{"id":9622,"date":"2024-07-01T23:37:49","date_gmt":"2024-07-02T02:37:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9622"},"modified":"2024-07-01T23:38:12","modified_gmt":"2024-07-02T02:38:12","slug":"a-morte-e-soberana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/07\/01\/a-morte-e-soberana\/","title":{"rendered":"A MORTE \u00c9 SOBERANA"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; L\u00e1 vem voc\u00ea com este assunto triste e macabro \u2013 disse um amigo meu quando fal\u00e1vamos sobre quest\u00f5es existenciais, vida na terra, origens e seus mist\u00e9rios que nem a ci\u00eancia \u00e9 capaz de desvendar.<\/p>\n<p>&#8211; Sei que quase ningu\u00e9m gosta de tratar do tema e at\u00e9 faz de conta que ela n\u00e3o existe, principalmente os ricos e poderosos que fazem suas maracutais, usurpam dos direitos dos outros, roubam, corrompem, s\u00f3 pensam em se empanturrar no dinheiro e nas coisas materiais como se fossem eternos &#8211; respondi.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Nietzsche, que morreu louco, dizia que a morte \u00e9 como uma serpente que se arrasta como uma ladra e depois se torna uma soberana. Se comentamos e louvamos tanto a vida e ela est\u00e1 sempre presente na literatura, na poesia, na m\u00fasica e nas artes em geral, por que n\u00e3o discutir tamb\u00e9m sobre a morte? A morte s\u00f3 existe porque existe vida.<\/p>\n<p>A vida tem seus aperreios e gl\u00f3rias, talvez tanto quanto a morte. Quer queira ou n\u00e3o, ela est\u00e1 sempre presente entre n\u00f3s at\u00e9 com nomes esquisitos dados pela m\u00eddia, como curva da morte, trevo da morte, encruzilhada da morte e por a\u00ed vai. Meu amigo deu at\u00e9 risadas com isso, mas n\u00e3o \u00e9 coisa para se rir.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero entrar aqui no cerne filos\u00f3fico e teol\u00f3gico da sua exist\u00eancia, do onde viemos, o que somos e para onde vamos. Isso nos leva \u00e0 loucura do indesvend\u00e1vel do ser e s\u00f3 paramos na f\u00e9 e na religi\u00e3o, nos conformando com o pouco que temos, uma prova das limita\u00e7\u00f5es do conhecimento e do saber.<\/p>\n<p>Por medo, ou sei l\u00e1 qual motivo, muitos acham que n\u00e3o se deve falar dela para n\u00e3o dar azar, n\u00e3o trazer maus esp\u00edritos. Foi mais ou menos nesse pensar que meu amigo procurou se desvencilhar desse papo sobre a soberana.<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 cara, vamos conversar sobre coisas boas! Como sou chato continuei a dizer para ele que, como a vida, a morte tem seus imprevistos, suas artimanhas e se apresenta de v\u00e1rias maneiras e faces. A imagem que temos dela \u00e9 de uma alma penada vestida de branco com uma m\u00e1scara no rosto e uma foice na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m gostaria de se encontrar com ela para bater uma prosa. Fala s\u00e9rio! Quando algu\u00e9m a ver, tenta cortar por fora, mas n\u00e3o tem jeito, ela est\u00e1 por a\u00ed como enigma e mist\u00e9rio e cada religi\u00e3o a define da sua maneira. Os esp\u00edritas, por exemplo, dizem que ela n\u00e3o existe e que \u00e9 s\u00f3 uma passagem para a vida.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os cat\u00f3licos e evangelhos mandam trat\u00e1-la com resigna\u00e7\u00e3o e orientam passar a vida se preparando para ter uma boa morte. N\u00e3o sabia que ela era boa, mas uma trai\u00e7oeira que nos tira o prazer de vida, do curtir, do construir e do criar.<\/p>\n<p>Em algumas civiliza\u00e7\u00f5es ela \u00e9 festejada com pompas, dan\u00e7as, m\u00fasica e rituais alegres na cren\u00e7a de que ela \u00e9 vida e esp\u00edrito ancestral que vai viver em outra parte, at\u00e9 nas florestas e nas montanhas.<\/p>\n<p>Tem aquela hist\u00f3ria do barqueiro Caronte grego, filho de \u00c9rebo, que transporta os mortos por uma moeda para a outra margem do rio turvo. Ningu\u00e9m consegue ver o seu rosto. Essa ideia mitol\u00f3gica pode ter vinda dos povos eg\u00edpcios ou mesopot\u00e2mios. A moeda \u00e9 um \u00f3bolo de Caronte (forma de pagamento) colocada na boca dos mortos antes do enterro. O rio dividia o mundo dos vivos do mundo dos mortos.<\/p>\n<p>Tem gente que quando est\u00e1 naquela ang\u00fastia, naquele sufoco, com graves problemas para resolver, numa fase depressiva, na pobreza, na fome, na pris\u00e3o e onde nada d\u00e1 certo, pede at\u00e9 que ela venha logo. Nessas ocasi\u00f5es, a\u00ed \u00e9 que ela n\u00e3o vem mesmo e se faz de pirracenta malvada. N\u00e3o d\u00e1 liga e vai dar seus passeios por outras bandas.<\/p>\n<p>J\u00e1 imaginou como ela tem v\u00e1rias maneiras de se apresentar! \u00c0s vezes \u00e9 s\u00fabita e ligeira. Chega logo cedo nas crian\u00e7as e jovens, sem pedir licen\u00e7a e causa muito sofrimento e dor. Outras vezes deixa voc\u00ea ficar bem velho e depois lhe joga num leite de uma cama a penar, em casa ou num hospital.<\/p>\n<p>Na vida, \u00e9 preciso tamb\u00e9m ter a arte de engan\u00e1-la. Quando ela bater em sua porta, n\u00e3o atenda ou diga que est\u00e1 muito ocupado numa atividade, como a escrever um poema, fazendo um texto sobre ela, enchendo seu ego, um conto, um romance, uma pe\u00e7a teatral, um roteiro de cinema ou outra atividade qualquer e conven\u00e7a a retornar outro dia.<\/p>\n<p>V\u00e1 protelando o quanto puder, mesmo sabendo que a soberana \u00e9 persistente e nunca vai desistir. Um, dia chegar\u00e1 sua hora. Existem situa\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, que s\u00e3o os pr\u00f3prios homens e mulheres que atalham o natural e se tornam pr\u00f3prios mentores da soberana, quando na ira e na viol\u00eancia tiram a vida do outro.<\/p>\n<p>O Estado, por exemplo, o monstro dos monstros, \u00e9 a pr\u00f3pria morte ou faz um pacto com ela e parte para o exterm\u00ednio. As guerras s\u00e3o feitas em nome dela por ambi\u00e7\u00e3o, gan\u00e2ncia e poder. \u00c9, fiquei falando s\u00f3, porque meu amigo n\u00e3o me aturou e caiu fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; L\u00e1 vem voc\u00ea com este assunto triste e macabro \u2013 disse um amigo meu quando fal\u00e1vamos sobre quest\u00f5es existenciais, vida na terra, origens e seus mist\u00e9rios que nem a ci\u00eancia \u00e9 capaz de desvendar. &#8211; Sei que quase ningu\u00e9m gosta de tratar do tema e at\u00e9 faz de conta que ela n\u00e3o existe, principalmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9622"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9622"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9622\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9623,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9622\/revisions\/9623"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}