, pedras e todos tipos de detritos que descem da Serra pela falta de uma vegetação mais densa como naqueles tempos da visita do príncipe.
TORMENTOS DA ALMA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O ser, do ser Criador,
Servo do tempo infinito,
Matéria e espírito de dor,
Tormentos da alma:
Luta entre o existir do viver,
Mesmo sem sentido no crer.
Neste embate entre vida e morte,
Transitam a angústia e a felicidade,
Nas frestas do vencer do mais forte,
Mistérios da Suprema divindade:
Com linhas tortas universais,
Conflitos humanos animais.
Para os tormentos viscerais:
Religiões, amuletos das muletas,
Versões morais e imorais,
Somos almas atormentadas,
Até mesmo santos canibais,
Com suas cores multifacetadas.
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