:: dez/2025
ÁRVORE FRONDOSA
Em 2026 continue sendo como uma árvore frondosa que, além de oferecer sombra contra o sol escaldante, produz frutos para alimentar as pessoas. Muitas vezes, nem todos são sadios por causa das pragas. É só saber separar os bons dos ruins, mas o que importa mesmo é dar frutos do bem. Sejamos, então como uma árvore frondosa, principalmente neste mundo tão conturbado e difícil de se viver. Vamos cuidar da nossa árvore. Nela, as aves fazem seus ninhos e se abrigam, inclusive de possíveis predadores. Que neste 2026 sejamos árvores frondosas, para acolher a todos estradeiros e rancheiros da vida.
A FOLINHA DE ARRANCAR O DIA
(Chico Ribeiro Neto)
Começo a pensar no calendário da infância, quando mamãe Cleonice, logo de manhã cedo, arrancava todo dia o dia anterior, na folhinha do Sagrado Coração de Jesus, vendida pela Editora Vozes. A folhinha, que existe desde 1940, traz o calendário anual que é encaixado na parte inferior da estampa.
Mais tarde, passei a gostar de ler aquelas pequenas folhas soltas onde, não sei como, cabia tanta coisa escrita na frente e atrás: um trecho do Evangelho, o santo do dia, fases da lua, frases célebres e como tirar mancha de caju da roupa.
Aquilo, sim, é que era calendário, pois o dia era arrancado um a um. Faz bem arrancar o dia de ontem e jogar fora. Hoje, a gente recebe calendários onde cabem até 3 meses numa só página, quando não é o ano todo, Nos últimos tempos, compro todo ano a folhinha do Coração de Jesus.
“Seu Chico, o senhor tem folhinha?”
Qual não era a satisfação de meu avô ao pegar na gaveta aquela folhinha da sua loja em Ipiaú, a Casa São Roque, e o freguês exclamar ohs! diante dos cachorrinhos, crianças e cascatas. As folhinhas são bonitas certamente para tornar os dias mais amenos.
A folhinha caiu de moda. Saiu até da sala pra cozinha. Eu me lembro que se brigava por folhinha: “Seu Manoel, olha lá, hein? Pode guardar a minha que venho buscar segunda-feira. Não posso ficar esse ano sem folhinha”.
Casa com cinco quartos tinha uma folhinha em cada um. A mais bonita ficava pra sala e as que sobravam iam pro corredor ou cozinha.
Já um pouco mais crescido, passei a notar que nas folhinhas do quarto da minha tia beata só tinha santo, enquanto as da barbearia só tinha mulher boa. Barbearia, casa de peças e borracharia são lugares danados pra ter calendário de mulher nua e fazendo propaganda de amortecedor ou de pneu. Já vi uma barbearia onde setembro era mulher boa e outubro era um girassol. Outubro chegou, já era dia 15, mas a folhinha continuava em setembro, pra não virar a página.
Os calendários – ou folhinhas, nome gostoso e cheio de lembranças – também servem para marcar os dias perigosos das mulheres, os dias férteis, a famosa tabela. Aquele pequeno círculo em volta dos dias já diz tudo.
Folhinha velha não podia continuar na parede nem um dia a mais. Folhinha nova dava azar se colocada antes de primeiro de janeiro.
Dia após dia, todos iguais. A folhinha traz um pouco de poesia para o cotidiano. Nesse ano-novo, que você receba uma folhinha de cachorrinhos, crianças e cascatas.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 19/12/90)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
TUDO TEM SUA VEZ
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Deixe a inspiração fluir,
Para nascer a poesia,
Espere a maré baixar,
Para fazer a travessia.
Tem a vez do nascer e crescer,
Do aprender e do saber,
Trabalhar e do curtir,
Do ganhar e do perder,
O tempo da velhice:
Foi o sábio que assim disse.
Tudo tem sua vez,
Do início e do fim,
Do não e do sim;
Tem a tristeza e a alegria,
A vida tem prazo de garantia.
Não fique aí com cara de tacho,
Esperando o acontecer,
Na base do eu acho,
Que tudo vai melhorar,
Sem a labuta enfrentar.
Tudo tem sua vez,
O primeiro beijo,
A primeira transa sexual,
E é você quem faz
Ser divina sensacional;
Tem a vez do amar,
E também a do odiar.
Tudo tem sua vez,
A do sofrer e a do prazer,
Depois do pôr-do-sol,
Vem o alvorecer.
Tem o choro e o sorriso,
Cada um com sua vez,
Como no sinal do aviso.
A flor perfuma o ar,
Tem sua hora de murchar,
O produto do consumir,
Se torna lixo do poluir.
Só os deuses são imortais,
Tudo tem sua vez,
A esperança da mudança,
O plantar e o colher;
As sementes que caem no chão
São espíritos dos ancestrais,
No sentimento e na razão.
É o ciclo da vida,
Se há entrada, existe saída,
Na corrida do ter e do ser,
Tudo tem sua vez,
Do primeiro cavalo selado,
Não pegue a estação errada,
Para não entrar numa furada.
Tudo tem sua vez,
O mar revolto e a calmaria,
O acidente na rodovia,
Um dia é da caça,
O outro é do caçador,
Não existe vencer sem dor.
PREVALECE A LEI DO MAIS FORTE
Na lei natural dos animais selvagens, sempre prevalece a do mais forte. Tem o predador dos predadores. O fraco leva a pior. No mundo dos humanos não é diferente. Estou me referindo ao maluco do Donald Trump que, sob o pretexto do tráfico de drogas, está invadindo a Venezuela (não estou defendendo o Maduro que já deveria ter caído de podre). O mesmo foi feito por Bush que mandou invadir o Iraque dizendo que possuía armas nucleares.
Quando falo sobre a lei do mais forte, isso me faz lembrar do soviético Nikita Khrushchov que, em 1962, resolveu instalar mísseis na ilha de Cuba. John Kennedy deu ultimato e ameaçou que se ele insistisse, os Estados Unidos e a Europa iam invadir a Alemanha Oriental e o Leste Europeu. Nikita levou suas armas para casa.
Na guerra de invasão do território da Ucrânia, que já dura quatro anos, o russo Vladimir Putin, que incorporou o espírito tirano de Stalin, coloca como condição para fazer a paz, o território de Donesk. É uma verdadeira usurpação internacional e o presidente Volodymyr Zelensky, o mais fraco, fica pressionado entre as duas potências.
No jogo geopolítico, o safado xenófobo e neonazista do Trump comanda um acordo onde faz afago ao Putin num esquema entre os mais fortes. Trump apoia o Putin de olho numa possível invasão à ilha da Groelândia onde a Rússia não deve se envolver. O mesmo está acontecendo com a China que quer a ilha de Taiwan.
A Venezuela, que fez acordos comerciais e tecnológicos com a China e a Rússia, acredita que seus líderes vão ao seu socorro. Sempre prevaleceu, desde os primórdios das civilizações, a lei dos mais fortes, a força do imperialismo colonizador que massacrou e ainda massacra tribos e nações mais fracas.
A história está aí que não nos faz mentir e ela se repete, como nos tempos atuais entre os três maiores poderosos do mundo. A conversa entre eles deve ser nesse tom: Cada um fica com sua parte que lhe interessa e o resto a gente resolve comemorando. Trump deu um banquete para o príncipe saudita esquartejador de jornalista.
O Trump, por exemplo, está tentando impor a doutrina James Monroe, de 1823, quando proclamou “A América para os americanos” nos tempos do “Brasil dos Estados Unidos”. Com o pretexto de que potências europeias não deveriam mais colonizar ou intervir nas Américas, estabeleceu o hemisfério como área de influência dos EUA.
Essa doutrina foi usada para justificar intervenções norte-americanas em países da América Latina, como se fosse seu quintal. A Europa não podia invadir, mas eles sim, como ocorreu nos anos 50, 60 e 70 com os regimes ditatoriais apoiados pelas forças yanques.
Em contrapartida, de acordo com essa lei, os prepotentes e arrogantes dos norte-americanos que se consideram superiores enviados de Deus, não interfeririam nas guerras europeias ou nos assuntos internos de seus países, contanto que o resto das américas ficasse subjugado a eles.
A doutrina consolidou os EUA como o líder no continente americano, fazendo o que bem entendessem e assim invadiram vários países, como Panamá, El Salvador e outras nações da América Central. No início do século XX, o presidente Theodore Roosevelt expandiu a doutrina, dando aos yanques imperialistas o direito de intervir em países latino-americanos.
A frase “América para os americanos” serviu para justificar o imperialismo dos EUA na região e, como a história se repete, porque o panorama geopolítico pouco mudou, Trump está ressuscitando a estratégia da maligna doutrina, em resposta a influencias externas, como da Rússia e China.
Nós latino-americanos, infelizmente, continuamos sendo um quintal deles. Não consigo entender como o brasileiro de um modo geral idolatra os yanques, copia sua cultura de super-heróis, imita as festas e campanhas publicitárias comerciais, estrangeriza nossa língua, faz o papel de vira-lata e ainda se humilha para conseguir um passaporte de entrada naquele país de costumes e hábitos repugnantes.
Eles, que são analfabetos em geografia e conhecimentos gerais, nos tratam como índios e povos inferiores. Acham que aqui é terra de ninguém e até mijam em público quando chegam nos aeroportos. Eles só precisam de um simples visto para entrar no Brasil, enquanto os brasileiros são deportados algemados com correntes nos pés.
Em nome da democracia e da liberdade de expressão, os norte-americanos (no passado tomaram boa parte do México) invadem países, jogam bombas em territórios dos outros, massacram os mais fracos e apoiam terríveis ditaduras (Arábia Saudita) e facínoras genocidas que estão ao lado deles, como é o caso do primeiro ministro de Israel com relação às matanças de palestinos.
Os norte-americanos se acham deuses e o resto é eixo do mal, terroristas que precisam ser eliminados, quando, na verdade, são grupos de resistência. A mídia ocidental burguesa e também imperialista tem grande culpa nisso. Eles podem fazer terrorismo de Estado e assim não são classificados como tal.
QUANTO MENOS PENSAR, MELHOR!
Está difícil conviver hoje com as pessoas. Vivemos épocas cavernosas. A impressão que temos é que a humanidade aos poucos está voltando aos tempos das cavernas. Pode até ser pessimismo da minha parte. Muitos dizem que as coisas vão melhorar, mas não consigo acreditar nisso.
A velha geração das letras de conteúdo, de início, meio e fim, está se acabando, partindo para o além, e a nova faz questão do quanto menos pensar, melhor. Muitos colocam a culpa ao mundo da internet, das redes sociais de frase curtas e português errado, das abreviações das palavras e do besteirol, mas será que não está lá atrás quando começaram a definhar a educação? O conhecimento e o saber estão raquíticos!
Neste final de semana estava ouvindo uns vinis de Geraldo Vandré (Disparada, Pra que não dizer que falei das flores), Paulo Diniz (“E Agora, José” – Drummond), Zé Ramalho, com Avôha!, Caetano (Alegria, Alegria), Gilberto Gil (Domingo no Parque), Edu Lobo (Ponteio), Milton Nascimento (Travessia) e outros clássicos eternos dos saudosos festivais, de longas letras (muitas são aulas de história) que nos fazem refletir e têm sentido.
Naqueles tempos, muitos de hoje dirão se tratar de saudosismo, coisa de velho, as letras eram tão importantes, ou até mais, que as melodias musicais. Hoje, as músicas, se é que se pode chamar isso de músicas, são ritmos barulhentos, de letras de uma só estrofe, repetida várias vezes, com mulheres e homens rebolando no palco, e o artista é ovacionado por uma massa histérica que imita as coreografias e faz o papel de papagaio.
Existem letras de uma só frase e algumas com apenas duas palavras fazendo o maior sucesso em shows de multidões, e ainda chamam isso de festivais. A grande maioria não quer mais saber de letras longas, e até os artistas de conteúdo entraram nessa onda e rejeitam porque sabem que o público em geral não escuta mais o que se fala.
Tem gente hoje que sai do nada e de repente, de uma hora para outra, está nas paradas de sucesso, como um tal João Gomes e tantos outros. As duplas “sertanejas” são verdadeiras pragas daninhas, com letras curtas de sofrência e amor barato. Arrastam galeras jovens sem nenhum senso crítico.
As redes de televisão abraçam porque dá audiência e mais patrocínios, e na internet são milhões de visualizações. É um esquema bruto de jabás que se paga alto pelas divulgações. Com o baixo nível cultural, onde a juventude cai dentro e se afoga nas merdas, está bem mais fácil fazer sucesso e ganhar dinheiro.
Antigamente, aquela velha geração que me referi lá em cima, dava um duro danado, ralava e comia o pão que o diabo amassou, para ser reconhecido pelo público como grande artista. Passava um bom tempo de viola nos ombros virando a noite, de barzinho em barzinho, recebendo um cachê minguado.
Os nordestinos, hoje famosos, lá atrás, sem estrutura de mercado em suas capitais, iam para o Rio de Janeiro disputar na tora e na raça uma gravação nas grandes gravadoras, a maioria norte-americanas. Era tanta procura que tinha gente que pagava para gravar uma música. Lutavam bravamente por um espaço para divulgar suas obras.
A música, por ser mais atrativa, é apenas um exemplo de arte que sofreu essa decadência, mas as outras também padecem do mesmo “mal de siècle” do cada vez se pensar menos. Na literatura, são poucos os que se dedicam à leitura. A desculpa é que não têm tempo. Claro, o celular se tornou no deus mais idolatrado. A humanidade ficou mais imbecil.
Na maioria, os novos autores procuram fazer textos curtos, e os livros não passam de 150 páginas, no máximo, porque quase ninguém se debruça numa obra de 200 ou mais folhas. Até os livros didáticos são chochos. De poucas narrativas e muitos cortes.
Nas outras artes, a questão é semelhante, com poucos teatros, poucas danças, raras casas de espetáculos (em Vitória da Conquista estão fechadas) e não existem mais aquelas galerias e salões de artes plásticas, com algumas exceções em determinadas capitais. Os jovens preferem os shows de cantores, músicos e compositores que só parem lixo.
Diante de todo esse quadro de decadência cultural, de uma arte sem conteúdo que não é mais a mesma, como ter esperança de que as coisas vão melhorar? Muitos procuram pensar positivo, só porque ser negativo é pior e passa uma imagem de derrotismo.
É aquele negócio do faz de conta que tudo vai mudar para melhor. ”Que nada, cara, vamos pensar positivo”! Confesso que não consigo enganar a mim mesmo. Prefiro me comportar como um anormal, um estúpido ou bruto, fora desse eixo social maquiado, mesmo recebendo fortes críticas.
Estou nessa idade e não mais me incomodo com elas. Dentro das minhas condições, faço o possível para virar o jogo, mas já entramos no segundo tempo tomando de goleada. Necessitamos de muitos craques lá na frente para fazer gols, só que essa safra também está escassa. O técnico já fez de tudo e está rouco de tanto gritar! Só temos pernas de paus!
O “VELHO” E O “NOVO” DE BRAÇOS DADOS
Com todo respeito às crendices, superstições e ao sincretismo religioso, vou de branco, de azul, vermelho, amarelo, roxo ou preto, comer lentilhas, frango, carne de porco, pato, peru, ema ou ganso, para receber o “novo”, de braços dados com o “velho”. Não importa a cor ou a comida, se religioso ou profano.
Quando chegamos às vésperas do último dia do ano, festejamos essa passagem com o nome pomposo de “Réveillon” (Êta que adoramos mesmo estrangeirar e copiar a cultura alheia, ou alienígena), dizendo que estamos enterrando o velho, tanto que nos abraçamos e nos beijamos desejando um “Feliz e Próspero Ano Novo”.
É um ritual ancestral que já fazemos de forma maquinal, sem ao menos refletirmos que o velho, mesmo com seu paletó surrado, segue com o novo, que já nasce velho, porque no âmbito geral das formas política e social estabelecidas e do sistema vigente em que já vivemos, nada muda, a não ser fatos e acontecimentos novos que já fazem parte do nosso cotidiano. “Nada se cria, tudo se copia”.
No outro dia do primeiro do ano, como nos outros dias comuns do “velho”, os noticiários trazem fatos “novos” que acontecem no andar da carruagem da vida e muitos outros que já são velhos conhecidos da sociedade. Portanto, os dois continuam entrelaçados entre si como fios de corda no sentido latu sensus.
Isso de enterrar o “velho”, dele passar o bastão para o “novo”, só existe no nosso imaginário psicológico e é uma expressão que já sai automaticamente do nosso subconsciente. Sabemos que sem o velho ancestral, com suas aprendizagens, com seus erros e acertos, não nos renovamos para construir o novo.
Por sua vez, nem pensamos que cada ano que “enterramos”, ficamos mais velhos junto com a nossa data de aniversário. Um está atado ao outro. O “velho” leva muita coisa para o “novo” e o “novo” não vive sem o “velho”. Sem o “velho” não fazemos nossos planos, nossas metas e nossos sonhos, muitas deles não cumpridos que se tornam caducos durante o “novo”, que nada tem de novo.
Bastam de tantos firulas e trocadilhos de filosofia barata. A realidade é que sempre, de uma maneira ou de outra, estamos sempre condenando o “velho” quando afirmamos que queremos um “novo” melhor. Isso é natural porque o ser humano nunca está satisfeito com o que tem ou com o que recebeu e teve lá atrás. É por assim dizer, um ingrato das graças. Claro que no meio existiram desgraças.
Todos os anos temos catástrofes e tragédias humanas e da natureza, com suas tormentas, temporais, raios, vendavais, ciclones e tornados (cada vez mais crescentes devido ao aquecimento global); desmandos dos políticos corruptos e tiranos; guerras de bombas voadoras destruidoras; campanhas de doações; gestos de maldades e generosidades; crimes hediondos e ações que ainda alimentam nossa esperança e fé.
Tudo isso está no cardápio que o “velho” passa para o “novo”. As mudanças nos ingredientes e temperos para que a comida fique menos ou mais saborosa só dependem de nós. Não adianta lamentar porque o tempo continua se arrastando tinhoso e nem se atreva pedir para parar. Ele é o dono dos nossos destinos.
Mas, “vamos em frente que atrás vem gente”, meu amigo e, como dizia nosso cancioneiro, o Bob Dylan do Nordeste, ainda vivo (outros acham que é o Zé Ramalho), Geraldo Vandré, vamos embora que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Felicitações ao “velho” e um forte abraço ao “novo”, uma incógnita, que não seja aquele tipo amigo da onça.
CARTAS E ORAÇÕES DOS CANGACEIROS
Durante o período do cangaço, que durou praticamente um século no Nordeste, além dos seus apetrechos que carregavam, como chapéus de couro de aba dobrada, com estrelas de Salamão, cartucheiras, bornais bordados e outros utensílios de sobrevivência no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coronéis coiteiros e oficiais das volantes, e carregavam consigo suas orações (de grande valor) para protegê-las dos seus inimigos.
As cartas, em sua maioria, principalmente de Lampião, no auge do banditismo, nas décadas de 20 e 30, eram endereçadas através de um portador do seu grupo aos fazendeiros, com cobranças (na verdade eram taxas de pedágios de proteção), aos inimigos, com intimidações e até a oficiais chefes de polícia, com recados severos para que parassem com os armamentos e as perseguições.
Com o português, considerado por estudiosos como a verdadeira língua de Camões e Gil Vicente, Lampião mandou uma dessas cartas ao major Pedro Augusto, onde em determinado trecho diz: “Não acho direito é vocês estarem armados e juntando gente. Isto não está direito. Preciso dar passagem deste lugar e não quero alarme no Ceará! Não sou moleque para andar com histórias erradas”.
Em outra, ele encaminha uma corta para Antônio Mando, onde pede dois contos de réis. Espero isto sem falta agora alarmi e não mandi qui depois vae se sahir muito mal, resposta pelo mesmo portador sem mais, não falti olhi olhi, Capm Virgulino Ferreira vulgo Lampião”.
Para Elias Barbosa, ele enviou uma carta de advertência: “O Sr. está com Um peçoal Em arma contra mim, portanto, quero qui faça como homem, sahia da Rua e mi pegue”. Mais na frente diz que “Eu tenho comido toicinho com Mais cabelo”. No final, assina seu nome com vulgo Lampião u terror do Sertão. Para o sargento José Antônio do Nascimento, em 1926, manda uma bem desaforada.
Corisco também endereçou uma carta para o padre José Bulhões, em 1935, da freguesia de Santa do Ypanema. Esta foi inusitada porque o portador levava o filho do chefe que teve com sua mulher Dadá e pedia ao vigário que criasse o menino como se fosse o seu filho, da melhor forma que pudesse.
Também o Moita Braba enviou uma carta semelhante ao promotor Manuel Cândido, em 1937, pedindo que o magistrado criasse seu filho que teve com Sebastiana Rodrigues Lima. Interessante que ele assina como Coronel Moita Braba.
No inventário dos objetos apreendidos, feito pelo Regimento Policial Militar, foram encontrados os seguintes pertences de Lampião: Chapéu de couro com seis signos de Salomão e 55 peças de ouro; peças e moedas de ouro; mosquetão mauser, modelo 1908 de uso exclusivo do Exército Nacional; faca; cartucheira para 121 cartuchos; bornais; lenços vermelhos; pistola parabélum; luvas; cobertas; anéis de ouro e prata; óculos (armação de ouro); e um pacote de orações.
Com Lampião foram encontrados vários livrinhos de orações onde, segundo a crendice e o misticismo religioso nordestino, funcionavam para fechar seu corpo contra balas e facas. Em todas essas orações eram citados os nomes de Jesus Cristo e Deus e, em uma delas, misturavam-se narrações do Antigo e do Novo Testamento.
Com o cangaceiro estavam em seus bornais as orações Da Pedra Cristalina, onde pede que se o inimigo atirar saia água pelo cano da espingarda e se for faca que caia da sua mão; a oração do Salvador do Mundo, a mais longa, intercedendo concórdia entre ele e seus inimigos (mistura trechos do Antigo com o Novo Testamento) e cita Santo Miguel Arcanjo trocando nome e sobrenome, de frente para trás e de trás para frente; a oração Das Treze Palavras Dictas e Retomadas e; por fim, a oração De Nosso Senhor Jezuz Christo.
Todas essas cartas e orações foram publicadas pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, tendo como fonte o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde se acham ainda as orações das Virgem das Virgens (prodigiosa), da Beata Catharina e de Santo Agostinho, está muito utilizada por Lampião.
A MORTE ANUNCIADA DOS CASARÕES
(Chico Ribeiro Neto)
Passo na orla marítima de Salvador e vejo uns três casarões que vão virar prédio. A imensa placa está à frente dos casarões ostentando o novo nome da moradia que vai ser construída, uma moradia mais alta e, sem dúvida, mais apertada para caber muita gente. Onde tinha 10 vai ter 200.
Como um biombo que se coloca no quarto do paciente para mostrar que ele ainda não morreu – mas seu estado é grave -, a grande placa da construtora antecipa a morte dos casarões que ainda estão lá, firmes, com as janelas fechadas. A placa é uma tarja branca na frente deles, como uma mordaça para que não digam o que estão sentindo.
O mato ainda não começou a crescer e logo logo os tratores entrarão em ação. Num cantinho com ar-condicionado os corretores já estarão vendendo os apartamentos e fazendo milhões de cálculos de renda, sinal e prestação, enquanto os filhos dos compradores brincam com os carrinhos da maquete do prédio e ganham carão.
Você já viu derrubar um casarão? É um tropel de ferros, cabos de aço e picaretas. Extasiados, operários e populares assistem um trator derrubar uma parede em poucos segundos, enquanto o coração de quem morou lá já deve estar implodindo, mesmo tendo feito um bom negócio na venda do casarão. Resta o consolo de que uma casa velha tem coisas que nem derrubando saem.
Alguma cadeira ficará para o peão sentar e bater um dominó. Uma velha folhinha com fotos da Europa e rasgada no mês de maio servirá também para distrai-lo.
Muitos objetos foram deixados pelo canto, na pressa da saída. Num velho caderno de apostilas do vestibular o mestre-de-obra fica encantado com um poema de Chico Buarque. Por coincidência, ele abriu o caderno bem naquele lugar: “Amou daquela vez como se fosse a última…”
Logo após o início da obra, começam a chegar, de manhã cedo, vendedores de mingau, café, pastel e bolo, ocupam a frente do tapume, e aquela mão calejada e suja de areia recebe um pedaço de bolo pela abertura do tapume. Um guaraná litro ajuda a descê-lo e o feliz arroto dá a sensação de barriga cheia.
Prédio quase pronto, os primeiros moradores vão começar a chegar com o apartamento ainda no cimento. “Aquela mulher é muito enjoada, pois já está falando em derrubar parede”.
O peão recolhe rapidamente os pedaços de pão e a lata de sardinha, pois a madame quer ver também como é a cozinha.
Se pudesse, faria um apelo aos construtores: quando forem erguer um prédio no lugar de um casarão, não coloquem nenhuma placa na frente do moribundo. Esperem a retirada da última janela e o olhar de saudade do velho morador.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 17/07/91).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O PRESIDENTE QUE O BRASIL PRECISA PARA ACABAR COM A BANDIDAGEM
Diante desse quadro promíscuo em que vivemos na política polarizada, de tanto ódio e intolerância, muitas vezes ouvimos alguém dizer que precisamos de um presidente que seja poeta ou filósofo, para colocar este país no caminho da justiça social, da ética e da honradez. Antes de qualquer coisa, que seja honesto. Não importa se de esquerda ou de direita, não a extremista fascista fanática. O povo já não aguenta mais com tantos desmandos e bandidagens!
Às vezes, fico a pensar comigo mesmo de que precisamos de um presidente sem ambição em se perpetuar no poder ou fazer seu substituto. Um líder comandante que seja destemido e não tenha medo de perder o cargo, sem essa de fazer pacto com o diabo para manter a tal da governabilidade. Parece uma utopia, mas seria possível realizar a distopia desse sistema, não necessariamente com mão de ferro.
Não seria um presidente ditador, populista ou assistencialista, apenas que falasse democraticamente a língua do povo. Um presidente que tivesse a coragem de quebrar com todas essas amarras e alianças oportunistas velhacas e formasse o seu próprio ministério com pessoas competentes e comprometidas com o Brasil e não com seus interesses individuais. Um presidente destemido que suportasse as críticas.
Imagino um presidente que tivesse a coragem e a “valentia” de um sertanejo brabo para criticar, de peito aberto, dando nome aos bois, os bandidos que compõem a maioria desse Congresso Nacional de pervertidos, sem medo de ameaças de ser cassado. Um presidente que botasse a boca no trombone e falasse a verdade, doesse em quem doesse. Um cabra de “sangue no olho”.
Um presidente que por decretos ou projetos propusesse cortar todas as mordomias e orgias dessas três castas dos poderes executivo, judiciário e legislativo, mesmo que suas propostas fossem rejeitadas e criticadas por esses canalhas que vivem às custas dos trabalhadores. Que cortasse metade dos feriados e acabasse com essa pilantragem dos feriadões, os tais enforcamentos. Com certeza, mesmo que demorasse um pouco para entender suas posições, o povo ficaria ao seu lado e apoiaria suas medidas.
A grande maioria se engajaria nessa empreitada de fazer do Brasil um país sério, e não essa república de bananas. Entendo que o Brasil precisa de um presidente que apresente para toda população um projeto de reforma eleitoral que acabe de vez com esse coronelismo do voto, não esses projetos tampões ou remendos que esses embusteiros do Congresso aprovam em épocas eleitoreiras.
Queremos um presidente que procurasse, por todos os meios possíveis, derrotar essa cabroeira que faz da política um meio de vida e de negócio, inclusive elementos que se dizem de esquerda, mas não passam de aproveitadores da ingenuidade do povo. Um presidente que condenasse veementemente esse processo criminoso de emendas parlamentares.
Nada de fazer negociações esdruxulas para agradar as elites burguesas e oligarcas que sempre sugaram nossas riquezas e contribuíram para aprofundar as desigualdades sociais onde a miséria não passa de entulhos. Um presidente que combatesse esse agro predador e esse sistema financeiro selvagem.
Precisamos de um presidente sem esse jogo duplo, de ser mãe dos pobres e pai dos ricos. Basta de tanto dar, sem ensinar a pescar. Poderia até não ficar muito tempo no poder, mas ficaria para sempre na história como o presidente que enfrentou os dragões diabólicos e tentou acabar com o banditismo do colarinho branco e das organizações narcotraficantes que hoje estão de mãos dadas depenando nosso país.
Não é esse PT ou essa esquerda que aí está, que faz alianças com essa gente fedorenta facínora, que vai consertar o Brasil e exterminar esse câncer epidêmico da corrupção e da malandragem desembestada. Esse Governo está apenas abrindo a porteira para a boiada passar. Por que não mudar e enfrentar os malignos junto com o povo, sem acordos e pactos sujos?
POLITICAGEM PARA AGRADAR
Que me lembre, nestes mais de 34 anos em Vitória da Conquista, não via um recesso tão extenso e longo para os servidores públicos municipais, de duas semanas, com a grande maioria das secretarias fechadas. Pelo decreto da prefeita, só estão funcionando os serviços essenciais. No meu entendimento, todos são imprescindíveis para o cidadão. Trata-se de uma politicagem para agradar os funcionários, mas prejudicial aos usuários contribuintes que pagam altos impostos. Neste país e nesta Bahia, especialmente, já temos muitos feriados e feriadões que atrasam o desenvolvimento econômico e social, sem contar que é o período de mais gastanças e acidentes no trânsito, com aumento de mortes. São as épocas em que o sistema SUS fica sobrecarregado, com mais custos para o Tesouro. Na Bahia, por exemplo, as festas começam em início de dezembro e só terminam em março. O legislativo e o judiciário entram em recesso por dois meses, e agora vem o poder executivo de Conquista querendo fazer quase o mesmo. Tudo isso é muito bom para o setor de turismo em geral, como agências de viagens, transportes e hotéis. Do outro lado, deixa a classe com menor poder aquisitivo, que sempre está imitando o rico, ainda mais endividada. Vamos todos às farras e às favas para o trabalho.















