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:: 17/set/2020 . 23:17

O FIM E O NOVO

Poema do jornalista Jeremias Macário. Este e outros podem ser encontrados em seu novo livro “Andanças”

De um tempo fizeram fatias,

e para uma noite criaram fogos;

inventaram a dança dos códigos,

na língua divinha da quirologia,

das cartas viradas e dos tarôs,

para ir ao futuro do ar e da jia,

de sonhos melados de fantasias.

 

É o final das contas de um ano…

um novo a contar que se anuncia;

é a despedida da via gregoriana,

religiosa, dionisíaca e profana,

de um reino espártaco e romano,

decifrado pela suma quiromancia.

 

É mais o fim de um ano…

da hora pontual da terra ranger;

dos mortos-vivos ressuscitarem;

explodirem as luzes do show,

quando o seu relógio zerar,

para o pacto entre amor e dor.

 

É mais o fim de um ano…

e um novo de Jeová, ou de Alá;

do deus da orgia sodomitana,

do ritual celta  da bela cigana,

e do espírito cristão de se rezar.

 

Cada um pode fazer o seu fim,

para começar um outro novo,

com a cara pintada de humano,

nas águas desse imenso oceano,

onde vai se banhar nosso povo.

 

O novo pode ser o início do fim,

para quem não segue seus planos,

de se purificar dos apegos carnais;

dos caprichos capitais mundanos,

e não escolhe os simples portais.

 

Na sua taça fina da embriaguez,

borbulha o glamour da nudez,

girando o luxo em câmara lenta,

no ácido disfarçado de água benta.

 

Os foguetes dos canibais globais,

são explodidos em nossos quintais.

Os devotos fazem rituais viscerais,

de oferendas para seus orixás locais,

banhando todo de branco os litorais.

 

Os morros estendem os seus varais,

como se fossem concurso de festivais,

de pobres vistos como os anormais;

e a violência é manchete nos jornais.

 

No final se reparte o PIB desigual,

com a cara de um novo sujo imoral,

na disputa do Ocidente e do Oriente,

entre o Israel poderoso e o mulçumano,

vivendo todos na mira do Americano,

e que se dane a fome fatal do africano.

 

É o pipocar dos velhos espumantes,

na Paris milenar de seus viajantes,

nos mares lunares dos transatlânticos,

na companhia dos tarados amantes,

ou na Londres aristocrata imperial,

e na Atenas da sabedoria imortal,

derramando toda riqueza de um ano,

no consumo varado da compulsão,

enquanto nobres se fartam de brioche,

e os miseráveis ficam sem o seu pão.

No mosteiro do fim de ano,

ora o monge do alto monte tibetano,

pelo seu opressor filho das dinastias,

e na ilha das prisões de Guatânamo,

vivem acorrentadas de ódio as etnias.

 

Nem no fim, nem no novo,

se ouve o roncar da barriga vazia,

nem o apelo do santo peregrino,

para dividir parte dessa fortuna,

para matar a fome do nordestino,

e não derrubar a única baraúna.

 

A roleta da vida gira outra vez,

e passa o final, e passa o novo,

na rota mitológica de cada povo,

como dos heróis da mesopotâmia,

que têm que derrotar os monstros,

para livrar-se da saga cruel do caos:

matar o rei num sacrifício penoso,

para lavar todo pecado criminoso.

 

No novo da Pérsia e da Babilônia,

os escravos tomavam o assento

dos seus notáveis mestres das lidas,

para narrar e cantar seu lamento,

lambendo suas próprias feridas.

 

A Grécia celebrava o seu novo,

com a luta de Zeus contra Titã,

encenando uma liturgia pagã.

 

Os romanos festejavam a saturnália;

soltavam na arena a grande fera;

Cristo cortava o deserto de sandália,

para anunciar ao povo uma nova Era.

 

AS CONVENÇÕES ANTIDEMOCRÁTICAS

Fala-se tanto em democracia e pratica-se pouco no Brasil. Um exemplo mais claro e recente são as convenções partidárias onde as decisões são sempre tomadas de cima para baixo e não ao contrário, como rezam os discursos políticos. Este quadro antidemocrático está entranhado em todos os partidos, quer sejam de direita, de extrema, de centro ou de esquerda.

Como nas audiências que tratam de aprovação de projetos empresariais que vão impactar o meio ambiente, as medidas já são documentadas e levadas prontas, feitas por um comitê que já traçou todos os planos. Nas convenções, ainda é pior porque uma executiva partidária se reúne com outra e, em conversas reservadas de bastidores, resolve se coligar com o partido “A” ou “B”, e apresenta aos filiados e pré-candidatos justificativas pouco convincentes.

VOTAÇÃO EM PLENÁRIA

Por que as convenções, no momento exato do evento, não colocam em votação os pontos decisórios na plenária e seus membros homologam, ou não, com a aliança que foi feita lá atrás? A diretoria do partido apenas apresenta seus argumentos “estratégicos” que levaram a tomar aquela posição, e a grande maioria calada absorve a tabuada feita pelo grupo diretor.  Apenas alguns discordam, mas, a esta altura, tudo já está consumado e consolidado.

Como nos Estados Unidos, convenção é como um pacote de produtos misturados que já vem fechado e ali é aberto e distribuído entre os presentes, numa festa de falatórios onde não é bem-visto quem rejeita o item que lhe foi entregue. Sempre nesses pacotes existem as surpresas, por mais que se imagine que pode resultar naquilo que passou pela sua cabeça.

Portanto, as convenções partidárias, no formato em que são feitas, têm sido, em sua grande maioria, antidemocráticas porque, como já disse, elas são aprovadas de cima para baixo. Cálculos financeiros e outros não convencem quando eles contrariam os propósitos ideológicos e a coerência do partido ante seus membros e do eleitor que estava acreditando numa coisa e recebeu outra.

OS MESMOS ERROS

Continua-se repetindo os mesmos erros do passado, quando se deveria partir para uma renovação e mudança em prol do fortalecimento do partido que, infelizmente, no Brasil virou agrupamento de interesses escusos de terceiros. Muito se explica e pouco se convence. Nesse panorama político, fica difícil para a pessoa bem-intencionada e séria entrar na política para fazer a diferença. Os bons terminam ficando de fora porque o sistema é bruto.

Outra questão impressionante nessas convenções, novamente volto a me referir aqui, seja qual for a linha ideológica, são as semelhanças nos discursos. Todos são de cunho socialista, no mesmo nível, que falam de cuidar da gente desamparada, do povo, de inclusão, de investir nos mais pobres e reduzir as desigualdades sociais através de programas públicos voltados para a distribuição de rendas.

Todos prometem defender mais espaço para as mulheres, para os negros, os homossexuais, os deficientes e as chamadas minorias em geral. Na aparência, todos estampam uma linha avançada de esquerda progressista e ai embola o meio de campo, como acontece em nosso futebol.

Acontece que lá na frente, quando saem vitoriosos, as posições de esquerda e de direita vão se afunilando, ficando mais visíveis em seus atos e comprometimentos. Como na análise do cientista biólogo e fisiologista, Jared Diamond, em seu livro “Armas, Germes e Aço”, as eleições nas tribos centralizadas e nos Estados terminam na cleptocracia, isto é, o poder do mais ricos e poderosos, que são os verdadeiros beneficiários. O povo termina sendo relegado a segundo, ou terceiro plano.





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