{"id":9597,"date":"2024-06-22T00:30:15","date_gmt":"2024-06-22T03:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9597"},"modified":"2024-06-22T00:30:24","modified_gmt":"2024-06-22T03:30:24","slug":"canto-noturno-a-cancao-para-dancar-e-a-cancao-do-sepulcro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/06\/22\/canto-noturno-a-cancao-para-dancar-e-a-cancao-do-sepulcro\/","title":{"rendered":"CANTO NOTURNO, A CAN\u00c7\u00c3O PARA DAN\u00c7AR E A CAN\u00c7\u00c3O DO SEPULCRO"},"content":{"rendered":"<p>Com tons po\u00e9ticos e filos\u00f3ficos, Nietzsche, em \u201cAssim Falava Zaratustra,\u201d diz que \u00e9 insond\u00e1vel o que os olhos n\u00e3o podem penetrar e nele me afogo. A sabedoria e a vida se parecem. T\u00eam seu anzol de ouro.<\/p>\n<p>Na noite, falam mais alto todas as fontes que jorram, e minha alma tamb\u00e9m jorra. Todas as can\u00e7\u00f5es dos amantes despertam na noite. Minha alma \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de um homem que ama. Em mim h\u00e1 uma coisa insaci\u00e1vel que \u00e9 o desejo de amar e fala a linguagem do amor. Sou noite e, se n\u00e3o fosse, minha solid\u00e3o seria estar rodeado de luz.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo compara as estrelas cintilantes como vagalumes celestiais e expressa que ficaria cheio de ventura em receber vossa luz, mas vivo em minha pr\u00f3pria, absorvendo as chamas que de mim brotam.<\/p>\n<p>Para ele, a m\u00e3o que nunca se cansa de dar tem uma sorte maldita. \u00d3 eclipse do meu sol! \u00d3 desejo de desejar! \u00d3 fome devoradora na saciedade. Em sua vis\u00e3o, h\u00e1 um abismo entre dar e receber. Aquele que sempre dar corre o risco de perder o pudor. Aquele que reparte sem cessar acaba por calejar as m\u00e3os e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMeus olhos j\u00e1 n\u00e3o se arrasam de l\u00e1grimas ao ver a vergonha dos que imploram. Minha m\u00e3o endureceu demais para experimentar o tremor das m\u00e3os cheias\u201d. Mais adiante, fala que muitos s\u00f3is gravitam no espa\u00e7o vazio. Sua luz diz a tudo o que \u00e9 obscuro.<\/p>\n<p>Como tempestade, voam os s\u00f3is por suas \u00f3rbitas. \u00c9 a maneira deles de viajar. S\u00f3 as criaturas noturnas tiram vosso calor do luminoso. Tudo \u00e9 gelo em torno de mim e minha m\u00e3o se queima ao tocar o gelo. Se \u00e9 noite, por que hei de ser luz, ter sede do noturno e solid\u00e3o. \u00c9 noite e falam todas as fontes que jorram. Minha alma \u00e9 tamb\u00e9m uma fonte borbulhante. Despertam todas as can\u00e7\u00f5es dos que amam. Minha alma tamb\u00e9m \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que ama.<\/p>\n<p>Em can\u00e7\u00e3o para dan\u00e7ar, Nietzsche afirma ser advogado de Deus perante o diabo que \u00e9 o esp\u00edrito do peso. No vale, quando as donzelas veem Zaratustra, elas param, mas ele manda prosseguir. Diz ser selva e noite de \u00e1rvores sombrias, mas quem n\u00e3o se amedrontar, encontrar\u00e1 sob meus ciprestes coroas de rosas.<\/p>\n<p>\u201cSaber\u00e1 tamb\u00e9m encontrar o pequenino Deus preferido das donzelas dan\u00e7arinas. Est\u00e1 junto da fonte, tranquilo, de olhos fechados. Ele pede que as dan\u00e7arinas n\u00e3o se zanguem com sua presen\u00e7a, se contra o pequeno Deus ando tanto irritado. Ele pode gritar e chorar.<\/p>\n<p>Da sabedoria, sempre estamos sedentos dela e n\u00e3o nos saciamos. Olhamos atrav\u00e9s de seu v\u00e9u, sempre vers\u00e1til e obstinada. Pode ser m\u00e1 e falsa e me afoga no insond\u00e1vel. Ela diz: Tu queres, tu desejas, tu amas! E s\u00f3 por isso elogias a vida.<\/p>\n<p>De acordo com sua filosofia, ningu\u00e9m pode responder pior do que quando diz a verdade \u00e0 sua sabedoria. \u201cEu nada amo mais profundamente do que a vida\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Por que? Para que? Onde? Como? N\u00e3o \u00e9 uma loucura viver ainda. \u00c9 a noite que assim me interroga. Perdoai-me a tristeza.<\/p>\n<p>Na can\u00e7\u00e3o do sepulcro, ele fala de uma ilha taciturna onde l\u00e1 est\u00e3o os sepulcros da sua juventude. Vos todos, olhares de amor, momentos divinos! Como vos desvanecestes depressa! Penso hoje em v\u00f3s como em meus mortos.<\/p>\n<p>Dos mortos prediletos, afirma chegar a si um suave perfume que alivia seu cora\u00e7\u00e3o e faz correr as l\u00e1grimas. Esse perfume comove o cora\u00e7\u00e3o do navegante solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nietzsche fala dos fugitivos que morreram para ele. Sou ainda o herdeiro e a heran\u00e7a de vosso amor onde florescem as virtudes silvestres de todas as cores. N\u00e3o fugistes de mim e nem eu de v\u00f3s. N\u00e3o somos culpados reciprocamente de nossa infidelidade.<\/p>\n<p>Eu te amaldi\u00e7oou, oh morte soberana que abreviastes minha eternidade, como se interrompe um som na fria noite. \u201cMatastes as vis\u00f5es e os prod\u00edgios mais caros da minha juventude. Tirastes de mim meus companheiros de jogo, os esp\u00edritos bem-aventurados. Em mem\u00f3ria deles, deposito esta coroa e esta maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPara mim todos os seres devem ser divinos. Me assombrastes com imundos fantasmas. Na sabedoria da minha juventude, todos os dias devem ser sagrados para mim. Assim me falava outrora a sabedoria de minha juventude. Afasta de mim tua sombra fantasmag\u00f3rica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOutrora eu suspirava por bons press\u00e1gios e ent\u00e3o lan\u00e7astes em meu caminho uma monstruosa coruja. Como cego percorri caminhos felizes e neles lan\u00e7astes vossas imundices. Envenenastes meu melhor mel e o zelo de minhas melhores abelhas\u201d.<\/p>\n<p>Zaratustra reclama que a morte entoou para seus companheiros uma surda e l\u00fagubre melodia. Cantor assassino, instrumento da maldade, tu, que eras o mais inocente. Eu estava pronto para a mais bela dan\u00e7a e tu com teus sons mataste meu embalo. No final da sua conversa, ele diz que onde h\u00e1 sepulturas h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com tons po\u00e9ticos e filos\u00f3ficos, Nietzsche, em \u201cAssim Falava Zaratustra,\u201d diz que \u00e9 insond\u00e1vel o que os olhos n\u00e3o podem penetrar e nele me afogo. A sabedoria e a vida se parecem. T\u00eam seu anzol de ouro. Na noite, falam mais alto todas as fontes que jorram, e minha alma tamb\u00e9m jorra. 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