{"id":9442,"date":"2024-05-10T00:28:23","date_gmt":"2024-05-10T03:28:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9442"},"modified":"2024-05-10T00:28:52","modified_gmt":"2024-05-10T03:28:52","slug":"vivendo-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/05\/10\/vivendo-das-palavras\/","title":{"rendered":"VIVENDO DAS PALAVRAS"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>\u201cLutar com palavras<\/p>\n<p>\u00e9 a luta mais v\u00e3.<\/p>\n<p>Entanto lutamos<\/p>\n<p>mal rompe a manh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>(Versos iniciais do poema \u201cO Lutador\u201d, de Carlos Drummond de Andrade).<\/p>\n<p>Pior do que o patr\u00e3o era o chefe do Departamento Pessoal. Se ele achasse uma brecha, descontava 11 centavos do seu contracheque. \u201cFoi o dia em que voc\u00ea bateu o ponto com um minuto de atraso\u201d.<\/p>\n<p>Jornalista nunca gostou de bater ponto. Um absurdo cobrar que um rep\u00f3rter bata entrada e sa\u00edda. Voc\u00ea n\u00e3o pode largar uma entrevista \u00e0s 13 horas dizendo que precisa ir ao jornal para \u201cbater a sa\u00edda\u201d. N\u00e3o \u00e9 porque o jornalista n\u00e3o goste do ponto, \u00e9 porque n\u00e3o pode. A empresa tem que pagar hora extra ou um sal\u00e1rio que a contemple.<\/p>\n<p>Os rep\u00f3rteres s\u00e3o parecidos com os atores de teatro, que sabem que o ensaio tem hora de come\u00e7ar, mas n\u00e3o tem hora de acabar. Jornalistas e atores trabalham com as palavras, e n\u00e3o h\u00e1 \u201cluta mais v\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>O Departamento Pessoal, com a modernagem, passou a se chamar de Errehag\u00e1, um pomposo nome. Num jornal em que trabalhei, quando fui demitido, o chefe do RH (um \u201cfode mansinho\u201d, como todos) me disse com sua voz aveludada: \u201cO diretor mandou lhe dizer que quando precisar de alguma coisa \u00e9 s\u00f3 ligar para ele. O jornal continua \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o\u201d. Sim, jacar\u00e9!<\/p>\n<p>Num jornal aconteceu comigo um caso curioso, j\u00e1 narrado numa cr\u00f4nica antiga, mas que vale a pena repetir:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 do jornal?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, sim.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto voc\u00eas pagam por uma boa ideia?<\/p>\n<p>&#8211; Depende. Voc\u00ea manda sua ideia pra gente, o jornal analisa e, se aprovar, compra sua ideia.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde?! Depois voc\u00eas ficam com a minha ideia e n\u00e3o me pagam \u2013 e bateu o telefone.<\/p>\n<p>Voltando ao Departamento Pessoal. O jornal convidou um excelente redator e o cara foi ao DP para fazer a ficha funcional. O chefe do DP folheou sua carteira profissional e viu anota\u00e7\u00f5es de emprego de \u201cO Globo\u201d, \u201cJornal do Brasil\u201d, \u201c\u00daltima Hora\u201d, \u201cRevista Manchete\u201d e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor trabalhou nesses lugares todos?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso a\u00ed \u00e9 mentira, eu falsifiquei tudo.<\/p>\n<p>Para complementar a renda (jornalista em geral ganha pouco), trabalhei como redator num seman\u00e1rio onde ia duas vezes por semana. Entre outras atribui\u00e7\u00f5es, eu tinha que escrever sobre uma mulher de biquini (as fotos sempre eram sempre nas pedras do Farol da Barra) que ocupava a \u00faltima p\u00e1gina. O diagramador colocava as fotos da bunduda na p\u00e1gina e me intimava: \u201cPreciso de 15 linhas\u201d. A mulher apareceu para ser entrevistada. N\u00e3o leu nem \u201cO Pequeno Pr\u00edncipe\u201d, e eu tinha que produzir suadas 15 linhas para fechar a p\u00e1gina. Uma bunda nas pedras da praia e uma mulher sem assunto. \u201cLuta mais v\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) \u201cLutar com palavras \u00e9 a luta mais v\u00e3. Entanto lutamos mal rompe a manh\u00e3\u201d. (Versos iniciais do poema \u201cO Lutador\u201d, de Carlos Drummond de Andrade). Pior do que o patr\u00e3o era o chefe do Departamento Pessoal. 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