:: 2/dez/2025 . 23:30
A MALANDRAGEM E A BUROCRACIA
– Calma, meu amigo, não adianta ficar nervoso, minha função aqui é carimbar, sou apenas um carimbeiro de papéis. Só recebo ordens lá de cima.
Quem não já se sentiu nesta situação numa repartição pública que exigia e ainda exige uma série de documentos pessoais para você obter uma escritura, uma licença qualquer, um alvará, um requerimento ou uma autorização de compra e venda de um móvel ou imóvel?
Às vezes, você fazia e faz tudo certo, na base do passo a passo, com uma pasta de papéis debaixo do braço, mas, quando chegava na sala do chefe da repartição, ele dizia e diz com seu ar de superioridade, que estava e está faltando o carimbo lá debaixo.
O nome disso, que ganhou popularidade, se chama de burocracia, isto é, um monte de papelada para sacramentar um documento e até se habilitar a um concurso público, ou a um edital.
– Participa, cara, vai lá! É tudo simples, não existe burocracia! Só em falar essa expressão me dá tremedeira. Deve ser trauma incurável. Não há psicólogo que resolva.
Tenho a impressão que a burocracia encontrou um terreno mais fértil e ganhou mais notoriedade no Brasil por causa da crescente malandragem das pessoas em querer se dar bem em tudo, da maneira mais fácil, usando todos os tipos de falsificações e tramoias.
Para simplificar mais a vida das pessoas e mudar essa mentalidade de se desconfiar de tudo, foi criado, no último governo da ditadura, do general João Figueiredo, o Ministério da Desburocratização, cujo chefe da pasta era Hélio Beltrão (entrevistei várias vezes) que ficava até sem graça ao falar do assunto, mas transmitia um ar de competência. Ele tentava nos convencer que todo brasileiro era honesto, mas não colava mesmo.
Acho que os generais inventaram esse ministério para fazer alguma média política ou porque o Beltrão ficou sobrando nas listas de indicações. Já imaginou um Ministério da Desburocratização, sem burocracia?
O mais engraçado é que, naquela época da ditadura, era burocrático e difícil entrevistar o ministro da Desburocratização. Ele se apresentava com vários papéis, neles escritos seus inúmeros projetos e medidas para desburocratizar o país. Ele se expressava com aquele jeitão de D, Quixote, prometendo acabar com os moinhos de ventos.
São coisas do passado, mas essa cruel burocracia persiste até hoje como maior entrave na vida dos brasileiros, mesmo com os avanços da tecnologia da internet. Siga o passo a passo e, quando se está quase no final, tudo trava.
E os editais culturais? São cheios de leis, itens, cláusulas, artigos, parágrafos, incisos e outras exigências que deixa qualquer artista doido, à beira de arrancar os cabelos. A única saída é contratar um profissional de projetos.
– É para deixar tudo bem amarrado e protegido para que não haja fraudes por parte dos mais “espertos” mal-intencionados. São exigências dos tribunais de contas – argumentam os técnicos projetistas dos governos.
Quanto mais burocracia, mais profissionalização das malandragens, caso dos golpistas da internet que sempre conseguem descobrir uma fórmula para quebrar segredos e proteções, naquela base da esperteza do jeitinho brasileiro.
Para quem não sabe, o termo burocracia nasceu na França, no século XVIII, numa junção das palavras “bureau” – escritório, mesa – com o grego “kratos”, de poder, autoridade e governo. No conceito do sociólogo Max Weber, a palavra tinha o sentido de eficiência organizacional do Estado moderno.
Na verdade, o termo foi cunhado pelo francês Jean-Claude Maria Vincent já com a crítica popular pejorativa de lentidão e excessos de procedimentos nas repartições públicas.
No Brasil, a burocracia ganhou sobrevida no Governo de Getúlio Vargas, principalmente a partir de 1936, com uma série de reformas na busca da profissionalização dos serviços públicos, visando privilegiar a meritocracia.
Não é hilário? Na minha concepção, burocracia é um atraso e uma maneira de emperrar ações, projetos e travar o desenvolvimento do país. Confesso que tenho horror e me dá urticária esta palavra de “bureau” com “kratos”, que quer dizer burocracia.
Prefiro enfrentar um touro na arena. Burocracia é como um engarrafamento num trânsito caótico num dia de cão, ou de um calor de 50 graus, sem ar condicionado no carro. Sou mais os tempos do fio do bigode, mas a malandragem está solta, meu camarada!
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