{"id":9663,"date":"2024-07-12T22:13:09","date_gmt":"2024-07-13T01:13:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9663"},"modified":"2024-07-12T22:13:18","modified_gmt":"2024-07-13T01:13:18","slug":"ha-homens-que-nada-sao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/07\/12\/ha-homens-que-nada-sao\/","title":{"rendered":"&#8220;H\u00c1 HOMENS QUE NADA S\u00c3O&#8230;&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em \u201cAssim Falava Zaratustra\u201d, de Nietzsche, no cap\u00edtulo \u201cDa Reden\u00e7\u00e3o\u201d, ele conta que um dia Zaratustra passava por uma ponte onde estavam \u201daleijados\u201d, mendigos e um corcunda. Eles disseram que passaram a acreditar nos ensinamentos de Zaratustra.<\/p>\n<p>No entanto, perguntaram se Zaratustra podia curar os cegos, fazer andar os paral\u00edticos e aliviar um tanto o que leva \u00e0s costas carne demais. Ele respondeu: \u201cQuem tira da corcunda sua corcunda, tira-lhe ao mesmo tempo o esp\u00edrito. Quem restitui a vista ao cego, este passa a ver na terra demasiadas coisas m\u00e1s. Passa a maldizer aquele que lhe curou\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, disse ter visto coisas bem piores, mas de uma n\u00e3o conseguia deixar de falar, dos homens a quem falta tudo. Foi a\u00ed que concluiu que \u201ch\u00e1 homens que nada s\u00e3o, a n\u00e3o ser um grande olho, uma grande boca, ou um grande ventre&#8230; A esses chamo de \u201caleijados\u201d \u00e0s avessas\u201d.<\/p>\n<p>Quando saia de sua solid\u00e3o ele atravessava pela primeira vez a ponte e n\u00e3o deu muito cr\u00e9dito para o que viu, mas n\u00e3o parou de olhar. Ent\u00e3o, disse: \u201cIsto \u00e9 uma orelha do tamanho de um homem! Por tr\u00e1s dela movia-se algo t\u00e3o pequeno, mesquinho e d\u00e9bil que dava d\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOlhando atrav\u00e9s de uma lente ainda se podia reconhecer um semblante min\u00fasculo e invejoso, uma alma vaidosa&#8230;\u201d O povo dizia que a orelha era de um grande homem. \u201cEu, por\u00e9m, nunca acreditei no povo quando falava de grandes homens e continuei a acreditar que se tratava sim de um \u201caleijado\u201d \u00e0s avessas que tinha pouco de tudo e uma coisa em demasia\u201d.<\/p>\n<p>Em sua narrativa sobre reden\u00e7\u00e3o, Zaratustra exclamou: \u201cMeus amigos, ando entre os homens como entre fragmentos e peda\u00e7os de homens\u201d. O mais espantoso, segundo ele, \u00e9 v\u00ea-los destro\u00e7ados e desconjuntados. S\u00e3o eles fragmentos, peda\u00e7os, mas n\u00e3o homens.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo, o presente e o passado s\u00e3o os mais insuport\u00e1veis. H\u00e1 de vir uma ponte para o futuro. O povo perguntava quem era Zaratustra, e ele respondeu a pergunta com outras perguntas: \u201c\u00c9 um homem que promete? Ou que cumpre? Um conquistador? Ou um herdeiro? Um outono? Ou uma relha de arado? Um M\u00e9dico? Ou um convalescente? \u00c9 um poeta? Ou algu\u00e9m que diz a verdade? Um libertador? Ou um dominador? Um bom? Ou mau?\u201d<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de se dizer j\u00e1 era, que se diga assim quis &#8211; ensinava. \u201cA isto eu chamaria de reden\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cVontade, assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria. Esse foi meu ensinamento, meus amigos. A pr\u00f3pria vontade \u00e9 ainda escrava\u201d.<\/p>\n<p>Para Nietzsche, o querer liberta, mas como se chama aquele que aprisiona o pr\u00f3prio libertador? A vontade n\u00e3o pode querer para tr\u00e1s. N\u00e3o pode aniquilar o tempo, e o desejo do tempo \u00e9 sua mais solit\u00e1ria afli\u00e7\u00e3o\u201d. Mais adiante, alerta que sua raiva acumulada \u00e9 que o tempo n\u00e3o retrocede. O que foi j\u00e1 foi, assim se chama a pedra que a vontade n\u00e3o pode remover.<\/p>\n<p>Remover pedra e vingar-se, para ele, \u00e9 uma vontade libertadora que se torna mal\u00e9fica e vinga-se de tudo o que \u00e9 capaz de sofrer, por n\u00e3o poder voltar para tr\u00e1s. \u201c\u00c9 a vingan\u00e7a contra o que j\u00e1 foi, o ressentimento da vontade. Vive-se uma grande loucura em nossa vontade. E a maldi\u00e7\u00e3o de todo humano \u00e9 que essa loucura aprendeu a ter esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTudo passa e tudo merece passar, e \u00e9 a pr\u00f3pria justi\u00e7a, essa lei do tempo, que o obriga a devorar seus pr\u00f3prios filhos. As coisas s\u00e3o ordenadas moralmente segundo o direito e o castigo. Ai! Como nos livrarmos do fluxo das coisas e do castigo de existir? Onde est\u00e1, pois, a reden\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u201cNenhum fato pode ser destru\u00eddo. Como poder\u00e1 ser desfeito pelo castigo? Eis o que h\u00e1 de eterno no castigo de existir: A exist\u00eancia n\u00e3o pode ser outra coisa sen\u00e3o uma eterna sequ\u00eancia de fato e culpabilidade. A n\u00e3o ser que a vontade acabe por se libertar a si mesma e que o querer se mude em n\u00e3o querer\u201d<\/p>\n<p>Ainda sobre a reden\u00e7\u00e3o, Zaratustra assim diz que \u00e9 preciso que a vontade, que \u00e9 vontade de poder, queira alguma coisa mais elevada que a reconcilia\u00e7\u00e3o. Mas como pode ocorrer? Quem ensinar\u00e1 tamb\u00e9m a retroceder?\u00a0 No final, alerta ser dif\u00edcil viver entre os homens porque \u00e9 muito dif\u00edcil calar, sobretudo para um falador.<\/p>\n<p>Depois de toda conversa, o corcunda indagou: Por que \u00e9 que Zaratustra nos fala de uma maneira e de outra a seus disc\u00edpulos? Ele respondeu: Que h\u00e1 de surpreendente nisso? \u201cCom os corcundas pode-se muito bem falar uma linguagem corcunda!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em \u201cAssim Falava Zaratustra\u201d, de Nietzsche, no cap\u00edtulo \u201cDa Reden\u00e7\u00e3o\u201d, ele conta que um dia Zaratustra passava por uma ponte onde estavam \u201daleijados\u201d, mendigos e um corcunda. Eles disseram que passaram a acreditar nos ensinamentos de Zaratustra. 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