{"id":9603,"date":"2024-06-26T22:24:56","date_gmt":"2024-06-27T01:24:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9603"},"modified":"2024-06-26T22:25:03","modified_gmt":"2024-06-27T01:25:03","slug":"a-mulher-rendeira-e-o-erudito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/06\/26\/a-mulher-rendeira-e-o-erudito\/","title":{"rendered":"A MULHER RENDEIRA E O ERUDITO"},"content":{"rendered":"<p>Depois de tanto fu\u00e7ar nos estudos filos\u00f3ficos, teol\u00f3gicos, da ci\u00eancia, ler milhares de livros e colocar seu conhecimento e sabedoria acima da cabe\u00e7a dos outros, o erudito foi acometido pelo v\u00edrus do sofrimento e da dor.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguiu desvendar os enigmas e os mist\u00e9rios que nos cercam as origens planet\u00e1ria, do criador da vida, do infinito e o que h\u00e1 al\u00e9m da morte. Ele estava sendo consumido pelos pr\u00f3prios pensamentos, vivendo em compartimentos empoeirados. Suas pequenas m\u00e1ximas n\u00e3o alcan\u00e7avam a f\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, resolveu sair por a\u00ed pelo Nordeste para ouvir os mais humildes, os artes\u00e3os, os poetas, os cordelistas, repentistas e as express\u00f5es culturais do povo mais simples com suas crendices. Em suas andan\u00e7as, no sert\u00e3o mais agreste e profundo nordestino, terminou por se encontrar com uma velha senhora rendeira de bilros, que tamb\u00e9m sabia fiar, pacientemente, seu tecido naquele antigo tear que nos tempos atuais chamam de geringon\u00e7a.<\/p>\n<p>Por alguns instantes ficou embasbacado, boquiaberto ao ver a habilidade daquela mulher com os bilros e os fios entre os dedos das m\u00e3os no compasso certo com os p\u00e9s no pedal, num ritmo perfeito da fia\u00e7\u00e3o, bem diferente do seu c\u00e9rebro intrincado e confuso.<\/p>\n<p>Deu um bom dia, ou boa tarde, sei l\u00e1, e cumprimentou a senhora em voz baixa, meio sem jeito, com receio de atrapalhar seu trabalho. Ao sentir sua inquieta\u00e7\u00e3o, e ao olhar aquele senhor de barba de intelectual, apar\u00eancia fina e educado, como \u00e9 costume da gente do interior, a rendeira a ele se dirigiu:<\/p>\n<p>&#8211; Pode falar, seu doutor, n\u00e3o fique a\u00ed parado. Seja bem-vindo \u00e0 nossa renda e ao tear, profiss\u00f5es origin\u00e1rias e tradicionais das mulheres imigrantes portuguesas a\u00e7orianas, mas que est\u00e1 se acabando com o tempo. As jovens agora s\u00f3 querem ir para as cidades de celular na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como a senhora aprendeu essa arte t\u00e3o preciosa e admir\u00e1vel de confeccionar fios que se entrela\u00e7am, sem se embaralhar? \u2013 Indagou o doutor.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, seu doutor, tudo isso vem desde minha tatarav\u00f3, que passou para minha bisav\u00f3 e da\u00ed para minha av\u00f3, minha m\u00e3e e eu foi a \u00fanica das sete filhas que aprendeu esse of\u00edcio de rendar. Ela contou a hist\u00f3ria de dona \u201cSantinha\u201d, Maria Am\u00e9lia Furtado, a primeira rendeira famosa por essas redondezas. Tudo indica que ela era do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>O erudito, homem do querer esmiu\u00e7ar, quis saber de mais coisas e at\u00e9 pediu desculpas se n\u00e3o estava atrapalhando sua obra. Poderia confundir sua \u00e1gil m\u00e3o. Por um momento, ficou a matutar como o complicado se tornava simples e com resultados concretos no final, diferente das suas indaga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas que paravam em algum ponto, confusas e sem respostas. Sua rotina era um quebra-cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 N\u00e3o atrapalha n\u00e3o, seu doutor! Aqui a gente j\u00e1 faz tudo de olhos fechados, sem errar os pontos das linhas nos lugares certos. Pode ir falando que escuto. Passo o dia todo aqui sentada, no meu sil\u00eancio interior, que nem ou\u00e7o o barulho dos humanos, s\u00f3 o canto dos p\u00e1ssaros e o gado berrando na cacimba quando bate a seca e a falta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>O erudito quis saber de mais detalhes sobre seu trabalho, quais fios usava, se n\u00e3o era cansativo, estressante e se aquilo dava algum sustento para a fam\u00edlia, isto \u00e9 dinheiro, \u201cbufunfa\u201d, grana.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui \u00e9 uma terapia de vida e me sinto bem e feliz com isso. Fa\u00e7o com amor. Nada de estresse e cansa\u00e7o! Evita a gente ficar pensando em besteiras. Nem me preocupo com o tempo e at\u00e9 entro pela noite com o nosso velho lampi\u00e3o. Normalmente utilizamos os fios de linho, algod\u00e3o, seda, viscose e outros mais.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto a renda das rendas, seu doutor, d\u00e1 para sobreviver e n\u00e3o passar fome com a venda de colchas, len\u00e7\u00f3is, fronhas, redes, blusas e outras pe\u00e7as artesanais que algu\u00e9m compra ou levamos para as feiras das cidades. Tudo isso j\u00e1 \u00e9 um outro processo depois da fia\u00e7\u00e3o no bilro e no tear.<\/p>\n<p>Curioso, como todo estudioso do pensar e do saber, o doutor quis ver o produto final, que ele n\u00e3o consegue quando se depara com as d\u00favidas sobre Deus e outros mist\u00e9rios existenciais e espirituais. Em sua mente, os temas e assuntos sempre est\u00e3o al\u00e9m da sua cabe\u00e7a. Mesmo assim, o mestre erudito acha entender de tudo.<\/p>\n<p>A mulher rendeira o levou para uma sala apertada e mostrou suas rendas bem trabalhadas, feitas com todo carinho e dedica\u00e7\u00e3o, sem mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Ele ficou extasiado a olhar as rendas e bordados. Com as m\u00e3os, sentiu aquela textura fina, os tra\u00e7ados, os fios a deslizar e o cheiro do tecido em suas narinas.<\/p>\n<p>Repentinamente bateu um estalo em sua cabe\u00e7a, e o erudito prop\u00f4s comprar toda produ\u00e7\u00e3o da rendeira, e olha que nem pechinchou pre\u00e7o.\u00a0 O mais inesperado \u00e9 que ele terminou por fazer uma parceria com a rendeira para adquirir seus produtos.<\/p>\n<p>Depois daquela longa conversa experimental e pr\u00e1tica, do hotel retornou para a capital e l\u00e1 resolveu deixar tudo, inclusive sua c\u00e1tedra como professor. Montou uma loja de rendas artesanais nordestinas com o nome \u201cMulher Rendeira\u201d, para divulgar aquela cultura secular, ou porque n\u00e3o, milenar.<\/p>\n<p>Passou a ser mais feliz, alegre, emotivo e baniu o sofrer. Deixou seus colegas estupefatos e sem entender aquela brusca mudan\u00e7a de atitude.<\/p>\n<p>A mulher rendeira continuou a rendar, com toda paci\u00eancia do mundo, e at\u00e9 melhorou de vida como fornecedora do novo cliente comerciante que garantiu a si mesmo n\u00e3o explorar sua m\u00e3o-de-obra, ou de fada da artista da renda. \u201cOl\u00ea, mulher rendeira,\/ol\u00ea mulher rendar,\/me ensina a fazer renda\/que te ensino a namorar\u201d&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de tanto fu\u00e7ar nos estudos filos\u00f3ficos, teol\u00f3gicos, da ci\u00eancia, ler milhares de livros e colocar seu conhecimento e sabedoria acima da cabe\u00e7a dos outros, o erudito foi acometido pelo v\u00edrus do sofrimento e da dor. 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