{"id":973,"date":"2015-06-09T22:35:01","date_gmt":"2015-06-10T01:35:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=973"},"modified":"2015-06-09T22:35:08","modified_gmt":"2015-06-10T01:35:08","slug":"escravidoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2015\/06\/09\/escravidoes\/","title":{"rendered":"ESCRAVID\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>Blog Refletor \u00a0 TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p>De Orlando Senna<\/p>\n<p>Indicado por Itamar Aguiar<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe quando e onde teve in\u00edcio o crime da escravid\u00e3o, do ser humano roubar a liberdade de outro, transformando-o em uma ferramenta de trabalho ou para qualquer uso (militar e sexual entre eles). Na Antiguidade era um costume considerado normal, uma pr\u00e1tica considerada inerente \u00e0 nossa esp\u00e9cie, um direito. Foi a base da economia de todas as civiliza\u00e7\u00f5es daquela \u00e9poca, da China, \u00edndia, Mesopot\u00e2mia, Gr\u00e9cia, Egito e da riqueza e poder do Imp\u00e9rio Romano. Os antigos hebreus e \u00e1rabes tinham escravos, mencionados na B\u00edblia e no Alcor\u00e3o. Na Idade M\u00e9dia a pr\u00e1tica era tida como o \u00fanico formato econ\u00f4mico capaz de manter o equil\u00edbrio social e os europeus e asi\u00e1ticos souberam que a escravid\u00e3o tamb\u00e9m era praticada, h\u00e1 mil\u00eanios, pelas tribos da \u00c1frica e da Am\u00e9rica pr\u00e9-colombiana.<\/p>\n<p>Essa informa\u00e7\u00e3o inspirou uma nova modalidade para o grande neg\u00f3cio: a escravid\u00e3o racial. Antes os escravos eram os nativos de pa\u00edses ou regi\u00f5es invadidos e dominados por outros povos. Agora n\u00e3o precisava invadir e dominar, era s\u00f3 capturar pessoas. A escravid\u00e3o racial mostrou-se super vantajosa para os comerciantes europeus de escravos: milhares de chineses e milh\u00f5es de africanos foram aprisionados e vendidos na Europa e nas Am\u00e9ricas (bom neg\u00f3cio tamb\u00e9m para os comerciantes de escravos da \u00c1frica e da China). A aplica\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o racial com os nativos das Am\u00e9ricas, ditos ind\u00edgenas, n\u00e3o deu muito certo porque eles estavam em seu territ\u00f3rio e, por isso, sabiam escapar do terr\u00edvel destino.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o e essa \u201clegitimidade\u201d da escravid\u00e3o s\u00f3 foi repensada no s\u00e9culo XVIII, a partir do Iluminismo europeu, movimento cultural que buscava a racionalidade individual, a independ\u00eancia de pensamento (\u201cter coragem para fazer uso da pr\u00f3pria raz\u00e3o\u201d, escreveu Kant) e resultou no florescimento de ideias e for\u00e7as progressistas. Entre elas uma forte milit\u00e2ncia abolicionista que levou os pa\u00edses europeus a proibir a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more-->Esta semana algumas institui\u00e7\u00f5es brasileiras celebraram o 127\u00ba anivers\u00e1rio da Lei \u00c1urea, a aboli\u00e7\u00e3o total da escravid\u00e3o no Brasil assinada pela Princesa Isabel, Regente do Imp\u00e9rio, em 13 de maio de 1888. Vale a pena celebrar e vale tamb\u00e9m a pena lembrar que o Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do Ocidente a abolir a escravid\u00e3o, sob intensa press\u00e3o da Inglaterra para que fizesse isso. Calcula-se em cerca de quatro milh\u00f5es os escravos trazidos da \u00c1frica para o Brasil. Al\u00e9m da longevidade (quase quatro s\u00e9culos), outra caracter\u00edstica do regime escravocrata brasileiro \u00e9 que foi abolido pouco a pouco: primeiro a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico, depois a alforria dos filhos das escravas (Ventre Livre), depois a dos escravos sexagen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Esse passo a passo ocasionou o surgimento das Casas de Reprodu\u00e7\u00e3o, de f\u00e1bricas de escravos: galp\u00f5es com dezenas de mulheres negras cuja obriga\u00e7\u00e3o era engravidar e parir sem parar, sendo \u201ccobertas\u201d a cada dez ou onze meses por escravos saud\u00e1veis e fortes, escolhidos a dedo, os garanh\u00f5es. Cito esse aspecto na tentativa de passar uma ideia do horror daquela sociedade, daquele tempo.<\/p>\n<p>Horror \u00e9 a deixa para voltar ao nosso tempo. Durante os s\u00e9culos XIX e XX todos os pa\u00edses proibiram a escravid\u00e3o, o \u00faltimo foi a Maurit\u00e2nia, em 1981. Todos menos um: o Sud\u00e3o. Nesse pa\u00eds africano e isl\u00e2mico, membro da ONU, da Liga \u00c1rabe e da Uni\u00e3o Africana, continua sendo legal fazer, ter, comprar e vender escravos. \u00c9 como um enclave cultural da Idade M\u00e9dia no s\u00e9culo XXI. Outro aspecto horripilante da atualidade \u00e9 que a escravid\u00e3o, embora proibida e coibida, continua existindo na ilegalidade em v\u00e1rios pa\u00edses, principalmente na \u00c1sia e na \u00c1frica mas tamb\u00e9m em bols\u00f5es americanos, como a escravid\u00e3o rural no Brasil (cerca de 20 mil trabalhadores foram libertados pelas pol\u00edcias federal e estaduais desde o ano 2000), e europeus, como a escravid\u00e3o sexual operada na regi\u00e3o dos B\u00e1lc\u00e3s, envolvendo nos \u00faltimos anos 140 mil mulheres.<\/p>\n<p>Para terminar, em dezembro do ano passado a ONU informou que cerca de 21 milh\u00f5es de pessoas \u201cest\u00e3o sujeitas a formas modernas de escravid\u00e3o, que atinge principalmente mulheres e crian\u00e7as\u201d.\u00a0\u00c0s vezes fica dif\u00edcil, mas \u00e9 o jeito, concordar com o poeta romano Ter\u00eancio, \u201csou um homem, nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho\u201d. Em latim soa melhor: \u201chomo sum, nihil humani a me alienum puto\u201d.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s Doutor em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 em 2014, pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blog Refletor \u00a0 TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina De Orlando Senna Indicado por Itamar Aguiar Ningu\u00e9m sabe quando e onde teve in\u00edcio o crime da escravid\u00e3o, do ser humano roubar a liberdade de outro, transformando-o em uma ferramenta de trabalho ou para qualquer uso (militar e sexual entre eles). 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