{"id":9766,"date":"2024-08-13T23:55:06","date_gmt":"2024-08-14T02:55:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9766"},"modified":"2024-08-13T23:55:14","modified_gmt":"2024-08-14T02:55:14","slug":"disse-que-nao-sabia-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/08\/13\/disse-que-nao-sabia-da-ditadura\/","title":{"rendered":"DISSE QUE N\u00c3O SABIA DA DITADURA"},"content":{"rendered":"<p>A princ\u00edpio n\u00e3o se deve comemorar a morte de nenhum ser humano, mas n\u00e3o concordo com bajula\u00e7\u00f5es depois que a pessoa se vai para o outro al\u00e9m. Tem gente que passa na vida e n\u00e3o deixa rastros, uns s\u00e3o controversos e pol\u00eamicos, outros deixam bondade e generosidade, tem os malfeitores e ainda aqueles que se eternizam em suas obras culturais, seja na m\u00fasica, na literatura, no teatro e demais linguagens art\u00edsticas.<\/p>\n<p>No caso particular, estou me referindo ao falecimento do economista Delfim Neto, com 96 asnos, que o conheci pessoalmente nas minhas lidas jornal\u00edsticas como rep\u00f3rter de economia do jornal A Tarde nos anos 70, 80 e in\u00edcio dos 90 quando vim para chefiar a Sucursal de Vit\u00f3ria da Conquista, precisamente em abril de 1991.<\/p>\n<p>Pois bem, o Delfim j\u00e1 morreu e n\u00e3o pode mais se defender, mas acho uma cara de pau declarar numa entrevista ao jornalista Pedro Bial que n\u00e3o sabia da exist\u00eancia de uma ditadura no Brasil, e mais, que nunca falou que \u201cdevemos primeiro crescer o bolo para depois dividir\u201d, como forma de distribui\u00e7\u00e3o de renda para os brasileiros.<\/p>\n<p>Que ele era pol\u00eamico e controverso n\u00e3o existem d\u00favidas quanto a isso, mas negar a exist\u00eancia de uma ditadura naqueles anos de chumbo \u00e9 subestimar demais a intelig\u00eancia dos outros, principalmente partindo de um homem t\u00e3o inteligente como era, que fazia parte do staff de ministros nos governos militares de Costa e Silva, M\u00e9dici e Jo\u00e3o Figueiredo.<\/p>\n<p>O mais incr\u00edvel \u00e9 que Delfim foi um, entre outros do governo de Costa e Silva, que assinou o AI-5 naquele fat\u00eddico 13 de dezembro de 1968, que eliminava por completo todos direitos humanos, fechava o Congresso Nacional e proibia, na base da for\u00e7a, a liberdade de express\u00e3o. Naquela \u00e9poca, o fato de duas pessoas conversando j\u00e1 era considerado como reuni\u00e3o, e uma reuni\u00e3o era conspira\u00e7\u00e3o pass\u00edvel de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Com toda sua intelig\u00eancia sagaz e astuta, ele assinou um decreto sem ler ou um papel em branco? Como ministro de v\u00e1rios governos n\u00e3o sabia o que estava acontecendo? Naqueles anos, at\u00e9 um adolescente de 14 ou 15 anos sabia que o Brasil vivia uma ditadura civil-militar-burguesa. O argumento de que n\u00e3o se comentava isso entre os ministros beira a uma inoc\u00eancia incalcul\u00e1vel, e at\u00e9 um analfabeto n\u00e3o acredita nesse sofismo singular.<\/p>\n<p>Quanto a \u201cvamos fazer crescer o bolo da economia para depois dividir\u201d, eu sou testemunha viva da sua voz quando cobria suas palestras a empres\u00e1rios em hot\u00e9is de luxo em Salvador e em entrevistas coletivas jornal\u00edsticas. Com isso, engordou os cofres das empresas e deixou o povo mais pobre, sobretudo o trabalhador que n\u00e3o tinha direito de protestar (os sindicatos eram amorda\u00e7ados) e era explorado. N\u00f3s jornalistas tomamos muitas cotoveladas de seus seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>Com todo esse papo, Delfim Neto, o mais jovem dos ministros, foi o grande mentor da miragem do milagre brasileiro de crescimento de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) e sustent\u00e1culo do regime.\u00a0 Foi a \u00e9poca dos petrod\u00f3lares \u00e1rabes que entraram no Brasil e deixou o pa\u00eds endividado na crise do petr\u00f3leo nos anos 1978\/79.<\/p>\n<p>Como jornalista, cobri e acompanhei de perto todos aqueles fatos. Tudo n\u00e3o passava de uma farsa e maquiagem de dados, enquanto nos por\u00f5es da ditadura centenas de presos pol\u00edticos eram torturados, mortos e desaparecidos. D\u00e1 para acreditar que ele n\u00e3o sabia que exista ditadura? Essa \u00e9 mais uma face do que foi o regime.<\/p>\n<p>Os grandes contratos de obras, como a Rodovia Transamaz\u00f4nica fracassada, que massacrou nossos \u00edndios, linhas f\u00e9rreas, ponte Rio -Niteroi, Hidrel\u00e9trica Itaipu e tantas outras eram dados aos amigos dos generais, muitos deles colaboradores do regime, que encheram as burras de dinheiro e contribu\u00edram para aumentar mais ainda a concentra\u00e7\u00e3o de renda. Ali\u00e1s, ainda convivemos com a heran\u00e7a daqueles tempos. N\u00e3o nos fa\u00e7a de bestas e idiotas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A princ\u00edpio n\u00e3o se deve comemorar a morte de nenhum ser humano, mas n\u00e3o concordo com bajula\u00e7\u00f5es depois que a pessoa se vai para o outro al\u00e9m. 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