{"id":9932,"date":"2024-10-17T23:37:33","date_gmt":"2024-10-18T02:37:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9932"},"modified":"2024-10-17T23:37:38","modified_gmt":"2024-10-18T02:37:38","slug":"casos-e-causos-de-tropeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/10\/17\/casos-e-causos-de-tropeiros\/","title":{"rendered":"CASOS E CAUSOS DE TROPEIROS"},"content":{"rendered":"<p>Bons tempos aqueles onde os tropeiros eram os caminhoneiros de hoje. N\u00e3o existiam estradas asfaltadas, s\u00f3 de ch\u00e3o, e algumas eram veredas e trilhas pelos matagais e despenhadeiros \u00edngremes. N\u00e3o haviam postos cobertos de paradas e sim pontos estrat\u00e9gicos de \u00e1rvores e \u00e0 beira de riachos, para dar uma arriada nos burros e fazer um rango.<\/p>\n<p>Mesmo assim, existiam os salteadores e roubos de cargas por bandidos nos pontos mais perigosos, como ocorrem nos tempos modernos, se bem que a viol\u00eancia era bem menor, na grande maioria das vezes sem essas crueldades com mortes, sequestros e torturas. Os tropeiros corriam muitos riscos, sem contar as intemp\u00e9ries do tempo.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o entre uma cidade e outra era dif\u00edcil e chegava com dias e meses de atraso. Hoje com a internet \u00e9 tudo instant\u00e2neo. Al\u00e9m da grande variedade de g\u00eaneros aliment\u00edcios, como a\u00e7\u00facar mascavo, aguardente, vinagre, vinho, azeite, bacalhau, peixe seco, queijo, produtos importados da Europa e at\u00e9 gado, os tropeiros tamb\u00e9m transportavam not\u00edcias.<\/p>\n<p>Entre as regi\u00f5es, esses desbravadores ainda comercializavam mulas e cavalos, como faziam os ciganos. Muitas vezes eles se cruzavam nos caminhos e era aquela confus\u00e3o porque a etnia cigana sempre foi vista, desde os tempos coloniais, com desconfian\u00e7a e discrimina\u00e7\u00e3o. Tinham a mancha de ladr\u00f5es e malfeitores. Entre eles quase n\u00e3o rolavam neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Os tropeiros eram nossos rep\u00f3rteres jornal\u00edsticos, e as informa\u00e7\u00f5es, muitas vezes, chegavam truncadas, deturpadas e com mentiras que iam se espalhando. Eram casos e causos de forma presencial. Atualmente s\u00e3o virtuais que se propagam mais r\u00e1pidas que rastilhos de p\u00f3lvoras. As fake news de hoje s\u00e3o mais perigosas, intencionais e ofensivas.<\/p>\n<p>Por falar em casos e causos, quando era menino molecote e morava na ro\u00e7a \u00e0 beira de uma rodovia de cascalho l\u00e1 no sert\u00e3o de Piritiba, lembro muito bem desses grupos de tropeiros que passavam em minha porta. Ah, que saudades daqueles tempos quando ainda se sentia o calor humano!<\/p>\n<p>Final de tarde eles chegavam e pediam o rancho para meu pai que os acolhia com muito prazer porque tamb\u00e9m adorava prosear e contar est\u00f3rias e hist\u00f3rias de gentes do mundo dos vivos e dos mortos. Ariavam as bruacas de couro, alforjes e outros pertences dos burros e mulas; soltavam os animais cansados e suados na pastagem e a\u00ed cuidavam logo de acender um fogo para assar a carne seca, fazer o caf\u00e9 e cozinhar alguma coisa.<\/p>\n<p>Mesmo pobre e roceiro vivendo das adversidades das secas, quando tinha, meu pai entrava na roda com um aipim, a batata e farinha. Estava feito o banquete do fogo a lenha, uma trempe, para come\u00e7ar os casos e causos. Eu adorava ouvir essas conversas at\u00e9 tarde da noite, melhor ainda nas fases de lua cheia que prateava todo terreiro.<\/p>\n<p>Ah, existiam alguns tropeiros que traziam consigo uma viola, uma sanfona ou outro instrumento para cantarolar aquelas m\u00fasicas antigas de raiz que falavam dos costumes e h\u00e1bitos do povo, maioria das vezes nordestino. Muitos vinham cortando a Chapada Diamantina e outros eram provenientes de Feira de Santana e at\u00e9 do Rec\u00f4ncavo.<\/p>\n<p>O que eu achava bom mesmo \u00e9 ouvir os casos e causos dos tropeiros com meu pai. Iam dos coron\u00e9is valent\u00f5es e seus capangas que surravam seus trabalhadores; tomavam terras; e mandavam matar quem resistia suas ordens. Figuravam ainda nos papos, as hist\u00f3rias do canga\u00e7o de Lampi\u00e3o, da Coluna Prestes, mo\u00e7as virgens que se perdiam, retirantes das secas, de gente usur\u00e1ria mesquinha, at\u00e9 de vis\u00f5es de fantasmas (assombra\u00e7\u00f5es) que apareciam nas bocas das noites.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltavam tamb\u00e9m as lendas folcl\u00f3ricas brasileiras da mula sem cabe\u00e7a que tinha fogo no lugar da cabe\u00e7a e vivia entre cavalos e vacas, o boitat\u00e1, curupira, o boto-cor-de-rosa, caboclo d\u00b4\u00e1gua, negrinho do pastoreio, o saci perer\u00ea, a cuca, a caipora e do lobisomem.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo personagem me deixava mais com medo e algum tropeiro contava que conhecia uma pessoa que virava lobisomem em noite de sexta-feira de lua cheia. Bom tamb\u00e9m era ouvir os fatos escabrosos que aconteciam em outras cidades, de trai\u00e7\u00e3o de mulheres e fam\u00edlias que se matavam por quest\u00f5es de terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bons tempos aqueles onde os tropeiros eram os caminhoneiros de hoje. N\u00e3o existiam estradas asfaltadas, s\u00f3 de ch\u00e3o, e algumas eram veredas e trilhas pelos matagais e despenhadeiros \u00edngremes. 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