{"id":9650,"date":"2024-07-10T21:59:21","date_gmt":"2024-07-11T00:59:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9650"},"modified":"2024-07-10T22:02:09","modified_gmt":"2024-07-11T01:02:09","slug":"as-fofoqueiras-os-e-o-celular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/07\/10\/as-fofoqueiras-os-e-o-celular\/","title":{"rendered":"AS FOFOQUEIRAS (OS) E O CELULAR"},"content":{"rendered":"<p>As fofocas nunca se acabam, mesmo com as novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o. As presenciais ainda s\u00e3o melhores e mais proveitosas que as virtuais, as quais t\u00eam mais sabor; s\u00e3o mais sentimentais e emocionais.<\/p>\n<p>Falar bem ou mal um do outro vem desde o homem Neandertal. Tem gente que n\u00e3o quer saber da vida alheia, mas tem aqueles ou aquelas fofoqueiras (os) de l\u00ednguas ferinas que se alimentam dos erros e defeitos dos outros, e nem querem saber das virtudes, s\u00f3 quando morrem. Pura hipocrisia! Fulano era bondoso e um santo; vai fazer muita falta na terra!<\/p>\n<p>Antigamente, nas cidadezinhas do interior havia aquele h\u00e1bito das pessoas no final da tarde colocarem as cadeiras no passeio para prosear, principalmente as mulheres, mas havia tamb\u00e9m os compadres que chegavam da ro\u00e7a ou de seus afazeres. Naquele tempo, a grande maioria das mulheres era dom\u00e9sticas. Quando o sol baixava no poente, na hora da Ave Maria, seis horas, todos se benziam e agradeciam o dia com um am\u00e9m.<\/p>\n<p>Ah, tinha tamb\u00e9m aquela fofoqueira-mor que ficava na janela ou na porta olhando o movimento calmo dos passantes e sabia da vida de todo mundo, de cabo a rabo, pelo verso e avesso. Era a \u00e9poca onde o tempo parecia ter parado na monotonia das coisas. Nada acontecia de importante, mas a fofoca comia solta de boca em boca. Com as correrias de hoje, as fofocas ca\u00edram de produ\u00e7\u00e3o, mas permanecem vivas.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, l\u00e1 vai l\u00e1 o corno manso do Geraldo. A uma hora dessa a mulher deve estar com outro na cama &#8211; dizia a comadre para a outra, e a\u00ed a conversa rendia dando linha para a imagina\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o falta ao fofoqueiro (a), sempre criativos.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela \u201czinha\u201d \u00e9 uma vagabunda pecadora que fica se atracando com o Ferreirinha do P\u00e3o toda vez que o marido vai para o s\u00edtio trabalhar.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea acha que ele n\u00e3o sabe do sucedido, comadre? Dizem at\u00e9 que ele \u00e9 meio fresco e \u201cviado\u201d, que at\u00e9 j\u00e1 pegou a mulher no flagrar. Para dar uma de valent\u00e3o, arrastou um fac\u00e3o e disse apenas que ia cortar os dois na pr\u00f3xima vez.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vai o \u201cm\u00e3o de vaca\u201d avarento do Quincas que faz caso at\u00e9 de uma goiaba podre na ch\u00e1cara. Lembra de uma vez que ele teve uma briga feia com o amigo por causa de um tost\u00e3o? &#8211; apontou a outra. Acha que vai levar tudo no caix\u00e3o quando morrer, e tome falar de quem se atrevia cruzar a rua. N\u00e3o sobrava nem para crian\u00e7as (moleques) e idosos.<\/p>\n<p>&#8211; Ih, comadre, esqueci de botar mais \u00e1gua no feij\u00e3o. J\u00e1 estou sentindo o cheiro de queimado! Vou l\u00e1 e volto logo. Naquele tempo o fog\u00e3o era movido a lenha e a luz a motor diesel. Tudo se apagava por volta das dez horas da noite, mas antes tinha o sinal de alerta.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, comadre, quem passou aqui foi o coronel Juv\u00eancio com seu capanga. Contam at\u00e9 que o cabra \u00e9 pistoleiro matador pernambucano. Falam por a\u00ed que o coronel guarda dinheiro debaixo do colch\u00e3o e at\u00e9 na cumeeira da casa. \u00c9 um tipo seu Lunga, ranzinzo. Sabe que ele bate at\u00e9 na mulher?<\/p>\n<p>&#8211; Olha o safado do \u201cCani\u00e7o\u201d, sonso e dissimulado, metido a moralista! O boato \u00e9 que ele faz mal para a filha de 13 anos, com sua descara\u00e7\u00e3o, e a mulher, coitada, suporta tudo calada! O prefeito e a primeira dama tamb\u00e9m caiam no pau. O que mais rolavam eram as falcatruas dos dois. \u2013 Compraram at\u00e9 carro novo, e ela anda nos trinques!<\/p>\n<p>N\u00e3o faltavam tamb\u00e9m os homens fofoqueiros que falavam da seca, da cacimba sem \u00e1gua, das perdas das planta\u00e7\u00f5es, das d\u00edvidas e do dinheiro escasso, mas o papo tamb\u00e9m girava em torno de mulheres. Cada um mais machista que o outro.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, compadre, est\u00e1 sabendo do caso da filha de seu Joaozinho de Calu. Ficou mal falada com um cara a\u00ed que veio de S\u00e3o Paulo, todo metido a besta de \u00f3culos escuros, e depois foi embora.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 compadre, e a danada \u00e9 fogosa das pernas grossas e peitos formosos. Tamb\u00e9m s\u00f3 anda com aquele vestido decotado, pra l\u00e1 e pra c\u00e1 se rebolando, mostrando a bunda para todo mundo. Dizem at\u00e9 que est\u00e1 prenha. \u00c9 uma vaca!<\/p>\n<p>No p\u00e9 de ouvido, o outro revelou em segredo que comeu a dona Creuza, a vizinha que n\u00e3o parava de dar mole para ele, com aquela regaterice de sempre, toda serelepe.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado compadre que o marido dela caminhoneiro \u00e9 brabo e contam at\u00e9 que ele j\u00e1 matou um cara quando morava l\u00e1 para aquelas bandas da Para\u00edba. Dizem que veio parar aqui corrido da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u00c9, meus amigos, nos tempos que n\u00e3o existiam telefone com fio e celular m\u00f3vel, as fofocas, os boatos e as fake news corriam soltos de bocas em bocas, muitas maldosas e outras verdadeiras, mas com exageros. Como no ditado popular: Onde h\u00e1 fuma\u00e7a, h\u00e1 fogo.<\/p>\n<p>Agora com o celular e as redes sociais, onde quase ningu\u00e9m bota mais cadeiras nos passeios para papear por causa do progresso que gerou a viol\u00eancia, as fofocas n\u00e3o deixaram de existir. Continuam mais velozes e at\u00e9 mais agressivas, ofensivas e mortais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As fofocas nunca se acabam, mesmo com as novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o. As presenciais ainda s\u00e3o melhores e mais proveitosas que as virtuais, as quais t\u00eam mais sabor; s\u00e3o mais sentimentais e emocionais. Falar bem ou mal um do outro vem desde o homem Neandertal. 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