{"id":9991,"date":"2024-11-08T00:34:56","date_gmt":"2024-11-08T03:34:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9991"},"modified":"2024-11-08T00:35:02","modified_gmt":"2024-11-08T03:35:02","slug":"o-matuto-e-a-tecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/11\/08\/o-matuto-e-a-tecnologia\/","title":{"rendered":"O MATUTO E A TECNOLOGIA"},"content":{"rendered":"<p>Tudo hoje \u00e9 movido pela tecnologia que est\u00e1 destruindo o pr\u00f3prio homem, embora ela tenha suas vantagens de facilitar a vida, conforme se extrai das opini\u00f5es praticamente un\u00e2nimes. Disso quase todos sabem, mas agora imagine um matuto que sai do seu sert\u00e3o agreste e se mete em visitar a capital.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu com seu Carmerindo que juntou um dinheiro da venda de seus produtos da ro\u00e7a e botou na cabe\u00e7a que ia conhecer a cidade grande, aquela que ele via passar na televis\u00e3o e ouvia falar naquele r\u00e1dio modelo antigo que seu pai lhe deixara como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>A mulher chamou ele de maluco, mas o cabra tinhoso arrumou a mala com algumas pe\u00e7as de roupa e uma boa grana para se hospedar num bom hotel. Seu compadre, que at\u00e9 tinha vontade de tamb\u00e9m fazer aquela aventura, o incentivou e foi logo dizendo que com dinheiro tudo ia dar certo. Carmerindo \u00e9 mesmo um sonhador.<\/p>\n<p>A viagem foi longa passando de cidade em cidade at\u00e9 desembarcar na capital. Seu Carmerindo, com seu chap\u00e9u de couro t\u00edpico nordestino ficou assustado com aquele formigueiro de gente pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Uma correria dos infernos \u2013 imaginou.<\/p>\n<p>O motorista malandro ao ver aquela figura esquisita se aproximou com seu papo envolvente e se prontificou a lhe arrumar um carro para lhe levar ao hotel, cujo nome trazia escrito no papel em seu bolso. Tinha alguma coisa ligada com citytur, coisa de gente chique.<\/p>\n<p>Os carros cortavam velozes entre avenidas, viadutos e arranha-c\u00e9us de concreto. Seu Carmerindo ficou deslumbrado enquanto o cara rodava com ele dando voltas fora do itiner\u00e1rio para lhe cobrar um pre\u00e7o bem mais caro at\u00e9 chegar ao ponto marcado.<\/p>\n<p>Agradeceu a \u201cgentileza\u201d com um aperto de m\u00e3o, pagou em dinheiro vivo e se dirigiu \u00e0quela porta de vidro que como m\u00e1gica se abriu sozinha antes dele encostar a m\u00e3o. O matuto ficou espantado e at\u00e9 se sentiu importante. Lembrou da conversa que teve com o compadre sobre ter o dinheiro, de que tudo podia.<\/p>\n<p>Ao entrar, com aquele traje de tabar\u00e9u do campo, ficou ali parado sem saber para onde ir, mas Carmerindo era destemido. Vendo aquele estranho, o \u201cfardado\u201d empregado pediu que ele se retirasse do recinto.<\/p>\n<p>&#8211; Mo\u00e7o, s\u00f3 quero um quarto parta ficar e tenho dinheiro para pagar. Vim conhecer a capital e ver o mar pela primeira vez.<\/p>\n<p>&#8211; Passe por aquela porta girat\u00f3ria e fale com um dos nossos atendentes atr\u00e1s da mesa.<\/p>\n<p>Ele pensou que esse neg\u00f3cio de girat\u00f3ria n\u00e3o cai bem em sua terra e ficou cismado, mas, como j\u00e1 estava ali tinha que seguir em frente. Meio troncho e se batendo, saiu do outro lado e viu aquela gente atr\u00e1s de umas m\u00e1quinas, como se fossem rob\u00f4s.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Boa tarde, venho l\u00e1 do meu sert\u00e3o onde o sol brilha todo dia e o orvalho cai na madrugada. Com os primeiros raios sempre dizemos Deus seja louvado.<\/p>\n<p>O recepcionista, que nunca tinha presenciado aquela cena inusitada, deu uma boa tarde impercept\u00edvel de gente fria e de pouca sensibilidade humana. Esse pessoal pouco rir e for\u00e7a uma falsa educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mo\u00e7o, quero um quarto para pernoitar e esticar as pernas depois de uma longa viagem calorenta. Quanto pago?<\/p>\n<p>O pre\u00e7o lhe deixou meio zonzo, mas n\u00e3o dava mais para recuar. O recepcionista fez sua ficha, como nome, profiss\u00e3o, endere\u00e7o e outros protocolos costumeiros. Depois, deu-lhe um cart\u00e3o magn\u00e9tico com as instru\u00e7\u00f5es para pegar o elevador e abrir a porta do apartamento. Antes, por\u00e9m, lhe perguntou a forma de pagamento, se no cart\u00e3o, pix ou atrav\u00e9s de aplicativo.<\/p>\n<p>Pelo andamento da carruagem, n\u00e3o vai tardar o desaparecimento do dinheiro em esp\u00e9cie, n\u00e3o mais caixas eletr\u00f4nicos e nem essa coisa de banco onde as pessoas naquelas enormes filas v\u00e3o resolver seus \u201cpepinos\u201d. Tudo vai ser via internet. Profiss\u00e3o de banc\u00e1rio vai se acabar com essa tal de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 no dinheiro mesmo, e abriu um pacote que trazia em sua mala de couro cru. Nem sei que tro\u00e7os s\u00e3o esses que o senhor est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>Seu Carmerindo deu aquele pulo para tr\u00e1s e pediu uma chave, daquelas que voc\u00ea coloca na fechadura e abre rapidinho.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o usamos mais isso, meu cidad\u00e3o. \u00c9 uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a. Tudo hoje \u00e9 comandado pela tecnologia.<\/p>\n<p>Coisa do diabo dessa tecnologia moderna que se v\u00ea nas propagandas \u2013 lembrou daquelas imagens. Como foi orientado, no elevador ele introduziu o cart\u00e3o naquela fresta, mas nada do elevador obedecer a ordem de comando. Acende uma luz verde, mas nada.<\/p>\n<p>O matuto sai de l\u00e1 virado no m\u00f3i de centro ou do c\u00e3o e suado come\u00e7a a esbravejar. Nesses hot\u00e9is de hoje n\u00e3o existem mais aqueles carregadores de mala que lhe levava at\u00e9 o andar, abria a porta, entrava e ainda ensinava como ligar a televis\u00e3o e o ar condicionado. \u00c9 a m\u00e1quina substituindo a m\u00e3o-de-obra.<\/p>\n<p>Furioso, joga o maldito cart\u00e3o na mesa e sai arretado pela mesma porta girat\u00f3ria. De t\u00e3o puto da vida pegou o primeiro taxi na porta do hotel e naquele tr\u00e2nsito maluco se picou para a rodovi\u00e1ria, sem nem olhar para tr\u00e1s. No entanto, para n\u00e3o perder a viagem, pediu ao condutor para ver o mar, como era o seu desejo.<\/p>\n<p>Pensou consigo mesmo que aquilo ali era coisa de doido e nunca mais iria pisar os p\u00e9s numa capit\u00e1. Bom mesmo de viver feliz \u00e9 na nossa terrinha onde se ouve o canto dos p\u00e1ssaros ao amanhecer, o berro da vaca e a chuva molhar o ch\u00e3o para a semente germinar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo hoje \u00e9 movido pela tecnologia que est\u00e1 destruindo o pr\u00f3prio homem, embora ela tenha suas vantagens de facilitar a vida, conforme se extrai das opini\u00f5es praticamente un\u00e2nimes. Disso quase todos sabem, mas agora imagine um matuto que sai do seu sert\u00e3o agreste e se mete em visitar a capital. 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